domingo, 16 de junho de 2013

Solidão






Trêmulas jangadas,

sempre sossegadas

sobre as ondas mansas:

por que não partis?

Que áureas esperanças

sopram no mar largo,

chegam como pássaros,

ninguém sabe de onde?



Trêmulas jangadas,

sempre sossegadas

sobre as ondas mansas:

que evocais ao luar?

Velhas esperanças,

chama que se finda,

ou vossa amargura,

mais íntima e pura,

vem da luz que ainda

bóia sobre o mar?



Trêmulas jangadas,

sempre abandonadas:

por que não largais?

Que áureas esperanças

vão para o mar largo,

voam como pássaros,

sobre as ondas mansas

para nunca mais!




Emílio Moura


segunda-feira, 10 de junho de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

Cercanias


Há um prazo certo
um tempo justo
para olhar este mundo
             — de relance.

Num abrir e fechar de olhos,
vão-se as paisagens
cercanias e miragens
             — última chance.



Lenilde Freitas

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Oração para Aviadores


Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.


Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.
Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.
Santa Clara, clareai.
Manuel Bandeira


Perguntas

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...

O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.

O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.

No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.

O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira. 

Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.

Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.


William Shakespeare

domingo, 26 de maio de 2013

Brrrrrrrrrr





Aos 16 anos, eu não conseguia admitir que alguém pudesse gostar de inverno. Só podia ser maluco, deprimido, estressado ou coisa pior. Escolher logo a estação mais encarangada do ano? Não fazia sentido. Na época, era fanática pelo verão, e meus argumentos pareciam irrefutáveis: ora, no verão ficamos perto do mar, usamos menos roupa, saímos mais de casa. No verão os dias são longos, praticamos mais atividades físicas, comemos mais saladas. Quem trocaria essa vida saudável por dias cinzentos, curtos e gelados?

Quem trocaria braços abertos sobre a Guanabara por braços cruzados e mãos embaixo da axila? Quem preferiria correr o risco de se gripar dia sim, outro também? E quem haveria de considerar agradável sair debaixo das cobertas de manhã cedo para enfrentar um dia que nem virou dia ainda?

Mas isso foi aos 16. Cresci, amadureci e me reconciliei com o inverno. Passei a valorizar os casacões, as botas, o vinho, a lareira, as paisagens serranas, enfim, o lado romântico da estação. Cheguei a admitir em um poema que o inverno era minha estação preferida. Provavelmente, uma tentativa de que me levassem mais a sério. Adultos respeitáveis não combinam com bermuda, e sim com sobretudos.

Não ficam rindo à toa, mantêm a classe da sisudez. Não tomam chope, não dançam em rodas de samba, odeiam Carnaval, nunca foram fotografados em situações vulgares. Escritores, menos ainda. Imagine uma Marguerite Duras de biquíni em Capão, um Philip Roth de sunga tomando banho de mangueira no quintal. O cachecol é que dignifica os intelectuais.

Segui vivendo, amadureci mais um pouco e finalmente cheguei a uma conclusão definitiva: às favas com minha credibilidade, que a adulta em mim procure asilo na Sibéria. Hoje afirmo, assino embaixo e reconheço firma em cartório se for preciso: tenho pavor de sentir frio. A elegância que os dias gélidos me conferem não compensa a leveza e o bom humor que me são subtraídos. E vinho tinto eu tomo em qualquer estação.

Só quem ganha com o inverno é o turismo, já que o frio é nossa principal atração turística. No mais, quem em seu juízo perfeito iria curtir passar o dia com o nariz gelado, as pernas enrijecidas e sentindo-se tentado a matar o banho? Quem não se assusta com o valor da conta de luz no fim do mês? E o que se gasta em farmácia? Mulheres, me ajudem: como se vestir adequadamente para um casamento numa noite em que faz 4°C? E vocês, rapazes, têm tido coragem de tirar as meias antes de dormir?

Cresci, amadureci, mas não adiantou nada: contrariando a evolução da espécie, voltei ao tempo em que era movida a energia solar. Menos mal que sempre teremos intelectuais de cachecol para salvar a pátria.

Martha Medeiros 

 Zero Hora 06 /07/ 2011.

sábado, 18 de maio de 2013

Saudade






A saudade é um parafuso
que quando a rosca cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai.
Mas quando enferruja dentro
nem distorcendo não sai.

Raul Seixas

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Outros ângulos da inveja

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Recebi ontem um e-mail espetacular: o leitor se considera um invejoso nato e diz que seu esporte preferido é visitar condomínios luxuosos em Atlântida e Porto Alegre, quando se delicia ao invejar seus felizes proprietários.
Ele não pode passar um dia sequer sem invejar os outros.É da sua vocação a inveja.

Fico a imaginar que esta invejoso detesta visitar presídios, hospitais e asilos, onde não tem a quem invejar.

Foi então que flagrei uma característica da inveja que me tinha passado despercebia, eu que tanto já escrevi sobre a inveja em minhas colunas.
É que o invejoso  se compraz em admirar os atributos e as propriedades dos outros.
E obrigatoriamente - é da síntese da sua vocação - ele exalta as qualidades dos outros.
E ao exaltá-la, ele está  declarando que as qualidades do outro são muito maiores do que as dele.
Vejam então como dói ao invejoso a inveja: ele se sente assim totalmente inferior ao invejado, aliás, só pode invejar que vê no objeto da sua inveja uma nítida superioridade sobre si mesmo.

E, ao declara-se inferior, quanta dor e quanto infortúnio isso causa ao invejoso. Rói-o por dentro aquela condição superior do invejado, mais lhe causa inveja e rancor  a sua própria feiura e pobreza, a sua fraqueza, a sua falta de talento.
Este invejoso, todas as manhãs, quando levanta da cama, sai para a rua  para assistir ao desolador espetáculo dos que possuem mais do que ele, dos que atraem as mulheres mais do que ele, os que tem carros mais belos e possantes do que o seu carro.

O invejoso não olha para trás, nem enxerga os que  possuem menos do que ele, só lhe interessa os que possuem mais.
Se lançasse seu olhar sobre os que têm menos dinheiro do que ele, sobre os que são mais fracos e mais doentes do que ele, sobre os que têm  menos talento  do que ele, seria feliz.
Nada disso, sua inveja inata atiça, apenas  nele o interesse de admirar  nos outros o que  mostram de mais vantajoso ou brilhante com relação a ele.

E  em seguida se dá nele um fenômeno estupendo: como consequência  natural de sua inveja sobrevém-lhe o ódio.
E então que aparece a face violenta da sua inveja: ele passa  a  agredir permanentemente os seus invejados. Como se seus invejados  fossem culpados de serem  melhores que ele.

E se atira com devoção e aplicação à agressão destemperada e contínua dos invejados.
O invejoso é o mais sofrido e atribulado  entre todos que frequentam as relações humanas.

Paulo Sant'Ana
Zero Hora 06/07/2011

terça-feira, 14 de maio de 2013

Poesia






Poesia, face secreta,

mas tão luz, se concebida.

Poesia, sentido pleno

do que há de vida na vida.



Emílio Moura

sábado, 11 de maio de 2013

Poemas



Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mario Quintana

terça-feira, 23 de abril de 2013

Morrer é ridículo



A morte, por si só, é uma piada pronta. 


Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada, 
está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem,
precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no
carro e no meio da tarde morre. Como assim? 
E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? 
Não sei de onde tiraram esta idéia:
MORRER!!!

A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio
estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve
lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física,
quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para
estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer
da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora
de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente... 
De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, 
numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis.
Qual é?

Morrer é um chiste.
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, 
sem ter dançado com a garota mais linda, 
sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. 
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e
penduradas também algumas contas. 
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, 
a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. 
Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. 
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, 
caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, 
começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte
costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. 
Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o
sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não
acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase
nada guardado nas gavetas.
Ok, hora de descansar em paz.
Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão, 
desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. 
E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.

Por isso viva tudo que há para viver. 
Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida... 

Perdoe... Sempre!!!" 

 Pedro Bial

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tanta coisa a fazer


O meu filhinho não quer escovar os dentes, e eu digo:
- Algumas coisas a gente tem que fazer sempre. A gente sempre tem que escovar os dentes depois de comer.
Ele não quer comer, e eu:
-  Algumas coisas a gente tem que fazer sempre. A gente tem que se alimentar todos os dias.
Ele não quer se  recolher para dormir, e lá vou eu:
-  Algumas coisas a gente tem que fazer sempre. A gente  tem que ir dormir em certa hora da noite.
Até que, dia desses, depois de eu repetir mais uma vez que a gente tem que ...ele suspirou:
- A gente tem que fazer  muita coisa, papai ...
Três aninhos e já está soterrado pelo peso das obrigações. Três aninhos ...

No outro extremo da existência, tempos atrás, uma senhora amiga de uma amiga minha, ao completar 60 anos suspirou como suspirou meu filhinho:
- Que bom chegar aos 60 anos. Assim não preciso mais estudar inglês , nem fazer sexo.
Se é verdade que depois dos 60 anos a gente não precisa mais estudar inglês, eis aí uma boa notícia. Estudar inglês é um porre.
Quanto ao sexo, considero uma atividade divertida, não um fardo, mas reconheço que todo processo envolvido na negociação para se obter consentimento para o sexo é cansativo.E depois, quando todo já foi consumado, o trabalho de manutenção é ainda mais desgastante. Mesmo assim, não seria esse gênero de obrigação que me faria reclamar.

O que me faz reclamar é dar razão ao meu filhinho e à senhora sessentona é constatar que, quanto mais se desenvolve a  ciência e a tecnologia, mais coisas tenho a fazer. Quer dizer, a vida não fica mais simples, fica mais complicada.As pessoas não apenas exigem que você estude inglês, elas também  querem que você tenha uma página no Facebook, um perfil no Orkut e outro no tuíter, querem que você faça exercícios todos os dias e mastigue os alimentos 42 vezes, querem que você responda todos os emails e leia os jornais do centro do país, querem que você faça limpeza nos dentes e o exame de toque, querem que tire a pressão de 15 em 15 dias e que verifique o nível do seu colesterol. E querem que você trabalhe.
Ao meu filho, que só quer brincar, repito sempre:
- Está apenas começando ...

Porém, não é bom que termine, e é isso que tenho a dizer à senhora sessentona. Quando você para de aprender e de fazer , quando você para de lutar, você está parando de viver. Pode ser cansativo, mas, como disse um dia  Mencken,  a vida quer ser vivida. Espero que  isso sirva de consolo à senhora sessentona, ao meu filhinho, a mim mesmo, com minhas fadigas, mas principalmente, espero que sirva de conforto a todos os que se revoltam com a possibilidade de aumentar a idade para se aposentar. A reforma nas aposentadorias é inevitável em todo o mundo. Será daqui também. Todos trabalharemos mais tempo. Mas viveremos mais tempo também.


David Coimbra
Zero Hora, 1º/ 07/ 2011

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ausência






Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 9 de abril de 2013

Espesso






Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia,
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


João Cabral de Melo Neto

sábado, 6 de abril de 2013

O dia inacabado



Como todos os homens, sou inacabado.

Jamais termino de ser.

Após a noite breve um longo amanhecer

me detém no umbral do dia.Perco o que ganho no sonho e no desejo

quando a mim mesmo me acrescento.

Toda vez que me somo, subtraio-me,

uma porção levada pelo vento.

Incompleto no dia inacabado,

livre de ser ainda como e quando,

sigo a marcha das plantas e das estrelas.

E o que me falta e sobra é o meu contentamento.



Ledo Ivo

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Amor em números quebrados




Com início de namoro ou com filho pequeno, contamos os  meses. Comemora-se a convivência a prestações. Não deixamos de nos surpreender  e festejar a permanência de alguém novo em nossa vida.

É  complicado localizar quando esfriamos o encantamento. Por preguiça  no raciocínio matemático ou por acatar o senso comum, desistimos de aniversariar o amor diariamente.

Até os dois anos da criança conta-se a idade dela desse jeito.Quando ela junta os dedos, a data se dilata para a distância dos anos e nunca mais os número quebrados, longos e definitivos.  Eu fio i emocionado ao ouvir uma mãe e um pai, neste período, ao soletrar  a idade inacabada do filho. O cuidado em ser preciso, exato, a preocupação ligeira em mostrar o quanto o nascimento não é esquecido, nem  por 24 horas. Posso descobrir o mês do aniversário e, com sorte, o signo da criança. Nenhum dia parece em vão, nenhum dia é descartado.

De modo semelhante, no namoro, o casal se deslumbra ao repetir a descrição de como se encontrou. Entra em falência com mimos e lembranças dados. Não se importa em exagerar, descobrir afinidades e propor jogos e enigmas. Todo  mês os namorados reafirmam que estão juntos, não cansam de jurar fidelidade e perguntar, perguntar, perguntar o que um sente pelo outro. Não que não saibam, mas é reconfortante ouvir de novo. Ouvir o que se gosta até assobiar a melodia e misturar a letra com algumas recordações.

O casamento deveria ser refeito mensalmente. Não fechar para balanço, não ser encerrado em um número inteiro. Que pudesse ser sempre insuficiente, inseguro, para que não perdêssemos  a tenção um minuto sequer e cuidássemos para que ele sobreviva ao nosso lado. Sem folga, sem compensação, sem demora.

Aceito férias no intervalo de um ano, aceito décimo terceiro no intervalo de um ano, mas esperar tanto temo para comemorar o aniversário de um amor é injusto. Que a soma seja diferente, não dizer mais que o casamento tem dez anos, mas 120 meses. E, se possível, contem os dias, as horas, entortem o bigude do relógio, virem as pálpebras pelo avesso.

Se já sofremos quando não declaramos o que nos incomoda, sofreremos o dobro se não declararmos o que nos alegra.

Merecemos aprender a contar os dias em que estamos livres, ao invés de enumerar com uma cruz os dias em que estamos presos.

Fabrício Carpinejar
Canalha

segunda-feira, 25 de março de 2013

Os seguidores



Estava no aeroporto outro dia, conversando com um ator e um blogueiro. Um deles se virou para o outro e perguntou: "Quantos seguidores você tem ?". A resposta: "Novecentos, e você?" Resposta: "Um pouco menos, uns 650 mil".

Músicos têm ouvintes, atores têm plateias, escritores têm leitores, mas pelo visto issi já não diz muita coisa, não há tanto mérito, é uma relação quase passiva. Bem-sucedido mesmo, é quem tem seguidores, ao menos é o que dizia o slogan de um produto anunciado em comercial de tevê recentemente, e nem era anúncio de  equipamento eletrônico.  Não lembro o produto mas lembro da promessa: "Você com cada vez mais seguidores". Que blusa eu uso, em que loja compro, que shopping devo frequentar para ter tantos seguidores assim? A ambição, agora, é ser messiânico.

Jesus tinha seguidores, assim como Renato Russo. Mas agora qualquer um pode ter o seu rebanho, ser um pastor. O Twitter fundou  uma nova tribo. Soube que Caio Fernando Abreu, falecido há mais de 10 anos , tem hoje 60 mil seguidores. E seus leitores? Já não estão com esse cartaz todo.

É apenas uma questão de semântica, claro. Renovam-se as palavras para perpetuar a sensação de modernidade, de atualização, mas, no fundo, é tudo a  mesma coisa. Só que não se pode negligenciar o sentido do termo: a palavra seguidor sugere um refém intelectual, enquanto que o leitor pensa, reflete, concorda, discorda. O seguidor não se d á esse trabalho. Apenas xereta.

Eu sei que é apenas uma expressão, eu  sei, eu sei, mas acho estranho, fazer o quê? Já me perguntaram: quantos seguidores tu tens? Ora, nem às minhas filhas desejo tal destino.Se eu tivesse um caminhão, escreveria no para-choque: "Não sugam ninguém, que estão todos perdidos também.".

É só um termo atual para definir a prática inofensiva de twittar, mas não sei se é mesmo tão banal, tão sem significado. Os equipamentos eletrônicos hoje já dispensam  o plugue da tomada, mas seus usuários, em efeito contrário, estão criando uma corrente de interligação que despreza a privacidade e a introspecção. O pensamento alheio virou uma espécie de asilo. Livro serve pra isso também, mas é uma relação a dois: você que lê  e o escritor que lhe inspira.Há uma certa sacralidade  nesse encontro.Algo de muito pessoal é preservado. Aquilo que lhe emocionou,  que iluminou seu pensamento e que despertou seu raciocínio é exclusivo, secreto: uma  relação  obviamente mais romântica.  Por mais popular que seja um escritor, ele é consumido no particular.Mas se ele tem 564.238 seguidores conectados ao mesmo tempo,, puf, evapora-se o mistério.

Todos viram gurus uns dos outros.Me siga que eu te sigo. Mas para onde?

Martha Medeiros
Zero Hora 03/07/2011  

sexta-feira, 8 de março de 2013

Metamorfose


"Justo quando a lagarta pensou que o mundo


tinha acabado, ela virou uma linda borboleta"


Lamartine

terça-feira, 5 de março de 2013

Fim do mundo



Disseram-me que o mundo ia acabar

E eu acreditei;

Por nenhuma razão especial

Senão a de que costumo acreditar

Em tudo quanto me dizem.

... Porque não acreditar então no fim do mundo

Se o mundo acaba todos os dias?



Esvaziei todas as gavetas

Libertei os espaços vazios

Para que o mundo pudesse acabar sem inutilidades…



Deitei-me abraçado ao meu mundo

E aguardei

Mas o mundo não acabou.

Porque a verdade é que o mundo não

Acaba

Mas começa

Todos os dias…



(Simples-mente)

Emílio Miranda

sábado, 2 de março de 2013

Ronda




O toque do sino
o latido do cão
o ruído de passos.
É tudo tempo pretérito
que conjugaremos até a morte?
Que noite é essa
que amanhã reconheceremos?
Que corpo é esse
que não é o nosso?
Em que pensamos nessa madrugada
de sombras que se arrastam até o futuro
onde logo mais estaremos e não estaremos?
Quem somos nós aqui
que já não recordamos?
Que tempo passa e não passa
ó almas que não dormem nunca?

Lenilde Freitas

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Frases


Duas coisas são infinitas:
o universo e a estupidez humana.

Mas, no que respeita ao universo,
ainda não adquiri a certeza absoluta.

Einstein

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Prosopagnosia



Eu estava na fila do cinema, e ela dois passos à frente. Ela virava para trás, me olhava, e logo virava para frente de novo. Até que numa dessas viradas ela disse oi. Eu retribui: Oi. Ela: É isso aí, tu não me conhece, mas eu te conheço: tem que cumprimentar.

Eu sei, amiga.

Leitores me cumprimentam sem que eu os conheça, e tudo certo, já que há uma foto minha ao lado da coluna do jornal. Só vira um problema quando eu realmente conheço a pessoa que me cumprimenta, já conversei com ela em algum momento da vida, e não faço ideia de quem seja. Escrevi certa vez sobre isso: se a pessoa é a recepcionista da minha médica, e sempre a vejo de coque e de uniforme branco, ao passar por mim de vestido floreado e cabeleira solta no shopping, não vou reconhecê-la. Se o sujeito com quem cruzo na academia, sempre de calção e camiseta, entrar no restaurante de camisa polo e um blusão amarrado em torno do pescoço, não vou reconhecê-lo. Se o porteiro do meu prédio for filmado na arquibancada de um estádio vestindo a camiseta do seu time e segurando um cartaz dizendo “Olha eu aqui, Galvão”, periga o Galvão saber quem é: eu, não. Tenho uma incapacidade crônica de identificar pessoas fora do habitat em que costumo encontrá-las.

Sempre me justifiquei dizendo “Sou péssima fisionomista”, que é um chavão, mas não é mentira, e que, aliado aos meus três graus de astigmatismo, me garantia o perdão de algumas boas almas. Até que outro dia entrei numa loja de conveniências, um cara abriu os braços ao me ver e disse numa alegria comovente: “Marthinha!”. Achei meio íntimo para um leitor. Sorri amarelo e dei um “oi” igual ao que ofereci à moça da fila do cinema. Ele insistiu: “Martha, sou eu!”. Socorro, eu quem? Então ele disse seu nome. Pasme: era um ex-namorado!! A meu favor, deponho que foi um namorado da época da faculdade (não me obrigue a fazer as contas), mas, ora, ainda que tenha sido no tempo das cavernas, conviveu comigo. Ao menos o seu olhar deveria ser o mesmo. Me senti um inseto.

Pois bem, depois de anos soterrada em culpa, descubro que a medicina está do meu lado. Acabo de saber que “sou péssima fisionomista” possui nome científico: prosopagnosia. Uma doença que debilita a área do cérebro que distingue traços e expressões faciais. Estou lendo o excelente Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, cujo personagem vive o mesmo desconforto. Alguns médicos dizem que há apenas 100 casos diagnosticados no mundo – provavelmente eu e outros 99 acusados injustamente de ter o nariz em pé. Mas há quem diga também que o problema é mais comum do que se pensa e que atinge uma a cada 50 pessoas, ou seja, é praticamente uma epidemia.

Comum ou incomum, me concedam o benefício da dúvida: talvez eu seja uma pobre vítima da prosopagnosia e por isso não saio por aí dando dois beijinhos e perguntando pela família de quem, a priori, nunca vi antes. Se não for prosopagnosia, acredite: é astigmatismo evoluindo para uma catarata, somada a uma palermice que me dificulta distinguir semblantes. Nariz em pé, juro que não é.


Martha Medeiros
Zero Hora 13/01/2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Acertar

Mesmo um relógio parado
 consegue
estar certo
 duas vezes
por dia!

Paulo Coelho

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Frágil ?


"Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar,

 como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar."


Bartolomeu Campos de Queirós

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ideia de jerico



Semanas atrás, Zero Hora publicou uma matéria sobre um recém-lançado dicionário de palavras mortas, a exemplo de “boco-moco” e “sirigaita”. Em 1997, escrevi uma crônica intitulada Grande África que tratava desse mesmo assunto divertido. Adoro vocabulário vintage, e eu incluiria a expressão “ideia de jerico” entre as que sobreviveram, mesmo cheirando a naftalina. Pelo menos foi ela que me veio à cabeça quando soube que tem alguém tentando promover um projeto de lei popular que decretaria visibilidade zero para cigarros e bebidas, em qualquer mídia, em qualquer lugar – restrição absoluta, tanto visual quanto auditiva. Seria como se bebida e cigarro tivessem deixado de existir.

Ideia de jerico.

Se for uma proposta xiita como parece, revistas de viagens teriam que ter algumas fotos vetadas: não poderiam, por exemplo, mostrar imagens da La Bodeguita del Medio, em Havana, com suas garrafas de rum nas prateleiras. Aliás, os livros de Hemingway, Bukowski e outros beberrões teriam que deixar de ser reeditados ou sofrer censura, pois poderiam ser cúmplices da tal “visibilidade” – a simples menção de uma palavra como uísque poderia estimular o vício do leitor.

Quadros representando a Santa Ceia teriam que ser retirados das igrejas e dos sacrossantos lares, pois é sabido que Jesus não tomava Coca-Cola. Aliás, a missa também teria que se adaptar ao projeto de lei. Repartir o pão, tudo bem, mas vinho, sem chance.

Na hipótese de recebermos uma mostra de quadros impressionistas, o Absinto, de Degas, ficaria proibido de ser exposto. A imagem de Rita Hayworth como Gilda só circularia no mercado negro. O filme Sobre Café e Cigarros, de Jim Jarmusch, e Obrigada por Fumar, de Jason Reitman, seriam retirados das locadoras. A série Mad Man sofreria sanções inimagináveis.

Capas de livros. Camisetas. Cartazes de filmes. Fotos de moda. Textos de teatro. Biografias. Tudo o que fizesse menção ao tabagismo ou ao álcool, fogueira neles. Inquisição, o Retorno.

Sem falar na música popular brasileira. Cálice, de Chico Buarque, Chuva, Suor e Cerveja, de Caetano Veloso, e Brasil, de Cazuza, nunca mais tocariam nas rádios, assim como uma série de canções de Nana Caymmi, Zeca Baleiro, Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Ney Matogrosso – até Roberto Carlos já falou em cigarro em uma de suas letras, acredite. E todas as duplas sertanejas seriam banidas da face da terra. O que, pensando bem... deixa pra lá.

O politicamente correto tem um pé na boa intenção e outro pé na repressão à liberdade. Costumo ser defensora acirrada da ética, mas não contem comigo para dar trela aos excessivamente bonzinhos, que pretendem higienizar o universo com medidas estapafúrdias que, espero, nunca serão levadas a sério. Se começarem a restringir a arte e a livre expressão, zzzzzzzzz, o tédio dominará o mundo e colocará todos para dormir mais cedo.



MARTHA MEDEIROS
Zero Hora 09/01/2013




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Purificar


"Purifica o teu coração
 antes de permitires
que o amor entre nele,
 pois até o mel mais
doce
 azeda num recipiente sujo."

(Pitágoras)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Mentiras


As pessoas que falam muito,
 mentem sempre,
 porque acabam esgotando
seu estoque de verdades.

 Millôr Fernandes