quarta-feira, 7 de março de 2012

Estranha sombra





A noite entra
sem levantar os olhos.

A lâmpada acesa
é mero lampejo
— sorriso sem alegria.

No desenho do prato
sobre a mesa
um pássaro cruza o horizonte
onde rubra declina a luz do dia.

Por que sangra
o céu desta paisagem?

Por que resmunga
lá fora a ventania?


Lenilde Freitas

terça-feira, 6 de março de 2012

Perdoe seus pais



Gostamos mais de punir do que amar e perdoar. Para reclamar e cobrar, não pensamos duas vezes. Para desculpar, ainda estamos pensando.

Todo marido ou esposa sofre com a separação. É resistir ao transbordamento do ressentimento, acompanhar com pesar a transformação de uma personalidade atenta e interessada em tudo o que você diz para um ente completamente estranho, indiferente e amargo, que mal olha em seus olhos.

Se a antipatia declarada do divórcio já atormenta, não conheço algo mais cruel do que a distância de uma mãe de seu filho. Quando o filho rompe com os pais velhos e demora a fazer as pazes, confiando num futuro infinito para a reconciliação.

Na praia do Cassino, a amiga Berenice, 73 anos, comprou duas casas geminadas, uma para si e outra para seu filho, Juvenal, 39.

O que ela não previa era o estremecimento das relações entre os dois. O boicote filial vem durando quatro veraneios.

Juvenal prepara churrasco, recebe amigos e familiares, brinca com os vizinhos, e jamais convida sua mãe a participar de qualquer festa. Ela fica na varanda, triste e sonolenta, observando a algazarra, mexendo sua cadeira de balanço para trás e para frente.

Juvenal passa de manhã pela residência materna, que é caminho da padaria, e não a cumprimenta nem na ida, muito menos na volta. Atravessa reto, como se ela não existisse, como se fosse um túmulo desconhecido.

Seu desprezo extrapolou a conta. Mesmo que tenha razão em brigar, não há sentido em prolongar a dor de alguém que envelheceu.

Ela experimentou 60 dias na praia com a expectativa de uma retomada dos laços com sua criança grande. E os dias são décadas para a terceira idade. E as décadas são séculos para os cabelos grisalhos.

Não tomava banho de mar para não correr risco de perder o reencontro. Mantinha-se tricotando na entrada, despistando o choro da voz. Uma Penélope do próprio ventre. Uma viúva de suas vísceras.

É um erro forçar que nossos pais mudem de comportamento, é uma tolice educá-los com reprimendas e devolver castigos da infância, é inútil propor que eles concordem com nossas opiniões. Forçar uma retratação não tem sentido. O ódio é apenas um segundo nome da dependência.

O filho sempre será o lado mais fraco, acostume-se, o lado que deve ceder. Não é justo brigar com quem tem o dobro de nossa idade. Podemos guerrear com irmão, virar as costas a um amigo, onde ocorre uma equivalência etária, onde haverá tempo para acertar as arestas.

Mas nunca destrate pai e mãe enrugados. Finja que concorda. Mude de assunto. Não seja o centro da discórdia. Não prolongue o mal-estar. Estar certo não nos acrescenta em importância.

Esqueça o rancor. Antes que a morte seja a última lembrança. E o arrependimento cubra a lápide com a voracidade dos inços.


Fabricio Carpinejar
Zero Hora 06/03/2012

sábado, 3 de março de 2012

Quando eu quero ser mau

A melhor qualidade que um ser humano pode ter é a bondade. Kant não concordaria. Do alto de sua capacidade filosófica germânica, ele não considerava a bondade predicado. Por uma razão irredutível: por ser inata. Quer dizer: a pessoa nasce com aquilo, não se esforça para sê-lo. Como a beleza física – não existe nenhum mérito nela, a não ser uma harmônica combinação de genes.

Mas, embora não haja méritos, não há nada de errado em admirar quem foi dotado com uma boa aparência ou com um bom coração. O mundo é um lugar melhor para se viver quando andam sobre sua superfície uma Megan Fox ou um Gandhi.

Só que a beleza não cansa, mesmo quando surge em excesso, como a de Catherine Deneuve em horário nobre. Bondade, sim. Bondade demais cansa.

Digo isso porque tenho uns dois amigos, não mais do que dois, que são tão bonzinhos que despertam em mim o que tenho de pior. Aquela bondade melequenta me irrita. Quero ser mau quando estou com eles e, o mais grave, transformo-me, realmente, em uma pessoa má. Vejo malícia em tudo, enxergo todos pelo lado ruim, sou crítico e amargo, sou agressivo, sou veemente, sou como alguns comentaristas de blog.

Como pode a bondade pura gerar sentimentos ruins?

Aí está. Entendo o motivo. Ainda que Jesus tenha garantido que os mansos herdarão a Terra, a mansidão não é uma qualidade apreciada pela maioria das pessoas. Porque a mansidão parece frouxidão, e as pessoas não gostam de quem é frouxo. As pessoas gostam de quem é bom, sim, mas desde que a bondade seja atuante, decidida e positiva, jamais passiva. A bondade tem de saber ver a maldade onde a maldade existe.

....

David Coimbra
Zero Hora 28/02/2012

quinta-feira, 1 de março de 2012



E se é verdade que o tempo não volta,



também deveria ser verdade



que os amigos não se perdem.”




Caio F. Abreu

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mar azul





mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul


Ferreira Gullar

sábado, 18 de fevereiro de 2012



A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.

Por isso, cante, dance, chorre, ria e viva intensamente,

antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.



Charles Chaplin

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Imagem: Sushi


Devo aos gatos o poder da honrosa dissimulação,

um grande autocontrole,

a instintiva aversão por ruídos

e a necessidade de me calar por longos períodos.


(Collete)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poema ideal



Poema
ideal
é o
que
de cima para baixo e
de baixo para cima
quer dizer o mesmo
como este que
quer dizer o mesmo
de baixo para cima
de cima para baixo e
que
é o
ideal
poema.

Luis Fernando Verissimo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Lagoa



Eu não vi o mar
Não sei se o mar é bonito,
Não sei se lê é bravo.
O mar não me importa

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.



Na chuva de cores
Da tarde que explode
A lagoa brilha
A lagoa se pinta
De todas as cores.
Eu não vi o mar.


Eu vi a lagoa

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Anzol




Ao entardecer
afio meu anzol de pescar
palavras .

No ar azul meu corpo
flutua livre da gravidade
misturado com as flores
que habitam os telhados,
misturado com os anjos
e os pássaros.


Letra por letra,
desejo por desejo,
a palavra amor lateja
na primeira estrela.



Roseana Murray

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Atchim



Minha mulher até hoje se assusta com meu espirro. É que sou um adepto do espirro criativo. Espirro criativo é uma performance artística áudio-coreográfica, que aproveita a oportunidade para transformar um simples ato reflexo do corpo humano em uma obra de arte.

Como sou um sujeito que convive com um processo crônico de sinusite alérgica – que fecha meu nariz ao contato com mofo, poeira, ácaro e perfumes em geral – costumo desfrutar ao máximo toda vez que a vida me proporciona a liberdade de um espirro, um mini furacão que chega a atingir a espantosa velocidade de 150 km/h.

Aprendi desde criança que trancar espirro é um perigo, pode descer pro... pras partes de baixo. Quando vem aquela vontade, tem que deixar sair. E aproveitar a ocasião. Um espirro bem dado é quase um orgasmo. Comentei isso com um amigo e ele me retrucou: “ou eu não sei espirrar direito, ou você nunca transou na vida”.

Acho um desperdício soltar apenas um Atchim discreto, quando se pode criar uma ópera, uma peça sinfônica. Ontem mesmo soltei um Rasqutiamaniafructieblon!!! Em alto e bom som. Minha alma, em enorme euforia, saiu junto pelas fossas nasais. Graças a Deus consegui agarrá-la a tempo e fazê-la retornar às suas funções de origem. Às vezes, aproveito para prestar alguma homenagem, lembrando celebridades como “Rachmaninoff”, “Dostoiévski” ou até mesmo para exorcizar alguns demônios como “Olarticoechea”.

Em cada país, o espirro tem uma sonoridade típica. Na França se diz Atchum, na Alemanha, Hatschi e nos Estados Unidos, Atchoo. No Japão é Hacushon, na China, Penti e na Tailândia, Hutchew. Ou seja, quando você for viajar, procure estudar a maneira correta de espirrar em língua estrangeira, senão você vai ficar sem as respostas simpáticas, do tipo “Saúde”, “Deus te crie” (“pro bem, porque pro mal já está criado”).

O nome do espirro é uma onomatopéia que tenta reproduzir o som que é emitido na hora do orgasmo, quer dizer, do ato reflexo. E, como toda onomatopéia, é passível de interpretações variadas. É aí que entra o espirro criativo. Qualquer um tem direito de escolher o som que sai do seu corpo. Você não precisa ficar condicionado ao tradicional Atchim. Liberte sua alma. Invente seu próprio espirro. Personalize, customize. Enfim, divirta-se um pouco. Afinal, o mundo vai acabar em 2012.

Kledir Ramil

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Marido e mulher



Em princípio, tenho um pé atrás com essas pessoas que apresentam sua mulher assim: “Esta é minha esposa”. Minha desconfiança se deve a que “minha mulher” não tem de ser trocada pela expressão “minha esposa”. É pernosticismo, é afetação chamar “minha mulher” de minha esposa.

Já sei que os objetadores de plantão irão contrapor que, então, as mulheres não devem dizer “meu marido”, e sim “meu homem”. É diferente. No caso, “meu homem” é chocante, porque na nossa língua e no nosso costume vernacular “meu homem” quer dizer “meu macho”. E não fica bem a uma mulher classificar seu marido de seu macho porque, como se sabe, o homem, para a mulher, tem mais de 1001 utilidades do que ser macho. “Meu esposo”, para mim também é uma expressão pedante. A colocação politicamente certa é “meu marido”.

Da mesma forma, desconfio de todas as pessoas, homens e mulheres, que chamam suas empregadas domésticas de “secretária”. Empregada doméstica é uma profissão honrosa, digna, de grande utilidade social. Não precisa da classificação de “secretária”, que é outra coisa completamente diferente. E o pior é que quase todas as pessoas que chamam suas empregadas domésticas de secretárias não lhes dão salários de secretárias, mas sim de empregadas domésticas. Secretária só no nome. Enquanto muita gente que chama suas empregadas domésticas de “empregadas domésticas” paga-lhes o salário superior de secretárias.

Além disso, nesse caso de empregada doméstica e secretária, mulher e esposa, cada dupla de palavras não se constitui de sinônimos, portanto não têm o mesmo sentido. Já a expressão “minha patroa”, no lugar de “minha mulher”, é muito simpática, é a cordial e bem resignada manifestação do marido de que é dominado pela mulher. Exatamente por isso é que soaria muito mal a uma mulher apresentar seu marido como “meu patrão”. Indevido. Porque nenhum marido manda na mulher.

Por sinal, esta palavra “patroa” só se aplica bem no feminino, como mostrei acima. Ninguém gosta de apresentar numa roda alguém como “meu patrão”. Não sei bem por que, mas parece pejorativo a quem é empregado. Eu, de minha parte, desde o tempo em que trabalhei na feira livre até os dias de hoje, em que sou jornalista, apresento meus patrões assim, circunstancialmente, em uma roda:

– Apresento-lhe meu ‘amigo’.

Talvez seja porque nunca consegui trabalhar de empregado de alguém por algum tempo sem torná-lo meu amigo. Sempre que meu patrão deixou de ser meu amigo, pedi demissão de meus empregos. Não tem sentido trabalhar com um “inimigo” ou um “indiferente” como patrão. Só há sentido, principalmente em empresas pequenas, trabalhar para patrão de quem a gente se orgulhe e o mesmo serve para o patrão: tem de se orgulhar de seu empregado. Em caso contrário, vai e vem e se instala o conflito.

Mas os tempos mudaram. E hoje é muito comum que aquilo que é certamente uma relação entre marido e mulher seja classificado assim por um dos dois parceiros: “Apresento-lhe meu namorado”. Às vezes, dura há anos a relação conjugal e os dois se apresentam para o meio social como “namorados”. Os que fazem isso para mim são sábios: têm convicção de que não é perpétua aquela relação e assim se previnem contra o fatalismo quase inarredável da separação. Se nunca se separarem, melhor. Ou pior.

Paulo Sant'Ana



Zero Hora 12/11/2006.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Poema brasileiro



No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade

Ferreira Gullar

sábado, 28 de janeiro de 2012

Aí tem



As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.

Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.

Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?

É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.

Martha Medeiros

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carta amarelecida



Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...

Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...

Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!"

Mario Quintana

domingo, 22 de janeiro de 2012

A pressa moderna



O homem primitivo, o das cavernas e o das tribos, com o advento agora das grandes cidades e até das megalópoles, era muito mais social e afetivo com seus circunstantes do que o homem moderno. O homem moderno não tem tempo para os amigos.

O homem primitivo tinha os amigos todos os dias dentro da sua caverna ou no centro da sua aldeia, além das horas quase sempre vagas do seu ócio naturista para bater papo com os amigos.

Hoje, os amigos se gostam de longe. Têm que tratar dos seus negócios, dos seus empregos ou dos seus desempregos. Estamos todos na grande cidade condenados à lei animal das selvas, à competição bárbara e antropofágica ou pelo lucro ou pela carreira profissional.

O homem primitivo andava de cipó, no máximo no lombo de um lhama ou de um cavalo, tudo absolutamente gratuito, caído do céu. O homem moderno tem a luta corporal do vale-transporte, do IPVA ou contra o azulzinho para se locomover.

E essa batalha diária do homem moderno pela sobrevivência afastou-o dos seus amigos e dos seus amores. Está bem, concedo, nem para a família o homem moderno tem mais tempo a dar.

É absolutamente irracional que eu não visite os meus amigos ou não seja visitado por eles. Sinto que os amo, sei que eles me querem, mas o que é bem bom e essencial, nada: o encontro.

O homem moderno criou a cidade para aproximar-se dos outros homens, acabou a sua invenção criando uma distância polar entre ele e as pessoas que ele mais preza.

O homem primitivo se encontrava com seus amigos todas as manhãs bem cedinho, quando os primeiros raios de sol invadiam a sua oca e ele dava de cara no chão batido ou em cima da árvore com todos os seus afetos.

O homem moderno sai cedo e apressado de casa, na maioria das vezes para se encontrar com seus rivais, competidores e inimigos, fingindo cordialidade. Os amigos ficam para depois, num tempo que nunca encontrará por serem demasiados e cruentos os combates pela vida, que lhe tomam todo o tempo.

Os primatas e os indígenas se viam toda hora, os humanos modernos só se vêem com hora marcada. Tem pai hoje em dia marcando hora para receber filho.

Na antigüidade, todos os homens se encontravam todos os dias e todas as horas espontaneamente, ao natural. Hoje em dia todos os homens se encontram com hora marcada, o que quer dizer que se encontram por obrigação.

Tem hora marcada para sair de casa, pegar o ônibus, começar a aula, iniciar o trabalho. Hora marcada para namorar e para transar. Com prazo inicial e prazo terminal. Sempre com pressa.

Hora marcada para o espetáculo, para o médico, para o comício, para a greve, para escrever a coluna e para ler o jornal.

Às vezes não é só hora marcada, é dia, é semana, é mês e ano marcados com antecedência, como nos casos da Justiça do Trabalho, o que por si só já é uma brutal injustiça.

É um olho no relógio e outro no futuro, isto não é vida. É um rali.

Eu ainda peguei o tempo, em Tapes e São Jerônimo, de todos os dias me encontrar com meus amigos, pela manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite, nos intervalos do trabalho ou durante o seu curso.

Hoje, só encontramos tempo para o trabalho e para os pagamentos de DOCs nos bancos.

E nunca encontramos tempo para aquele papo furado de fim de tarde no bar da esquina, um chope pra distrair, ouvir um soneto ou um cavaquinho, uma mulher que desfila na calçada, que tempos, já não há mais nem tempo pra trair.

E principalmente não há mais tempo para ver os amigos, o que se constitui na negação da vida e na autodecretação preventiva, antecipada e anunciada da morte. E, quando se encontra um tempinho para um amigo, ele não tem tempo para a gente.




Paulo Sant'Ana




*Crônica publicada em 15 de março de 2000

Zero Hora 15/01/2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Para onde é que vão os versos


Para onde é que vão os versos
que às vezes passam por mim
como pássaros libertos?
.
Deixo-os passar sem captura,
vejo-os seguirem pelo ar
- um outro ai, de outros jardins...
.
Aonde irão? A que criaturas
se destinam, que os alcançam
para os possuir e amestrar?
.
De onde vêm? Quem os projeta
como translúcidas setas?
E eu, por que os deixo passar,
como alheias esperanças?
.
Cecília Meireles

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O sangue na veia



Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,
e tiro-lhe ao viver a indisciplina
que o espraiaria, que o dispersaria,
e dou-lhe a minha forma comedida,
a que tem o tamanho de um amor
que eu guardo, que não gasto, não disperso;
amor que se concentra em dura pérola,
não pétala, não isto que é um excesso,
pois que pode voar; o que me fica
de tudo o que acontece e não se altera,
de tudo o que acontece e me escraviza,
e do que escravizando me liberta.


Escrevo; logo, sou quem se domina,
e quem avança numa descoberta.

Marly de Oliveira

domingo, 8 de janeiro de 2012

Vento



Sopra demais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer cousa que vai parar...



Talvez esta cousa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta cousa calma
Que me faz a alma vivida...



Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.

Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!...

Fernando Pessoa

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Os últimos dias




Não sei se esta é uma boa hora para falar nisso, mas se a previsão de que o mundo vai acabar em 2012 estiver correta, este é o último Natal das nossas vidas. E o próximo Réveillon tem a obrigação de ser uma festa para acabar com todas as festas, pois depois não haverá remorsos nem recriminações – depois não haverá mais nada.


Você está livre para fazer, na Festa do Último Fim de Ano, tudo que sempre pensou em fazer mas foi detido pela moral, os bons costumes, o Código Civil e seu instinto de preservação. Pode entrar na festa nu e sair caramelado. Pode derrubar o cantor da banda e tomar seu lugar pelo resto da noite, como sempre sonhou, rechaçando aos pontapés todas as tentativa de tirá-lo do palco. Pode dizer o que pensa de todas as pessoas de que não gosta e declarar sua paixão para todos os seus amores secretos, sem temer o revide ou o desdém. Pode fazer tudo isto sem pensar na sua reputação, pois se a previsão estiver certa ninguém mais vai ter uma reputação.


Deve-se pensar em alguma medidas práticas a serem tomadas na iminência do fim do mundo. Começar a comprar tudo com cheques pré-datados ou a crédito, por exemplo. Usar ao máximo os cartões de crédito, inclusive nas viagens para o Exterior que se farão às pressas. E a crédito.


Conhecer o maior número de lugares que ainda não se conhece no mundo, numa espécie de tour de despedida. Fazer a Copa do Mundo de 2014 em seguida, sem esperar 2014. Encurtar o Carnaval deste ano para poder fazer, adiantados, os de 2013, 2014 e 2015.


Aproveitar todos os pores de sol possíveis, pois eles também serão os últimos. E isto é o mais difícil: passar a só dizer coisas definitivas. A proximidade do fim certamente aguçará nossos sentidos e nos tornará mais graves e filosóficos. Ou então, o contrário. Só dizer bobagens. Entregar-se à besteira e ir para o fim às gargalhadas. Pois se tudo vai acabar mesmo, se a morte do nosso planeta será apenas um pontinho ridículo pipocando na escuridão cósmica, para que fingir que algo de tudo isto era sério?


E o fim nos trará algumas vantagens. Tornará coisas como caderninhos com datas de aniversário, horóscopos e índices de colesterol sem sentido. Todos os tipos de restrições alimentares serão risíveis, poderemos comer de tudo que nos faz mal como se não houvesse amanhã – porque não haverá mesmo. Está bem, não veremos o fim das novelas, mas não será tão ruim assim.

Bom Natal para todos.


Luis Fernando Verissimo

Zero Hora 26/12/2011

domingo, 25 de dezembro de 2011

Organiza o Natal



Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso.
A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.




Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Natal



No ermo agreste, da noite e do presepe, um hino
De esperança pressaga enchia o céu, com o vento...
As árvores: "Serás o sol e o orvalho!" E o armento:
"Terás a glória!" E o luar: "Vencerás o destino!"


E o pão: "Darás o pão da terra e o pão divino!"
E a água: "Trarás alívio ao mártir e ao sedento!"
E a palha: "Dobrarás a cerviz do opulento!"
E o tecto: "Elevarás do opróbrio o pequenino!"


E os reis: "Rei, no teu reino, entrarás entre palmas!"
E os pastores: "Pastor, chamarás os eleitos!"
E a estrela: "Brilharás, como Deus, sobre as almas!"


Muda e humilde, porém, Maria, como escrava,
Tinha os olhos na terra em lágrimas desfeitos;
Sendo pobre, temia; e, sendo mãe, chorava.



Olavo Bilac

domingo, 18 de dezembro de 2011

A cilada



O perfume, o silêncio, a sombra... Os ninhos

Emudecem... E temos, sonhadores,

A humildade das ervas nos caminhos

E uma inocência de anjos entre as flores.


Mas há na tarde morna ignotos vinhos,

Secretos filtros, pérfidos vapores,

Amavios, feitiços e carinhos

Moles, quebrados e perturbadores...


E, de repente, o incêndio dos sentidos:

As mãos frias tateando na ansiedade,

As bocas que se buscam num queixume,

E o corpo, o sangue, o espírito perdidos,


E a febre, e os beijos... e a cumplicidade

Da sombra, do silêncio, do perfume...



Olavo Bilac

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

De vestido de oncinha e plumas



Outro dia aconteceu algo que me deixou sem saber direito o que pensar. Um caso corriqueiro, mas novidade pra mim. Quando era publicitária, trabalhei por três meses numa agência. Estamos falando do ano de 1984 ou seja, 27 anos atrás. Pois uma ex-colega da agência postou essa semana, no blog de uma confraria da qual faz parte, uma foto daquela época na qual apareço numa festa à fantasia. Uma homenagem que ela me fez, sem nenhuma intenção difamatória. Nem estou tão medonha na foto, apesar do cabelo estilo Dallas, do vestido de oncinha e da echarpe de plumas negras. Foi a primeira festa à fantasia a que fui. E a última.

Me garantiram que o blog é acessado por pouquíssimas pessoas. As confrades estavam crentes de que eu iria me comover. Mas, nascida com vários defeitos de fabricação, não me comovi. Em vez disso, considerei que a titular do blog poderia ter pedido autorização para publicar uma foto minha de 27 anos atrás. Seria atencioso da parte dela. Mas devo estar variando: quem pede licença antes de postar foto dos outros?

Lembrei de uma discussão que testemunhei entre duas amigas: uma delas havia ficado chateada por a outra ter postado a foto do seu chá de panela, em que ela aparecia completamente descomposta, mas descomposta de uma maneira que só quem já foi a um chá de panela sabe que é possível.

Já a outra amiga defendia o seu direito de postar o que quisesse, e de julgar ela mesma o que era descompostura e o que era apenas uma foto engraçada. De fato, era uma foto engraçada. Lembro que pensei: “Quá, quá, quá, que engraçado – ainda bem que não sou eu”.

Agora sou eu. E, se ainda não chegou sua vez, aguarde.

Tenho plena consciência de que, cada vez que tiro foto com um leitor numa sessão de autógrafos, aquela foto estará no Facebook em poucos segundos. Tudo bem. Meu trabalho faz com que me exponha, e sei que não há controle sobre a propagação de imagens. E, mesmo quando não é um evento profissional, tudo bem também: ao viajar com amigos ou ir a um churrasco, sei que serei fotografada junto ao grupo e logo estarei num álbum virtual, pra quem quiser espiar. Qualquer pessoa que se deixe fotografar, hoje, sabe que é assim. Se quiser discrição, melhor evaporar na hora do clique.

Não tive essa prerrogativa em 1984. Naquela época, nem em meus sonhos mais premonitórios poderia supor que o conceito de privacidade em breve estaria condenado à morte e que o “cá entre nós” seria substituído pelo “cá entre todos”. Por isso, a dúvida: temos o direito de ficar ressabiados por postarem nossas fotos pré-históricas sem nos consultar ou dá no mesmo se a foto foi tirada 27 anos atrás ou ontem à noite? Suspeito que estou sendo preciosista. Vaidosa. Tá bom: chata. Mas queria compartilhar essa indagação.

Quanto à ex-colega, sem mágoas. Assimilei. Nenhum problema de eu circular pela internet de oncinha e plumas. Ao menos estou vestida, ufa.

Martha Medeiros
Zero Hora 27/11/2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Rosai por nós





Nossa senhora da flor roxa
rosai por nós
assim na vida
como no chão
a primavera de cada ano
nos dai hoje
encantai nosso jardim
assim como encantamos
o do vizinho
e não nos deixeis cair na tentação
de esquecer tuas flores .



Alice Ruiz

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O que acontece no meio

Imagem: Pablo Picasso


Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.

No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo. Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.

No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa. Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.

No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença. Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo). Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.

No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.

Martha Medeiros



Zero Hora 04/12/2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

Antes que



Preciso ler um bom poema

antes de dormir
antes que a noite

encerre o diário inventário das lembranças
antes que o sono cale a boca e olhar,

antes que o prumo caia
horizontal.


Preciso ler um bom poema

antes
que seja tarde
que fique escuro
que chegue o frio.


Ler um bom poema
antes que a morte venha
e escreva o seu.


Marina Colasanti

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Vida ...vida



"Quero, um dia,
dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe,
que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim e que eu sempre dei o melhor de mim...
e que valeu a pena."


Mario Quintana

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Envelhecer



envelhecemos quando nos fechamos
para as novas idéias e nos tornamos radical,
envelhecemos quando o novo nos assusta
e nossa mente insiste em não aceitar,
envelhecemos quando nos tornamos impacientes,
intransigentes e não consiguimos dialogar,
envelhecemos quando nosso pensamento
abandona nossa casa
e retorna sem nada a acrescentar,
envelheçemos quando muito nos preocupamos
e depois nos culpamos porque não tínhamos
tantos motivos para nos preocupar,
envelhecemos quando pensamos demasiadamente
em nós mesmos e conseqüentemente
nos esquecemos dos outros,
envelhecemos quando pensamos em ousar
e já imaginamos o preço
que teremos que pagar pelo ato,
envelhecemos quando temos a chance de amar
e deixamos o coração a pensar:
será que vale a pena correr o risco?
será que vai compensar?
envelhecemos quando permitimos
que o cansaço e o desalento
tomem conta da nossa alma
que se põe a lamentar,

envelhecemos, enfim,
quando paramos de lutar,
quando paramos de viver,
quando paramos de amar...


Rô