sábado, 28 de maio de 2011

Quando a gente vê



Quando a gente menos espera, desaparecem as duas últimas bolas de gude da gaveta.

Quando menos se espera, a gente não cabe mais no triciclo.

Quando a gente menos espera, ninguém mais convida para fogueira junina nenhuma.

Quando a gente menos espera, o carteiro deixa para sempre de vir.


Quando a gente menos espera, todas as calças que se usa perderam o friso.

Quando menos se espera, deixa-se de cogitar de usar sapatos de bico fino.

Quando menos se espera, os olhares dirigidos para nós não têm qualquer interesse.

Quando menos se espera, você constata que não anda mais tomando chá, almoçando ou jantando com ninguém.

Quando menos se espera, deixa-se de atender ao despertador por vários dias.

Quando a gente vê, não se tem mais força para puxar a rolha da garrafa de vinho.

Quando a gente vê, todas as outras pessoas estão se divertindo mais na vida do que nós.

Quando a gente vê, no nosso meio, todos estão sendo mais reconhecidos do que nós.

Quando a gente vê, deixa-se de não usar meias, depois deixa-se de usar meias, logo em seguida passa-se a usar meias de lãs.

Quando a gente vê, todos passam à nossa frente no trânsito e nós não passamos nunca à frente dos outros no trânsito.

Quando a gente vê, as multas de trânsito que nos chegam passaram a ser justas.

Quando a gente vê, começa a ser pervertido o primeiro sentido, a visão, em seguida a audição. Quando começa a perversão do paladar, então teme-se pelo tato e pelo olfato.

Quando a gente vê, primeiro escasseiam os amigos, depois os tempos de duração nos encontros com os que restaram.

Quando a gente vê, é quase campeão mas incrivelmente deixa escapar a vitória no final.

Quando a gente vê, tromba com o diagnóstico e fica torcendo só pelo prognóstico.
...
Paulo Sant'Ana
Zero Hora 17/05/2011

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Decisão




Deixei de falar
e pensar
não penso mais.

Deixei de escrever
também
deixei de ouvir.

Para mim
as palavras
morreram
definitivamente.

No entanto
conservo o olhar
e permaneço
diante do oceano
a me observar
partindo de mim
todos os dias
não sei exatamente
para onde.

Sempre que volto
trago pérolas
que devolvo
imediatamente ao mar.

Quando anoitece
adormeço
para a vida
e então
me deixo esquecer
sem respirar.

Álvaro Alves de Faria

terça-feira, 24 de maio de 2011

Poema alado



Soy feliz.
Quise escribir um verso
y describí un pájaro.
¿ Por qué soy feliz?
Porque voló, como todos los versos
y como todos los pájaros.

Susana Giraudo

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O sonho da borboleta



Nasceu a borboleta no lugar
Onde moldou em seda o seu casulo.
Esticou as belas asas e num pulo,
Banhada pelo Sol pôs-se a bailar.

Poisou no colorido de uma flor.
Bebeu néctar até que se fartou.
Ébria, enlouqueceu, então dançou
Espalhando p'lo jardim a sua cor.

Sonhou-se gente a linda mariposa.
Sentiu-se a dona dos prados floridos,
Dançarina dos gestos coloridos:
— Mais bela do que as flores! — pensou vaidosa.

Um pardal viu a cor a esvoaçar
E saltou, apanhando o alimento.
A dança acabou sem um lamento!
— Borboleta!... que é do teu sonhar?!...

Humberto Soares Santa

sábado, 21 de maio de 2011

Anel de lata serve de aliança



Uma moeda antiga, uma almofada de alfinetes, uma pulseirinha colorida.
A gente se prende a uma coisa pequena, insignificante para o mundo, especial para nós. Não há como esclarecer o sentido da devoção.
É algo que combina com a alma mais do que com o corpo, que gira nas mãos como uma chave do pensamento.

Na infância, guardava uma pena de ganso dentro do estojo. Ai se algum colega tirasse do lugar. Minha irmã Carla usava uma correntinha de coração. A bijuteria barata seguiu pelo seu pulso vida afora. Nunca trocou por nenhum brilhante.



Eu senti o apego durante um voo de volta a Porto Alegre. Estava com um terno cinza, retrô, escrevendo no caderninho e, de repente, a caneta estourou. Demorei a perceber sua ação. A ponta transformou-se num soro, pingava cada vez mais grosso. Uma mancha de petróleo se espalhou pelo mar de linho. Eu me desesperei, peguei os guardanapos e comprimi as áreas atingidas pela tinta. Pedi ajuda para a aeromoça, que me alcançou um pano com água quente.

Redundei a poça ao esfregar o tecido, pichei sem querer as próprias roupas. A aeromoça me aconselhou:
– Por que não põe a caneta no lixo?




Apesar da sujeirada que causou, segurava a esferográfica o tempo todo. Protegia aquela peça suicida, de veias abertas.

– Por que não põe a caneta no lixo? – a aeromoça agora levantava a cesta, quase me ordenando.

– É verdade – disse, mas não a descartei. Bateu uma impotência. Fiquei com compaixão da caneta, do que ela havia anotado comigo, de sua fidelidade à minha letra.

Abandonaria o objeto quando ele mais precisava de mim. As roupas sujas não me doíam, mas a caneta gritava, era um osso de meu dedo. Porque ninguém iria se importar com ela, a não ser eu.



Sempre foi dessa forma: a caneta explodia em meu bolso e ia socorrê-la, alheio ao estrago que produzia em mim. Poderia ser uma Mont Blanc ou uma Bic. Não é pelo preço, e sim pelo misterioso valor emocional.

Se já temos uma relação obcecada e incompreensível com um simples pertence, imagine a loucura que é o nosso gosto amoroso. Desisti de justificar a um amigo o que sinto por uma mulher. Amor é muito pessoal. Não se explica. Não requer motivo. Talvez aquilo que seja o inferno para os outros seja o éden para mim. Nem procuro mais disfarçar as manchas.

Fabricio Carpinejar
Zero Hora 17/05/2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

a rosa / Chico Buarque e Djavan




Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes troca meu nome
E some

E some nas altas madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela
Ói ela
Ói ela, vestida de verde e rosa

A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte, voltou toda sorridente

Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa
Abusa, me acusa
Revista os bolsos da calça

A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa
A gueixa
Que coisa mais amorosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes me chama Alberto
Alberto

Decerto sonhou com alguma novela
Penélope, espera por mim bordando
Suando, ficou de cama com febre
Que febre
A lebre, como é que ela é tão fogosa
A Rosa

A Rosa jurou seu amor eterno
Meu terno ficou na tinturaria
Um dia me trouxe uma roupa justa
Me gusta, me gusta
Cismou de dançar um tango

Meu rango sumiu lá da geladeira
Caseira, seu molho é uma maravilha
Que filha, visita a família em Sampa
Às pampa, às pampa
Voltou toda descascada

A fada, acaba com a minha lira
A gira, esgota a minha laringe
Esfinge, devora a minha pessoa
À toa, a boa
Que coisa mais saborosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia?
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa

Chico Buarque

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Vi todas as coisas



Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse,
Amei e odiei como toda a gente,

Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo.

E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gosto quando te calas



Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.




Pablo Neruda

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mães



Antes de ser mãe, eu fazia e comia
os alimentos ainda quentes.
Eu não tinha roupas manchadas,
tinha calmas conversas ao telefone.
Antes de ser mãe, eu dormia o quanto eu queria,
Nunca me preocupava com a hora de ir para a cama.
Eu não me esquecia de escovar os cabelos e os dentes


Antes de ser mãe,
eu limpava minha casa todo dia.
Eu não tropeçava em brinquedos e
nem pensava em canções de ninar.
Antes de ser mãe, eu não me preocupava:
Se minhas plantas eram venenosas ou não.
Imunizações e vacinas então,
eram coisas em que eu não pensava.


Antes de ser mãe,
ninguém vomitou e nem fez xixi em mim,
Nem me beliscou sem nenhum cuidado,
com dedinhos de unhas finas.
Antes de ser mãe,
eu tinha controle sobre a minha mente,
Meus pensamentos, meu corpo e meus sentimentos,
e dormia a noite toda.


Antes de ser mãe,eu nunca tive que
segurar uma criança chorando,
para que médicos pudessem fazer testes
ou aplicar injeções.
Eu nunca chorei olhando pequeninos
olhos que choravam.
Nunca fiquei gloriosamente feliz
com uma simples risadinha.
Nem fiquei sentada horas e horas
olhando um bebê dormindo.


Antes de ser mãe, eu nunca segurei uma criança,
só por não querer afastar meu corpo do dela.
Eu nunca senti meu coração se despedaçar,
quando não pude estancar uma dor.
Nunca imaginei que uma coisinha tão pequenina,
pudesse mudar tanto a minha vida e
que pudesse amar alguém tanto assim.
E não sabia que eu adoraria ser mãe.


Antes de ser mãe, eu não conhecia a sensação,
de ter meu coração fora do meu próprio corpo.
Não conhecia a felicidade de
alimentar um bebê faminto.
Não conhecia esse laço que existe
entre a mãe e a sua criança.
E não imaginava que algo tão pequenino,
pudesse fazer-me sentir tão importante.


Antes de ser mãe, eu nunca me levantei
à noite toda , cada 10 minutos, para me
certificar de que tudo estava bem.
Nunca pude imaginar o calor, a alegria, o amor,
a dor e a satisfação de ser uma mãe.
Eu não sabia que era capaz de ter
sentimentos tão fortes.
Por tudo e, apesar de tudo, obrigada Deus,
Por eu ser agora um alguém tão frágil
e tão forte ao mesmo tempo.
Obrigada meu Deus, por permitir-me ser Mãe!


Feliz Dia das Mães (atrasado !)

Desconheço o autor




quinta-feira, 5 de maio de 2011

Recordação




Eu bem sei
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.





Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.





Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...

Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos.

Afonso Duarte

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Canção para uma valsa lenta



Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo...
Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida… passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...

Mario Quintana

domingo, 1 de maio de 2011

Retrato de pato



O pato ganhou sapato

Foi logo tirar retrato.

O macaco retratista

Era mesmo um grande artista.

Disse ao pato: "Não se mexa

Para depois não ter queixa".

Olhe pra cá direitinho:

Vai sair um passarinho.



O passarinho saiu,

Bicho assim nunca se viu.

Com três penas no topete

E no rabo apenas sete.

E como enfeite ele tinha

Um guizo em cada peninha.





Pousou no bico do pato:

- Eu também quero retrato!

No retrato saio só eu,

Pra mandar a minha vó!


A discussão não parava

E cada qual mais gritava.

Passa na rua um polícia.

"Uma briga? Que delícia!"

Entra como um pé de vento

Prende tudo num momento.


Mário Quintana


sábado, 30 de abril de 2011

Meditação transcendental




Para meditar,
o homus modernus ocidentalis
cruza as pernas
deixa as costas eretas
os braços relaxados
concentra a atenção num ponto
e, assim imóvel em
pensamento e ação,
liga a televisão.


Ulisses Tavares

terça-feira, 26 de abril de 2011

Ideias para ganhar seu voto



O deputado Raul Carrion se irritava com o uso de palavras estrangeiras no Estado.

Aí, o que ele fez?

Uma lei proibindo o uso de palavras estrangeiras no Estado.

Entendo o deputado. Imagine você ter o poder que ele tem, de fazer leis. Você não gosta de algo, vai lá e proíbe. Ou gosta, vai lá e obriga. Deve ser muito bom. MUITO bom. Eu, se fosse deputado, teria prontos diversos projetos de interesse da coletividade. Ou de interesse de parte da coletividade, sobretudo a formada por mim e meus amigos. Cito os 10 mais relevantes. Se você aprovar, talvez vote em mim:

1. Proibiria bares ou restaurantes ou afins de servirem chope ou cerveja quente. Chope ou cerveja, só tinindo, só quase gelados.

2. Proibiria terminantemente o emprego do celular na mesa de bar, incluindo aí o envio e recebimento de torpedos. Na mesa do bar, as pessoas seriam obrigadas a conversar com quem estivesse na mesa do bar, salvo casos de extrema necessidade, como ligar para o amigo a fim de saber como está o outro bar.

3. Proibiria carros com equipamento de som de boate.

4. As mulheres não poderiam mais, nunca mais!, usar calças sem fundilhos, as famigeradas (asc!) “saruel”.

5. As mulheres não poderiam mais usar tênis, salvo para a prática de esportes, desde que fizessem o indispensável contraponto com o short curto ou a legging apertada.

6. Os garçons não poderiam mais, nunca mais!, empilhar cadeiras sobre as mesas enquanto houvesse um único cliente no bar, salvo exceções, como um cliente que estivesse dormindo em cima do prato de sopa. O cliente, porém, não poderia ser acordado, coitado.

7. Proibiria a dança de paletó e gravata em casamentos. Dançar de paletó e gravata, só se for tango ou bolero. Melhor: proibiria que esposas e namoradas convidassem os respectivos maridos e namorados para “sair para dançar” em qualquer momento de suas vidas, para todo o sempre.

8. Proibiria a execução de axé, pagode, sertanejo e funk em todas as rádios.

9. Criaria a Associação dos Abstêmios Anônimos, entidade de caridade para ensinar a beber os pobrezinhos que não bebem.

10. Proibiria que as pessoas se insultassem por causa de futebol. Ou por causa de barbeiragens no trânsito. Ou por odiar ou amar o PT. Pensando bem, proibiria as pessoas de se insultarem. Salvo exceções, como se lhes fosse servido chope ou cerveja quentes.

Tenho aqui muitos outros projetos de igual interesse público. Eu seria muito mais feliz se pudesse fazer as leis que bem entendesse. Compreendo, portanto, o nobre deputado e não o critico, ainda que o projeto dele seja desperdício de energia e de dinheiro público, ainda que seja ingênuo, ainda que seja inútil, ainda que seja uma bobice, o compreendo. Eu faria igual.



David Coimbra



Zero Hora 22/04/2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O mistério do sono



Um amigo desabafa comigo e diz que o único prazer que lhe resta é dormir.
Como pode ser bom dormir, penso com os meus botões, se quando se está dormindo nada se sente?
Que prazer é esse de alhear-se do mundo, mergulhar num sono que pode ser considerado uma morte passageira, uma fuga da vida?
Eu não tenho dúvida, aliás, de que os que procuram refugiar-se no sono estão fugindo de alguma coisa que só pode ser a vida.
Uma pessoa normal, que não esteja depressiva, só pode gostar do sono antes e depois de dormir.
Antes, como caminho, perspectiva e solução para o descanso. Depois, como dever de repouso cumprido.

Mas os depressivos detestam estar acordados, a vigília prolonga-lhes a aflição, o pesadelo de terem-se de encontrar com suas dificuldades.
O supremo ideal do depressivo é dormir e deixar para trás todas as suas preocupações. É só um adiamento.

Por sinal, vendo as crianças dormirem com aquela letargia, ocorre-me imaginar que as crianças dormem assim tão profunda e insistentemente porque não têm o que pensar, estão distantes de temer o futuro e não possuem ainda um passado para lamentar ou comemorar.
Por esse raciocínio, a vigília é própria dos que pensam no futuro e no passado, dos que têm do que se ocupar mentalmente.
E o sono, por conseguinte, é uma condição de paz e de tranquilidade.

Em estado de insônia ou fadiga, o homem se pune com as censuras que faz a si próprio, enquanto que, se adormecer, ele acalma a sua culpa.
O sono nada mais é, portanto, que um grande alívio.
Ao contrário, a vigília é um castigo. Manter-se acordado muitas vezes é autoinfligir-se uma condenação aflitiva, uma maneira de permanecer purgando as vicissitudes e as adversidades.
Nem dá para imaginar como seria a vida sem o sono, enfrentar o duro combate da existência sem nenhum intervalo provocaria uma existência cruciante. Ou a morte.



Do sono até a morte, o passo é pequeno. A natureza pode ter criado o sono para treinar as pessoas para a morte.
Quando não é crivado por sonhos, o sono é o nada, é o ingresso num vazio total de existência, um não ser, uma antivida, um armistício.
E, no entanto, o sono, por imposição natural, é um espaço de repouso físico e de folga para a consciência.
Como também o sono faz parte da vida, um homem de 60 anos terá passado 20 anos de sua vida dormindo. Parece, assim, um desperdício, mas a natureza deve ter tido razões sábias para obrigar o homem a dormir e para deixá-lo arrasado quando não consegue dormir.

E o que será que vem a ser um sono agitado ou a insônia, senão que a pessoa está se recusando a mergulhar no sono porque tem tantas coisas boas ou más para fazer na vida, que não poderia, assim, diante de tantos compromissos, ficar perdendo tempo a dormir.
Sobre o parentesco da morte com o sono, a melhor metáfora para mim é do compositor e jornalista Antônio Maria, que deixou para seu companheiro de quarto um recado escrito, antes de ir dormir: “Se eu estiver dormindo, deixa-me dormir. Se eu estiver morto, me acorda”.




Paulo Sant'Ana

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Páscoa




- Papai, o que é Páscoa?
-Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
-Igual ao Natal?
-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição.
-Ressurreição?
-É, ressurreição. Marta , vem cá !
-Sim?
-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
-O Espírito Santo também é Deus?
-É sim.
-E Minas Gerais?
-Sacrilégio!!!
-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a
professora explica tudinho!
-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
-Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
-Coelho bota ovo?
-Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
-Era... era melhor,sim... ou então urubu.
-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia ele morreu?
-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
-Que dia e que mês?
- (???)
Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
-Um dia depois!
-Não três dias depois.
-Então morreu na Quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois!
-Como?
- Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no Sábado?
- Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
-Ai...

- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
-Cristo. Jesus Cristo.
-Só ?
-Que eu saiba sim, por quê?
-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
-Ai coitada!
-Coitada de quem?
-Da sua professora de catecismo!


Luiz Fernando Veríssimo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tipos inesquecíveis


Era elegante como um manequim de vitrine e ocupado como telefone de bicheiro.

Embora mentiroso como bula de remédio, mais enganador que boletim meteorológico e vagaroso como uma obra da prefeitura, era minucioso como um vendedor de imóveis e tão perigoso quanto um pastel de botequim.

De inteligência era tão quadrado quanto a frente de um carro inglês e sua ignorância era transparente como fatia de presunto em sanduíches.

Sob o ponto de vista moral, era mais sujo que qualquer rua do Rio e mais desmoralizado que o cruzeiro.

Sentindo-se tão inútil quanto um deputado honesto e mais abandonado que o plano para erradicar a seca, resolveu pôr fim à vida de maneira tão rápida quanto o governo aumenta os impostos.

Hoje é apenas uma saudade funda como o time do Olaria e seu nome está mais esquecido que promessa de vereador em época eleitoral.

Max Nunes

domingo, 17 de abril de 2011

Biografia


Quando sozinho, sofro.

com gente, finjo.

se amado, fujo.

amante, disfarço.

permanecendo, inquieto.

calado, penso.

pensando, calo.

tocado, tremo.

tocando, recuo.

vencedor, desinteresso.

vencido, odeio.

quase morto, vivo assustado.

quase vivo, morro de medo.


Ulisses Tavares

sábado, 16 de abril de 2011

A causa da chuva


Não chovia há muitos e muitos meses, de modo que os animais ficaram inquietos.

Uns diziam que ia chover logo, outros diziam que ainda ia demorar. Mas não chegavam a uma conclusão.

– Chove só quando a água cai do teto do meu galinheiro, esclareceu a galinha.

– Ora, que bobagem! disse o sapo de dentro da lagoa. Chove quando a água da lagoa começa a borbulhar suas gotinhas.

– Como assim? disse a lebre. Está visto que chove quando as folhas das árvores começam a deixar cair as gotas d’água que tem dentro.


Nesse momento começou a chover.

- Viram? gritou a galinha. O teto do meu galinheiro está pingando. Isso é chuva!

– Ora, não vê que a chuva é a água da lagoa borbulhando? disse o sapo.

– Mas, como assim? tornava a lebre. Parecem cegos? Não veem que é a água cai das folhas das árvores?


Millôr Fernandes

domingo, 10 de abril de 2011

A tática da bolsa


A Jussara estava a fim de um cara e bolou um plano para conhecê-lo. Ou para ele a conhecer. Um plano minucioso, que descreveu para as amigas como se fosse uma operação militar. Em vez de conquistar um reduto inimigo, Jussara conquistaria o cara, que se renderia ao seu ataque. Ela acreditava que, no amor como na guerra, planejamento era tudo.


Jussara sabia que José Henrique – o nome do cara era José Henrique – tinha dinheiro e não tinha namorada firme, duas precondições para seu plano valer a pena. Era bonito, era um intelectual (andava sempre com um livro embaixo do braço) e tinha hábitos regulares. Todos os dias saía do trabalho e sentava-se numa mesa de bar, sempre a mesma mesa, para comer uma empada e tomar uma cerveja (só uma, e ele não fumava nem tinha qualquer outro vício aparente) antes de ir pegar seu carro num estacionamento próximo. Geralmente bebia sozinho e ia direto para casa, onde morava com a mãe viúva.


O ataque, de acordo com a melhor tática militar, deveria ser de surpresa. Mas surpreendente apenas o bastante para ser inesquecível sem assustar o cara. A ideia da Jussara era que, no primeiro contato, ele já descobrisse tudo sobre ela. O que ele faria com esta informação dependeria do que viesse depois. Ou, como disse a Jussara, “dos desdobramentos”. Mas no primeiro instante ele teria que saber tudo a seu respeito. Como conseguir isto ?

Com a bolsa. As amigas se entreolharam. Com a bolsa? Com a bolsa. Jussara entraria no bar remexendo na sua bolsa, fingindo procurar alguma coisa com tanta concentração que esqueceria de olhar para frente e esbarraria no José Henrique, derramando todo o conteúdo da bolsa na mesa à sua frente, ou no chão ao seu lado.


– E o conteúdo da bolsa dirá tudo que ele precisa saber a meu respeito, entendem? Serei eu dentro da bolsa. Tudo que eu sou, tudo que eu gosto. Ele vai me ajudar a colocar as coisas de volta dentro da bolsa e em poucos minutos conhecerá minha alma e minha biografia. Jussara já sabia o que colocaria dentro da bolsa. Um bonequinho de pelúcia que certamente enterneceria o cara, mostrando seu coração bom e algo infantil. Envelopes com sementes, mostrando sua preocupação com o meio ambiente. E um livro, para ele saber que ela também lia. Mas precisava decidir: que livro? Estava aceitando sugestões. Poesia? Martha Medeiros? Karl Marx? Pornopopeia? O Pequeno Príncipe? Qual faria maior efeito? Escolheram um Saramago, desde que não fosse muito pesado.


E o encontro se deu. Todo o conteúdo da bolsa da Jussara caiu na frente do cara, que ajudou a botá-lo de volta, como previsto. Mas ele nem notou o livro e as outras coisas. Pegou um estojo de maquiagem da Jussara e disse: “Eu uso o mesmo blush!”.


A Jussara culpa seu fracasso numa falha que costuma frustrar as operações militares: reconhecimento insuficiente do terreno.


– Faltou pesquisa – lamenta.


Luis Fernando Verissimo

Zero Hora 10/04/2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Daltonismo


Olhe de novo:

Não existem brancos.

Não existem amarelos.

Não existem negros.

Somos todos arco-íris.

Ulisses Tavares

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Conteúdo





No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.


Ulisses Tavares

Amém


Hoje acabou-se-me a palavra,

e nenhuma lágrima vem.

Ai, se a vida se me acabara também!


A profusão do mundo, imensa, tem tudo, tudo – e nada tem. Onde repousar a cabeça?

No além?


Fala-se com os homens, com os santos,

consigo, com Deus. . .

E ninguém entende o que se está contando

e a quem. . .


Mas terra e sol, luas e estrelas

giram de tal maneira bem

que a alma desanima de queixas.

Amém.


Cecília Meireles

terça-feira, 5 de abril de 2011

As sem razões do amor


Eu te amo porque te amo.

Não, precisa ser amante

e nem sempre sabes sê-lo.


Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.


Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.


Eu te amo

porque não amo bastante

ou demais a mim.


Porque amor não se troca,

não se conjuga

nem se ama.


Porque amor

é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 3 de abril de 2011

Canção do amor imprevisto


Eu sou um homem fechado.

O mundo me tornou egoísta e mau.

E a minha poesia é um vício triste,

Desesperado e solitário

Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,

Com o teu passo leve,

Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil

Aonde viessem pousar os passarinhos.

Mário Quintana

quinta-feira, 31 de março de 2011

Soneto de aniversário


Passem-se dias,

horas, meses, anos

Amadureçam as ilusões da vida

Prossiga ela sempre dividida

Entre compensações e desenganos.


Faça-se a carne mais envilecida

Diminuam os bens, cresçam os danos

Vença o ideal de andar caminhos planos

Melhor que levar tudo de vencida.


Queira-se antes ventura que aventura

À medida que a têmpora embranquece

E fica tenra a fibra que era dura.


E eu te direi: amiga minha, esquece...

Que grande é este amor meu de criatura

Que vê envelhecer e não envelhece.


Vinicius de Moraes

terça-feira, 29 de março de 2011

Precisa-se de um amigo


Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimentos.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem imprescindível, que seja de segunda mão.

Não é preciso que seja puro, ou todo impuro, mas não deve ser vulgar. Pode já ter sido enganado ( todos os amigos são enganados).

Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.

Deve gostar de crianças e lastimar aquelas que não puderam nascer. Deve amar o próximo e respeitar a dor que todos levam consigo.

Tem que gostar de poesia, dos pássaros, do por do sol e do canto dos ventos. E seu principal objetivo de ser o de ser amigo.

Precisa-se de um amigo que faça a vida valer a pena, não porque a vida é bela, mas por já se ter um amigo.

Precisa-se de um amigo que nos bata no ombro, sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo.

Precisa-se de um amigo para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 27 de março de 2011

O grito


Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.

Ela sabe.

Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.

Ele sabe.

Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.

Sabemos, sim.

Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar esse grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe em nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.

Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar esse amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.

A verdade grita.

Provoca febre, salta aos olhos, desenvolve úlceras.

Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona e finge esquecer. Mas há uma verdade única : ninguém tem dúvida sobre si mesmo. Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança.

Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos.

Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz. E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!

Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.

Sabe.

Eu não sei por que sou assim.

Sabe.

Martha Medeiros

quinta-feira, 24 de março de 2011

Eu falo em poesia


Quem me dera ser palhaço.
a minha cara eu pintaria.
um palhaço, que só diverte.
e rindo, a verdade eu diria.
mas eu não sei divertir.
ninguém ri das minhas piadas,
e eu não sei o que dizer.
e de mim ninguém riria.
e se para ser palhaço eu não serviria.
não eu.
o que eu faria?
seria eu um artista que falaria no abstrato?
cores e formas eu usaria?
não. eu não sei pintar.
e a arte eu não tocaria.
um músico que amaria com notas?
e cantos eu entoaria?
ah! ninguém ouviria.
e das notas mais bonitas
eu destoaria.
falar simplesmente?
mais fácil seria
eu, que nem sei o que dizer...
pois se digo, do jeito que sei.
eu sei, eu erraria.

então eu calo?
minha boca eu fecharia?
...
...
...


não.
eu falo em poesia.


Anne Luisa Nardi

sexta-feira, 18 de março de 2011

Canção do dia de sempre


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...


Mário Quintana