domingo, 13 de maio de 2012

Pedrinhas


Reter na mente coisas desagradáveis é como andar


com pedrinhas dentro do sapato:

enquanto você estiver caminhando pela estrada da vida,


elas o machucarão e o atormentarão.

Por que não jogar fora essas pedrinhas,

que estão no sapato da sua mente?

Masaharu Taniguchi

sábado, 12 de maio de 2012

Problemas


Os problemas nunca vão desaparecer,
mesmo na mais bela existência.

Problemas existem para serem resolvidos,
e não para perturbar-nos.

A maior represália contra um inimigo
é perdoá-lo.


Se o perdoamos,
ele morre como inimigo
e renasce a nossa paz.


O perdão nutre a tolerância e a sabedoria .


 Augusto Cury

quinta-feira, 10 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Deus triste

Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.

Deus não está diante de Deus.

Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus: eterna.


Deus criou triste.

Outra fonte não tem a tristeza do homem.


Carlos Drummond Andrade

















sábado, 5 de maio de 2012

Rouxinol

Guardava o rouxinol numa caixinha.
Tudo o que queria
era andar com o rouxinol
empoleirado no dedo.
Mas,
se abrisse a caixinha,
ah! certamente fugiria.
Então amorosamente cortou o dedo.
E,
através de uma mínima fresta,
o enfiou na caixinha."

Marina Colasanti

quarta-feira, 2 de maio de 2012




Não faço poemas como quem chora,


nem faço versos como quem morre.

Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira

quando muito moço; achava que tinha


os dias contados pela tísica


e até se acanhava de namorar.






Faço poemas como quem faz amor.


É a mesma luta suave e desvairada


enquanto a rosa orvalhada


se vai entreabrindo devagar.


A gente nem se dá conta, até acha bom,


o imenso trabalho que amor dá para fazer.






Perdão, amor não se faz.


Quando muito, se desfaz.


Fazer amor é um dizer


(a metáfora é falaz)


de quem pretende vestir


com roupa austera a beleza


do corpo da primavera.


O verbo exato é foder.


A palavra fica nua


para todo mundo ver


o corpo amante cantando


a glória do seu poder




Thiago de Mello

domingo, 29 de abril de 2012

Antepassado




Só te conheço de retrato,

não te conheço de verdade,

mas teu sangue bole em meu sangue

e sem saber te vivo em mim

e sem saber vou copiando

tuas imprevistas maneiras,

mais do que isso: teu fremente

modo de ser, enclausurado

entre ferros de conveniência

ou aranhóis de burguesia,

vou descobrindo o que me deste

sem saber que o davas, na líquida

transmissão de taras e dons,

vou te compreendendo, somente

de esmerilar em teu retrato

o que a pacatez de um retrato

ou o seu vago negativo,

nele implícito e reticente,

filtra de um homem; sua face

oculta de si mesmo; impulso

primitivo; paixão insone

e mais trevosas intenções

que jamais assumiram ato

nem mesmo sombra de palavra,

mas ficaram dentro de ti

cozinhadas em lenha surda.

Acabei descobrindo tudo

que teus papéis não confessaram

nem a memória de família

transmitiu como fato histórico

e agora te conheço mais

do que a mim próprio me conheço,

pois sou teu vaso e transcendência,

teu duende mal encarnado.

Refaço os gestos que o retrato

não pode ter, aqueles gestos

que ficaram em ti à espera

de tardia repetição,

e tão meus eles se tornaram,

tão aderentes ao meu ser

que suponho tu os copiaste

de mim antes que eu os fizesse,

e furtando-me a iniciativa,

meu ladrão, roubaste-me o espírito.

Carlos Drummond de Andrade



sábado, 21 de abril de 2012

Testamento

À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,


Deixo os meus brincos, lavrados


Em cristal, límpido e puro...


                       E àquela virgem esquecida


                      Rapariga sem ternura,

                     Sonhando algures uma lenda,


                     Deixo o meu vestido branco,


                    O meu vestido de noiva,


                    Todo tecido de renda...


Este meu rosário antigo


Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus


Das contas de outro sofrer,


São para os homens humildes,


Que nunca souberam ler.


                                Quanto aos meus poemas loucos,


                                Esses, que são de dor


                               Sincera e desordenada...


                               Esses, que são de esperança,


                               Desesperada mas firme,


                              Deixo-os a ti, meu amor...

                             Para que, na paz da hora,

                             Em que a minha alma venha


                            Beijar de longe os teus olhos,

                            Vás por essa noite fora...


                           Com passos feitos de lua,


                            Oferecê-los às crianças


                            Que encontrares em cada rua...




Alda Lara

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem é quem

Posso dizer: estou pronto


para me dar ao que vier.

Posso errar, mas não por medo


de me ser no que fizer.


Quem me pode responder


que sabe ser, sendo inteiro


fiel e simples, sendo a tudo


que faz e não quer fazer?




Thiago de Mello

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para os que virão


Como sei pouco, e sou pouco,


faço o pouco que me cabe


me dando inteiro.


Sabendo que não vou ver


o homem que quero ser.


                                                Já sofri o suficiente


                                                para não enganar a ninguém:


                                               principalmente aos que sofrem


                                              na própria vida, a garra


                                             da opressão, e nem sabem.



Não tenho o sol escondido


no meu bolso de palavras.

Sou simplesmente um homem


para quem já a primeira


e desolada pessoa


do singular - foi deixando,


devagar, sofridamente


de ser, para transformar-se


- muito mais sofridamente -


na primeira e profunda pessoa


do plural.


                                                 Não importa que doa: é tempo


                                                de avançar de mão dada


                                               com quem vai no mesmo rumo,


                                              mesmo que longe ainda esteja


                                             de aprender a conjugar


                                             o verbo amar.






É tempo sobretudo


de deixar de ser apenas

a solitária vanguarda

de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.

( Dura no peito, arde a límpida

verdade dos nossos erros. )

Se trata de abrir o rumo.



                                              Os que virão, serão povo,

                                             e saber serão, lutando.


Thiago de Mello

domingo, 15 de abril de 2012

Aula de Português

A linguagem

na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.


Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.


Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.


O português são dois; o outro, mistério.




Carlos Drummond Andrade




quarta-feira, 4 de abril de 2012

Medo





Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.


Medo de dormir à noite.

Medo de não dormir.

Medo de que o passado desperte.


Medo de que o presente alce voo.


Medo do telefone que toca no silêncio da noite.


Medo de tempestades elétricas.


Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!


Medo de cães que supostamente não mordem.


Medo da ansiedade!


Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.


Medo de ficar sem dinheiro.


Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.


Medo de perfis psicológicos.


Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.


Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.


Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta  culpado.


Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice,  e na minha.

Medo da confusão.

Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.

Medo de acordar e ver que você partiu.

Medo de não amar e medo de não amar o bastante.

Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.

Medo da morte.

Medo de viver demais.

Medo da morte.


Já disse isso.




Raymond Carver



Tradução: Cide Piquet





sábado, 31 de março de 2012

Ronda



O toque do sino
o latido do cão
o ruído de passos.
É tudo tempo pretérito
que conjugaremos até a morte?
Que noite é essa
que amanhã reconheceremos?
Que corpo é esse
que não é o nosso?
Em que pensamos nessa madrugada
de sombras que se arrastam até o futuro
onde logo mais estaremos e não estaremos?
Quem somos nós aqui
que já não recordamos?
Que tempo passa e não passa
ó almas que não dormem nunca?


Lenilde Freitas

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sábios




Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros,
uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros.






Augusto Cury

terça-feira, 20 de março de 2012

Canção a caminho do céu




Foram montanhas? foram mares?
foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!



As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.



Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.



Cecília Meireles

domingo, 18 de março de 2012

Volúpia



"No fundo, não há bons nem maus.
Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem
e os que sentem prazer em fazer o mal.
Tudo é volúpia…"

Mário Quintana

sexta-feira, 16 de março de 2012

Quero ser teu amigo




Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo,
de acertar nossas distâncias...

Fernando Pessoa

quarta-feira, 7 de março de 2012

Estranha sombra





A noite entra
sem levantar os olhos.

A lâmpada acesa
é mero lampejo
— sorriso sem alegria.

No desenho do prato
sobre a mesa
um pássaro cruza o horizonte
onde rubra declina a luz do dia.

Por que sangra
o céu desta paisagem?

Por que resmunga
lá fora a ventania?


Lenilde Freitas

terça-feira, 6 de março de 2012

Perdoe seus pais



Gostamos mais de punir do que amar e perdoar. Para reclamar e cobrar, não pensamos duas vezes. Para desculpar, ainda estamos pensando.

Todo marido ou esposa sofre com a separação. É resistir ao transbordamento do ressentimento, acompanhar com pesar a transformação de uma personalidade atenta e interessada em tudo o que você diz para um ente completamente estranho, indiferente e amargo, que mal olha em seus olhos.

Se a antipatia declarada do divórcio já atormenta, não conheço algo mais cruel do que a distância de uma mãe de seu filho. Quando o filho rompe com os pais velhos e demora a fazer as pazes, confiando num futuro infinito para a reconciliação.

Na praia do Cassino, a amiga Berenice, 73 anos, comprou duas casas geminadas, uma para si e outra para seu filho, Juvenal, 39.

O que ela não previa era o estremecimento das relações entre os dois. O boicote filial vem durando quatro veraneios.

Juvenal prepara churrasco, recebe amigos e familiares, brinca com os vizinhos, e jamais convida sua mãe a participar de qualquer festa. Ela fica na varanda, triste e sonolenta, observando a algazarra, mexendo sua cadeira de balanço para trás e para frente.

Juvenal passa de manhã pela residência materna, que é caminho da padaria, e não a cumprimenta nem na ida, muito menos na volta. Atravessa reto, como se ela não existisse, como se fosse um túmulo desconhecido.

Seu desprezo extrapolou a conta. Mesmo que tenha razão em brigar, não há sentido em prolongar a dor de alguém que envelheceu.

Ela experimentou 60 dias na praia com a expectativa de uma retomada dos laços com sua criança grande. E os dias são décadas para a terceira idade. E as décadas são séculos para os cabelos grisalhos.

Não tomava banho de mar para não correr risco de perder o reencontro. Mantinha-se tricotando na entrada, despistando o choro da voz. Uma Penélope do próprio ventre. Uma viúva de suas vísceras.

É um erro forçar que nossos pais mudem de comportamento, é uma tolice educá-los com reprimendas e devolver castigos da infância, é inútil propor que eles concordem com nossas opiniões. Forçar uma retratação não tem sentido. O ódio é apenas um segundo nome da dependência.

O filho sempre será o lado mais fraco, acostume-se, o lado que deve ceder. Não é justo brigar com quem tem o dobro de nossa idade. Podemos guerrear com irmão, virar as costas a um amigo, onde ocorre uma equivalência etária, onde haverá tempo para acertar as arestas.

Mas nunca destrate pai e mãe enrugados. Finja que concorda. Mude de assunto. Não seja o centro da discórdia. Não prolongue o mal-estar. Estar certo não nos acrescenta em importância.

Esqueça o rancor. Antes que a morte seja a última lembrança. E o arrependimento cubra a lápide com a voracidade dos inços.


Fabricio Carpinejar
Zero Hora 06/03/2012

sábado, 3 de março de 2012

Quando eu quero ser mau

A melhor qualidade que um ser humano pode ter é a bondade. Kant não concordaria. Do alto de sua capacidade filosófica germânica, ele não considerava a bondade predicado. Por uma razão irredutível: por ser inata. Quer dizer: a pessoa nasce com aquilo, não se esforça para sê-lo. Como a beleza física – não existe nenhum mérito nela, a não ser uma harmônica combinação de genes.

Mas, embora não haja méritos, não há nada de errado em admirar quem foi dotado com uma boa aparência ou com um bom coração. O mundo é um lugar melhor para se viver quando andam sobre sua superfície uma Megan Fox ou um Gandhi.

Só que a beleza não cansa, mesmo quando surge em excesso, como a de Catherine Deneuve em horário nobre. Bondade, sim. Bondade demais cansa.

Digo isso porque tenho uns dois amigos, não mais do que dois, que são tão bonzinhos que despertam em mim o que tenho de pior. Aquela bondade melequenta me irrita. Quero ser mau quando estou com eles e, o mais grave, transformo-me, realmente, em uma pessoa má. Vejo malícia em tudo, enxergo todos pelo lado ruim, sou crítico e amargo, sou agressivo, sou veemente, sou como alguns comentaristas de blog.

Como pode a bondade pura gerar sentimentos ruins?

Aí está. Entendo o motivo. Ainda que Jesus tenha garantido que os mansos herdarão a Terra, a mansidão não é uma qualidade apreciada pela maioria das pessoas. Porque a mansidão parece frouxidão, e as pessoas não gostam de quem é frouxo. As pessoas gostam de quem é bom, sim, mas desde que a bondade seja atuante, decidida e positiva, jamais passiva. A bondade tem de saber ver a maldade onde a maldade existe.

....

David Coimbra
Zero Hora 28/02/2012

quinta-feira, 1 de março de 2012



E se é verdade que o tempo não volta,



também deveria ser verdade



que os amigos não se perdem.”




Caio F. Abreu

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mar azul





mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul


Ferreira Gullar

sábado, 18 de fevereiro de 2012



A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.

Por isso, cante, dance, chorre, ria e viva intensamente,

antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.



Charles Chaplin

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Imagem: Sushi


Devo aos gatos o poder da honrosa dissimulação,

um grande autocontrole,

a instintiva aversão por ruídos

e a necessidade de me calar por longos períodos.


(Collete)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poema ideal



Poema
ideal
é o
que
de cima para baixo e
de baixo para cima
quer dizer o mesmo
como este que
quer dizer o mesmo
de baixo para cima
de cima para baixo e
que
é o
ideal
poema.

Luis Fernando Verissimo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Lagoa



Eu não vi o mar
Não sei se o mar é bonito,
Não sei se lê é bravo.
O mar não me importa

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.



Na chuva de cores
Da tarde que explode
A lagoa brilha
A lagoa se pinta
De todas as cores.
Eu não vi o mar.


Eu vi a lagoa

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Anzol




Ao entardecer
afio meu anzol de pescar
palavras .

No ar azul meu corpo
flutua livre da gravidade
misturado com as flores
que habitam os telhados,
misturado com os anjos
e os pássaros.


Letra por letra,
desejo por desejo,
a palavra amor lateja
na primeira estrela.



Roseana Murray