quarta-feira, 18 de julho de 2012

Felicidade


“Felicidade não é um fim em si, e sim uma consequência do jeito que você leva a vida .
É o dia-a-dia de uma pessoa e a maneira alegre como ela reage às situações mais banais que definem seu nível de felicidade.
Ou, para resumir tudo: um jeito garantido de ser feliz é se preocupar menos em ser feliz.”



Bárbara Axt

terça-feira, 17 de julho de 2012

Afogando-se num pires


A vida não é bolinho, quem não sabe? Mas é impressionante a quantidade de pessoas que conseguem complicá-la ainda mais. Acreditam que só erros enormes geram consequências, sem perceber que as pequenas bobeadas é que desgastam. Nem se dão conta da quantidade de facilitações que poderiam aplicar no dia a dia, tornando a vida bem mais producente.

Exemplos, exemplos.
Ligar-se minimamente num troço chamado relógio, pra começar. Se você tem hora marcada para uma consulta, hora marcada para fazer uma prova, hora marcada para pegar um avião, qual é a dificuldade de planejar o tempo que vai levar até lá? Chega de colocar a culpa no trânsito. É claro que você pode prever se vai levar meia-hora ou 50 minutos para deslocar-se – o pior que pode acontecer é chegar antes, e aí nada como ter um livrinho à mão enquanto aguarda (já dizia Gabriel García Márquez: se cada um levasse um livro dentro da mochila, o mundo seria bem melhor).


“As pessoas se afogam num pires”, costuma sentenciar uma psicanalista amiga minha, confirmando que a maior parte das pessoas poderia simplificar suas vidas, mas são especialistas em se atrapalhar, e o pior: transformam essas pequenas atrapalhações em crises existenciais. Ó, nada dá certo pra mim.


Se alguém tem que ir até um endereço que não conhece, é tão fácil consultar o Google Maps antes de sair. No caso de gamar por uma blusa na vitrine, seria prudente saber se o saldo no banco comporta essa compra extra. Se a última garrafa d´água da casa foi aberta, não custa passar num mercadinho e renovar o estoque pra não ser surpreendida por uma sede absurda no meio da noite. Se vai ter um big festão na sexta, não convém chegar ao cabeleireiro sem hora marcada. Se ofendeu um amigo, melhor pedir desculpas antes que se transforme numa mágoa séria. Se o filho tem dificuldades na escola, não esperar o último mês do ano letivo para tomar providências. Planejou uma viagem ao exterior? Confira o prazo de validade do passaporte (não no dia do embarque, gênio). Se o seu santo não cruza com o de um fulano, para que sentar à mesma mesa que ele? Se agendou uma entrevista de emprego, confira antes se a camisa está limpa e passada. Marcou um compromisso para as 16h, não marque outro para as 17h no outro lado da cidade. Se está em guerra com a balança, ok, é difícil perder peso, mas continuar comendo uma caixa de Bis por noite não vai operar milagres. É claro que sua cunhada vai se chatear se você expor na sala as fotos do seu irmão com a ex-mulher dele. Pô.

Você deve ter lembrado de mais uns 200 exemplos da série “se posso complicar, por que facilitar?”. São essas pequenas besteirinhas do cotidiano que, mal administradas, fazem com que nosso dia seja mais encrencado que o dos demais, mas quem vai se dignar a planejar um dia satisfatório se a ordem é deixar rolar?

E lá vai você rolando para dentro do pires, se afogando numa pocinha de nada.

Martha Medeiros
Zero Hora 01/07/2012

domingo, 15 de julho de 2012

Frases

“Numa coisa os livros superam nossos amigos: dão-nos conselhos que os amigos nem sempre têm coragem de dar.”


Pe. Luiz Carlos

sábado, 14 de julho de 2012

As rosas não falam



Bate outra vezCom esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verãoECom a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltarPara mim


Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim




Cartola

quarta-feira, 11 de julho de 2012

AUTO-RETRATO COMO BOI

Eu boi.

Boi de mim mesmo.

Boi sonso.

Boi de canga.

Boi de carro.

Boi de ônibus.

Boi de arado.

Boi sangrado por ferrão.

Boi de carreto

Boi em prédio de vidro.

Boi com crachá

e carteira assinada.

Boi comprovado.

Boi indistinto

na boiada da cidade.

Boi tangido.

Boi bernento.

Boi de joelhos

sem um mugido

na escuridão.

No curral da insônia,

rumino palavras pastadas

na ribanceira dos dias.

Donizete Galvão
















































sexta-feira, 6 de julho de 2012

Frases

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne,
depois no nome."

Manuel Bandeira


Moinho




A mó da morte mói

o milho teu dourado

e deixa no farelo

um ai deteriorado.


Mói a mó, mói a morte

em seu moer parado

o que era trigo eterno

e nem sequer semeado.

 
Da morte a mó que mói

não mói todo o legado.

Fica, moendo a mó,

o vento do passado.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de julho de 2012

O câncer que levou seu amor

Meu amigo Antonio ficou viúvo. Sua esposa morreu de câncer de pâncreas. Algo devastador, que derrubou em poucos meses a companhia de temperamento forte, risonho e invencível.

Ele não contou com tempo para se preparar e se despedir. O luto veio como um susto. De repente, depois de 30 anos de casamento, ele se acordava sozinho e tomava café sozinho e conversava sozinho e se desesperava sozinho. Antes, até sofrer, sofria com ela.


Sua primeira atitude, assim que depositou seu coração na pedra do São Miguel e Almas, foi limpar a casa, tirar os objetos de Elisa de perto dos olhos. A casa restou pela metade, uma residência casada com móveis de solteiro. Pôs fora as roupas, os cabides carregados de ombreiras, recolheu os vasos e bibelôs, arregimentou perfumes e produtos de beleza, esvaziou as prateleiras. Não esperou doar para caridade. A dor é puro pânico, egoísta, precisa se libertar da palavra, não consegue ser generosa.


Empilhou caixas e caixas de pertences valiosos na frente do portão, para o lixeiro levar. Em segundos, despachou o que o casal acumulou numa vida inteira. Quando morre a figura de nosso amor, mas o amor não morre, não há o que escolher, tudo é lembrança sangrando de novo, somos crianças mexendo, a cada instante, em cascas de ferida.

Antonio circulava pelos aposentos como um fantasma. Já podia, porém, observar por onde andava. Não tinha que pagar mais pedágio ao tocar em qualquer objeto. A faxina o protegeu dos próprios atos falhos. Ajudava o esquecimento a esquecer.
O espaço dobrou de tamanho e intensidade: vazio, deserto, imenso. Sem nenhuma foto ou quadro na parede. Sem nenhum risco de contato com o passado conjugal.
Mas, ao mexer no armarinho do banheiro e buscar o barbeador, encontrou a escova de cabelos de Elisa no fundo da gaveta.
A escova estava repleta de cabelos da Elisa. Cabelos vivos de Elisa morta.
Ele odiava limpar a escova antes de se pentear, não considerava justo, já que era fruto do descuido dela.
Agora não. Ele começou a suspirar devagar para não chorar. O suspiro é o choro da boca.
Não aceitava que a escova tivesse sobrevivido a sua blitz. Odiou aquele acessório com todo amor e amou com todo ódio.
Nas cerdas da escova, brilhavam cabelos castanhos e longos que ele conhecia como ninguém.
Ele sentou-se no sofá e aproximou o nariz da escova, chegou a raspar a pele, para recuperar o perfume do pescoço de Elisa.
Só que predominava o cheiro de madeira do cabo mais do que o incenso de flor de sua memória.
Como um botânico aflito diante de espécie rara, tratou de tirar um por um os fios da escova.
E fez uma trança dos cabelos de sua mulher morta.
Amarrou a mecha com um laço preto e inspirou longamente sua fragrância. Nebulizou o rosto até reaver o gosto do beijo de Elisa. Nunca o último beijo.




Fabricio Carpinejar
Zero Hora 03/07/2012


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os outros

Quando eu era criança, nunca tive desejo de ter um carro.

Porque morava num lugar em que não passavam carros.
Lá distante, onde era a Avenida Aparício Borges, onde só minha vista alcançava, eu via que passavam os carros, mas não fazia a menor idéia de quem eram seus donos.
Eu só fui ter desejo de ter um carro quando identifiquei os donos dos carros e vi que eles eram diferentes de mim por eu não ter carro.
Foi a minha primeira comparação, o abismo que me levou a achar que os outros eram mais felizes do que eu.
O que quero dizer é o seguinte: se olharmos só para o que somos, temos mais chances de sermos felizes.

O diabo é que não é isso que acontece: vivemos nos espelhando nos outros, a nossa aflição consiste em tentarmos ter o que os outros têm, quando não termos mais do que os outros, sermos melhores ou iguais aos outros.
Em Cuba, por exemplo, onde todos são pobres, todos ganham pouco, ninguém se julga infeliz.
Os cubanos infelizes são aqueles que sabem que a poucos quilômetros da ilha existe Miami, os EUA, onde as condições de vida dos norteamericanos são infinitamente melhores que as dos cubanos.
Isso passa a ser insuportável, pois se instala neles a idéia de que suas vidas são muito piores que as dos seus vizinhos norte-americanos.


Em outras palavras, só pode ser feliz quem não acha os outros mais felizes.
Toda a encrenca humana reside em nos compararmos com nossos vizinhos, isto é, com os outros.
Sempre que acharmos que alguém é mais feliz do que nós, acabaremos sendo infelizes.
É muito difícil para os humanos encarar com naturalidade a felicidade dos outros, até mesmo porque aos nossos olhos invejosos os outros são mais felizes do que realmente o são.
O próprio Sartre disse que “ o inferno são os outros”.
O que quer dizer que nós teríamos muito mais chances de sermos felizes e realizados se olhássemos só para nós.


Por isso é que os livros sagrados dizem que ser rico não é possuir todas as riquezas, no nosso caso muito dinheiro, muitas propriedades, viajar para onde nos apetecer.
Ser rico, dizem os livros sagrados, é contentar-se com o que se tem.
Se há um segredo de felicidade é este: achar que é bastante o que se possui, sem olhar para o que possuem os outros.
Sei que estou dando uma receita quase impossível de seguir, mas também sei que é a única receita capaz de levar uma pessoa a ser feliz.


Pelo amor de Deus, isso não quer dizer que o homem não deva ambicionar, até mesmo porque a razão central do progresso dos homens e das nações é a ambição.
Mas a ambição deve ser uma meta, uma trilha a seguir, e não o despeito por ver que os outros têm mais do que nós.
Ou seja, a felicidade está apenas no que somos e no que desejamos ser, mas sem nos importarmos com o parâmetro alheio.
Assim, justo é que queiramos crescer porque vemos que há espaço para crescermos – e não porque entendemos que os outros estão mais crescidos.


Fôssemos ser infelizes porque possuímos menos do que os outros, teríamos que paralisar, cruzar os braços e nunca mais avançar quando constatássemos que outros possuem muito menos do que nós.


*texto publicado em 14/09/2008

Paulo SantAna
Zero Hora 18/06/2012




terça-feira, 19 de junho de 2012

A noite e a lua


Noite, porque estás assim tão pensativa,


Com teu longo vestido, bordado de estrelas,


Esvoaçando como a mais fina seda,


Deslizando por teu lindo corpo de princesa?




Noite, porque estás assim tão séria?


Os teus cabelos de nuvens, prendeste antes que o dia raiasse?


Porque teus olhos hoje, vermelhos, faíscam,


Como se um temporal a tua volta se formasse?




Noite, porque tanta tristeza?


Se cativas a todos com tua cumplicidade e beleza...


Se os envolves quando te enfeitas de rosas...


E teu perfume, ao longe exalas?




A noite... Responde á lua, tristonha!


-“Por que, não tenho mais tua companhia,


A madrugada roubou minha magia,


E eu, agora me esvaio nesta aragem fria...”


- E sei que amanhã, quando aqui novamente voltar,

Chorarei, porque o que vivi hoje... Não poderei recuperar,

Pois, por quem me apaixonei... Nunca mais irei encontrar...


Lani

domingo, 17 de junho de 2012

Claridade

Se cada dia cai,
Dentro de cada noite,
Há um poço
Onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
Do poço da sombra
E pescar a luz caída,
Com paciência.

Pablo Neruda

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Confiteor

Quanto tempo que perdi dormindo.

Quanto tempo que perdi pensando.
Quanto tempo que perdi em dúvida.
Quanto tempo que perdi em pânico.
Quando havia tanta coisa melhor para fazer!


Quanto tempo que perdi disputando com outros.
Quanto tempo que perdi não entregando os pontos.
Tempos largos em que não tive humildade.
Quanto tempo gasto com orgulho,
Ocupando-me mais em gostar de mim próprio.


Quanto tempo gasto sem pensar nos outros
E sem oferecer ajuda aos que por ela clamavam.


Quanto tempo gasto com o medo da desgraça.
E, mesmo ela não vindo, continuava o medo.


Quanto tempo tentando driblar o inevitável.
Quanto tempo perdi em não confiar nos outros.
E mais tempo ainda em confiar nos inconfiáveis.


Juventude triste a minha, desdenhei dos sonhos.
Entreguei minha sorte à própria sorte,
Sem esforço para mudar o meu destino.
Tempo puramente gasto em crer nas promessas,
Quando o certo era prometer a mim mesmo.
Quanto teimei em mergulhar na rotina,
Quando o certo era transformar meu cotidiano.


Quanto tempo acreditei tolamente
Que a felicidade só viria por acaso.

Quanto tempo cruzei os braços na contemplação,
Quando o certo era partir resoluto para a ação.
Quanto tempo gostei mais de mim do que dos outros,
Quando o certo era entregar-me dedicadamente
Ao primeiro que necessitasse.


Tempos perdidos, meu Deus,
Ocupados somente em lamentar-me,
Sem atirar-me depressa às mãos à obra.
Oh, Deus, devolvei-me aqueles tempos desperdiçados
Para que eu possa, se há tempo, consertá-los.

Havia mais tempo para eu chorar os meus fracassos
Do que para tentar vitórias.
Quanto tempo gastei em busca de aplausos fúteis,
Em vez somente do reconhecimento silencioso.
Nenhum tempo gastei para ser jovem.
E gasto tanto tempo em deplorar a velhice.

Assim é que agora aflitamente
Arrependo-me de não ter-me arrependido antes.

PAULO SANT’ANA
Zero Hora 05/06/ 2012


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cores

Eu sou branco. Você é vermelho.

Quando estamos juntos somos rosa.
Antes de eu conhecer você, eu não sabia o que era rosa.
Até que eu vivia bem sozinho: comia o que e na hora que eu queria; saía na hora quando bem entendia para ir ao lugar que tinha vontade de ir,numa liberdade, independência e auto-suficiência.
Quando eu vi você, fiquei vermelho de paixão e nem me incomodei com os meus brancos.
Até perceber-me que eu já não era mais o branco.
Foi quando o vermelho começou a me sufocar e então, brancamente, me protegi.
Mas às vezes eu me irritava e brigava com você.
No fundo, era porque você era vermelha e não branca igualzinho a mim.
Percebi-me em alguns variados momentos querendo mudar a sua cor.
Ainda bem que você soube permanecer-se vermelha,
ter suas próprias emoções, sentimentos, comportamentos e pontos de vista.
Caso contrário, você seria também branca.
Mas tive minhas reticências, pois estava acostumado ao meu ritmo e modo de vida branco.
Temi perder minha individualidade.
Mas aos poucos fui descobrindo que o branco para se transformar em rosa
não é perder, desestruturar-se e desaparecer, mas é completar-se com o vermelho.
O rosa me atemorizou, mas hoje vejo quanto é gostoso conviver, relacionar-me, amar e ser amada.
Dá mais trabalho porque nem tudo pode e deve ser feito brancamente, mas sem dúvida tudo pode ser mais gostoso e rico com o vermelho.
Freqüentemente, um bom lanche branco não é tão agradável quanto um singelo jantar rosa.
Um mundo muito Cor de Rosa a todos....

Içami Tiba

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Acreditar


Só há uma forma de se estar perto
quando se está muito longe:
se fecha os olhos, bem forte,
e pensa e deseja muito, muito, muito
estar juntinho de quem ama.

Porque no amor tem dessas coisas
a gente só não pode abrir os olhos
a gente só não pode deixar de acreditar .

Cáh Morandi

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

Carlos Drummond de Andrade





sábado, 19 de maio de 2012

O contrário do amor



O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.



O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.


Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.


Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

Martha Medeiros

Negra

A negra para tudo


a negra para todos


a negra para capinar plantar


regar


colher carregar empilhar no paiol


ensacar

lavar passar remendar costurar cozinhar

rachar lenha

limpar a bunda dos nhozinhos

trepar.






A negra para tudo

nada que não seja tudo tudo tudo

até o minuto de

(único trabalho para seu proveito exclusivo)

morrer.



Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Felicidade


Seremos todos infelizes
enquanto não descobrirmos
que a nossa felicidade depende
da dos demais.



Pe. Luiz Carlos

domingo, 13 de maio de 2012

Pedrinhas


Reter na mente coisas desagradáveis é como andar


com pedrinhas dentro do sapato:

enquanto você estiver caminhando pela estrada da vida,


elas o machucarão e o atormentarão.

Por que não jogar fora essas pedrinhas,

que estão no sapato da sua mente?

Masaharu Taniguchi

sábado, 12 de maio de 2012

Problemas


Os problemas nunca vão desaparecer,
mesmo na mais bela existência.

Problemas existem para serem resolvidos,
e não para perturbar-nos.

A maior represália contra um inimigo
é perdoá-lo.


Se o perdoamos,
ele morre como inimigo
e renasce a nossa paz.


O perdão nutre a tolerância e a sabedoria .


 Augusto Cury

quinta-feira, 10 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Deus triste

Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.

Deus não está diante de Deus.

Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus: eterna.


Deus criou triste.

Outra fonte não tem a tristeza do homem.


Carlos Drummond Andrade

















sábado, 5 de maio de 2012

Rouxinol

Guardava o rouxinol numa caixinha.
Tudo o que queria
era andar com o rouxinol
empoleirado no dedo.
Mas,
se abrisse a caixinha,
ah! certamente fugiria.
Então amorosamente cortou o dedo.
E,
através de uma mínima fresta,
o enfiou na caixinha."

Marina Colasanti

quarta-feira, 2 de maio de 2012




Não faço poemas como quem chora,


nem faço versos como quem morre.

Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira

quando muito moço; achava que tinha


os dias contados pela tísica


e até se acanhava de namorar.






Faço poemas como quem faz amor.


É a mesma luta suave e desvairada


enquanto a rosa orvalhada


se vai entreabrindo devagar.


A gente nem se dá conta, até acha bom,


o imenso trabalho que amor dá para fazer.






Perdão, amor não se faz.


Quando muito, se desfaz.


Fazer amor é um dizer


(a metáfora é falaz)


de quem pretende vestir


com roupa austera a beleza


do corpo da primavera.


O verbo exato é foder.


A palavra fica nua


para todo mundo ver


o corpo amante cantando


a glória do seu poder




Thiago de Mello