segunda-feira, 25 de março de 2013
Os seguidores
Estava no aeroporto outro dia, conversando com um ator e um blogueiro. Um deles se virou para o outro e perguntou: "Quantos seguidores você tem ?". A resposta: "Novecentos, e você?" Resposta: "Um pouco menos, uns 650 mil".
Músicos têm ouvintes, atores têm plateias, escritores têm leitores, mas pelo visto issi já não diz muita coisa, não há tanto mérito, é uma relação quase passiva. Bem-sucedido mesmo, é quem tem seguidores, ao menos é o que dizia o slogan de um produto anunciado em comercial de tevê recentemente, e nem era anúncio de equipamento eletrônico. Não lembro o produto mas lembro da promessa: "Você com cada vez mais seguidores". Que blusa eu uso, em que loja compro, que shopping devo frequentar para ter tantos seguidores assim? A ambição, agora, é ser messiânico.
Jesus tinha seguidores, assim como Renato Russo. Mas agora qualquer um pode ter o seu rebanho, ser um pastor. O Twitter fundou uma nova tribo. Soube que Caio Fernando Abreu, falecido há mais de 10 anos , tem hoje 60 mil seguidores. E seus leitores? Já não estão com esse cartaz todo.
É apenas uma questão de semântica, claro. Renovam-se as palavras para perpetuar a sensação de modernidade, de atualização, mas, no fundo, é tudo a mesma coisa. Só que não se pode negligenciar o sentido do termo: a palavra seguidor sugere um refém intelectual, enquanto que o leitor pensa, reflete, concorda, discorda. O seguidor não se d á esse trabalho. Apenas xereta.
Eu sei que é apenas uma expressão, eu sei, eu sei, mas acho estranho, fazer o quê? Já me perguntaram: quantos seguidores tu tens? Ora, nem às minhas filhas desejo tal destino.Se eu tivesse um caminhão, escreveria no para-choque: "Não sugam ninguém, que estão todos perdidos também.".
É só um termo atual para definir a prática inofensiva de twittar, mas não sei se é mesmo tão banal, tão sem significado. Os equipamentos eletrônicos hoje já dispensam o plugue da tomada, mas seus usuários, em efeito contrário, estão criando uma corrente de interligação que despreza a privacidade e a introspecção. O pensamento alheio virou uma espécie de asilo. Livro serve pra isso também, mas é uma relação a dois: você que lê e o escritor que lhe inspira.Há uma certa sacralidade nesse encontro.Algo de muito pessoal é preservado. Aquilo que lhe emocionou, que iluminou seu pensamento e que despertou seu raciocínio é exclusivo, secreto: uma relação obviamente mais romântica. Por mais popular que seja um escritor, ele é consumido no particular.Mas se ele tem 564.238 seguidores conectados ao mesmo tempo,, puf, evapora-se o mistério.
Todos viram gurus uns dos outros.Me siga que eu te sigo. Mas para onde?
Martha Medeiros
Zero Hora 03/07/2011
sexta-feira, 8 de março de 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
Fim do mundo
Disseram-me que o mundo ia acabar
E eu acreditei;
Por nenhuma razão especial
Senão a de que costumo acreditar
Em tudo quanto me dizem.
... Porque não acreditar então no fim do mundo
Se o mundo acaba todos os dias?
Esvaziei todas as gavetas
Libertei os espaços vazios
Para que o mundo pudesse acabar sem inutilidades…
Deitei-me abraçado ao meu mundo
E aguardei
Mas o mundo não acabou.
Porque a verdade é que o mundo não
Acaba
Mas começa
Todos os dias…
(Simples-mente)
Emílio Miranda
sábado, 2 de março de 2013
Ronda
O toque do sino
o latido do cão
o ruído de passos.
É tudo tempo pretérito
que conjugaremos até a morte?
Que noite é essa
que amanhã reconheceremos?
Que corpo é esse
que não é o nosso?
Em que pensamos nessa madrugada
de sombras que se arrastam até o futuro
onde logo mais estaremos e não estaremos?
Quem somos nós aqui
que já não recordamos?
Que tempo passa e não passa
ó almas que não dormem nunca?
Lenilde Freitas
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Frases
Duas coisas são infinitas:
o universo e a estupidez humana.
Mas, no que respeita ao universo,
ainda não adquiri a certeza absoluta.
Einstein
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Prosopagnosia
Eu estava na fila do cinema, e ela dois passos à frente. Ela virava para trás, me olhava, e logo virava para frente de novo. Até que numa dessas viradas ela disse oi. Eu retribui: Oi. Ela: É isso aí, tu não me conhece, mas eu te conheço: tem que cumprimentar.
Leitores me cumprimentam sem que eu os conheça, e tudo certo, já que há uma foto minha ao lado da coluna do jornal. Só vira um problema quando eu realmente conheço a pessoa que me cumprimenta, já conversei com ela em algum momento da vida, e não faço ideia de quem seja. Escrevi certa vez sobre isso: se a pessoa é a recepcionista da minha médica, e sempre a vejo de coque e de uniforme branco, ao passar por mim de vestido floreado e cabeleira solta no shopping, não vou reconhecê-la. Se o sujeito com quem cruzo na academia, sempre de calção e camiseta, entrar no restaurante de camisa polo e um blusão amarrado em torno do pescoço, não vou reconhecê-lo. Se o porteiro do meu prédio for filmado na arquibancada de um estádio vestindo a camiseta do seu time e segurando um cartaz dizendo “Olha eu aqui, Galvão”, periga o Galvão saber quem é: eu, não. Tenho uma incapacidade crônica de identificar pessoas fora do habitat em que costumo encontrá-las.
Sempre me justifiquei dizendo “Sou péssima fisionomista”, que é um chavão, mas não é mentira, e que, aliado aos meus três graus de astigmatismo, me garantia o perdão de algumas boas almas. Até que outro dia entrei numa loja de conveniências, um cara abriu os braços ao me ver e disse numa alegria comovente: “Marthinha!”. Achei meio íntimo para um leitor. Sorri amarelo e dei um “oi” igual ao que ofereci à moça da fila do cinema. Ele insistiu: “Martha, sou eu!”. Socorro, eu quem? Então ele disse seu nome. Pasme: era um ex-namorado!! A meu favor, deponho que foi um namorado da época da faculdade (não me obrigue a fazer as contas), mas, ora, ainda que tenha sido no tempo das cavernas, conviveu comigo. Ao menos o seu olhar deveria ser o mesmo. Me senti um inseto.
Pois bem, depois de anos soterrada em culpa, descubro que a medicina está do meu lado. Acabo de saber que “sou péssima fisionomista” possui nome científico: prosopagnosia. Uma doença que debilita a área do cérebro que distingue traços e expressões faciais. Estou lendo o excelente Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, cujo personagem vive o mesmo desconforto. Alguns médicos dizem que há apenas 100 casos diagnosticados no mundo – provavelmente eu e outros 99 acusados injustamente de ter o nariz em pé. Mas há quem diga também que o problema é mais comum do que se pensa e que atinge uma a cada 50 pessoas, ou seja, é praticamente uma epidemia.
Comum ou incomum, me concedam o benefício da dúvida: talvez eu seja uma pobre vítima da prosopagnosia e por isso não saio por aí dando dois beijinhos e perguntando pela família de quem, a priori, nunca vi antes. Se não for prosopagnosia, acredite: é astigmatismo evoluindo para uma catarata, somada a uma palermice que me dificulta distinguir semblantes. Nariz em pé, juro que não é.
Martha Medeiros
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Frágil ?
"Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar,
como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar."
Bartolomeu Campos de Queirós
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Ideia de jerico
Semanas atrás, Zero Hora publicou uma matéria sobre um recém-lançado dicionário de palavras mortas, a exemplo de “boco-moco” e “sirigaita”. Em 1997, escrevi uma crônica intitulada Grande África que tratava desse mesmo assunto divertido. Adoro vocabulário vintage, e eu incluiria a expressão “ideia de jerico” entre as que sobreviveram, mesmo cheirando a naftalina. Pelo menos foi ela que me veio à cabeça quando soube que tem alguém tentando promover um projeto de lei popular que decretaria visibilidade zero para cigarros e bebidas, em qualquer mídia, em qualquer lugar – restrição absoluta, tanto visual quanto auditiva. Seria como se bebida e cigarro tivessem deixado de existir.
Ideia de jerico.
Se for uma proposta xiita como parece, revistas de viagens teriam que ter algumas fotos vetadas: não poderiam, por exemplo, mostrar imagens da La Bodeguita del Medio, em Havana, com suas garrafas de rum nas prateleiras. Aliás, os livros de Hemingway, Bukowski e outros beberrões teriam que deixar de ser reeditados ou sofrer censura, pois poderiam ser cúmplices da tal “visibilidade” – a simples menção de uma palavra como uísque poderia estimular o vício do leitor.
Quadros representando a Santa Ceia teriam que ser retirados das igrejas e dos sacrossantos lares, pois é sabido que Jesus não tomava Coca-Cola. Aliás, a missa também teria que se adaptar ao projeto de lei. Repartir o pão, tudo bem, mas vinho, sem chance.
Na hipótese de recebermos uma mostra de quadros impressionistas, o Absinto, de Degas, ficaria proibido de ser exposto. A imagem de Rita Hayworth como Gilda só circularia no mercado negro. O filme Sobre Café e Cigarros, de Jim Jarmusch, e Obrigada por Fumar, de Jason Reitman, seriam retirados das locadoras. A série Mad Man sofreria sanções inimagináveis.
Capas de livros. Camisetas. Cartazes de filmes. Fotos de moda. Textos de teatro. Biografias. Tudo o que fizesse menção ao tabagismo ou ao álcool, fogueira neles. Inquisição, o Retorno.
Sem falar na música popular brasileira. Cálice, de Chico Buarque, Chuva, Suor e Cerveja, de Caetano Veloso, e Brasil, de Cazuza, nunca mais tocariam nas rádios, assim como uma série de canções de Nana Caymmi, Zeca Baleiro, Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Ney Matogrosso – até Roberto Carlos já falou em cigarro em uma de suas letras, acredite. E todas as duplas sertanejas seriam banidas da face da terra. O que, pensando bem... deixa pra lá.
O politicamente correto tem um pé na boa intenção e outro pé na repressão à liberdade. Costumo ser defensora acirrada da ética, mas não contem comigo para dar trela aos excessivamente bonzinhos, que pretendem higienizar o universo com medidas estapafúrdias que, espero, nunca serão levadas a sério. Se começarem a restringir a arte e a livre expressão, zzzzzzzzz, o tédio dominará o mundo e colocará todos para dormir mais cedo.
MARTHA MEDEIROS
Zero Hora 09/01/2013
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Purificar
"Purifica o teu coração
antes de permitires
que o amor entre nele,
pois até o mel mais
doce
azeda num recipiente sujo."
(Pitágoras)
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Mentiras
As pessoas que falam muito,
mentem sempre,
porque acabam esgotando
seu estoque de verdades.
Millôr Fernandes
mentem sempre,
porque acabam esgotando
seu estoque de verdades.
Millôr Fernandes
domingo, 30 de dezembro de 2012
Ano Novo
Que o Ano Novo traga novos sonhos,
novas realidades
novas oportunidades,
novas realizações
novos amigos,
muito companheirismo
novos conhecimentos,
muitas oportunidades
novas ideias,
novas crenças,
novas chances,
e muitos dias para sermos felizes.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Eu sou assim
"Digo o que penso, com esperança.
Penso no que faço, com fé.
Faço o que devo fazer, com amor.
Eu me esforço para ser cada dia melhor,
pois bondade também se aprende!"
Cora Coralina
sábado, 15 de dezembro de 2012
Emergência
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela.
...Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Mario Quintana
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Preenchimentos
Como toda mulher, também gasto alguns minutos em frente ao espelho com as mãos espalmadas no rosto tentando imaginar como seria se eu puxasse um pouquinho aqui, um pouquinho ali, mas nunca fui além da simulação – ainda não tive coragem de enfrentar o bisturi. Amigas aconselham: não precisa partir para algo radical, faça apenas um preenchimento, ora. Toda mulher moderna e inteligente faz, mas não gosto nadinha da ideia de injetarem no meu rosto coisas assustadoras como polimetilmetacrilato ou ácido hialurônico. Outro dia, uma moça me explicou como o dermatologista, depois da aplicação, ficou moldando a substância com os dedos até que se assentasse no lugar certo. Quase passei mal. Não deviam contar esses detalhes para mulheres impressionáveis. E, como se não bastasse eu ser de outro século, ainda deparei com as fotos da mãe do Stallone. Aí, ferrou.
Preenchimento estava na minha lista de resoluções para 2012. Também esteve na de 2009, 2010 e 2011. Acaba de ser adiada, mais uma vez, para 2013 ou 2014, dependendo da minha capacidade de evoluir. Enquanto esse dia não chega, vou continuar me preenchendo com material obsoleto como livros, filmes, exposições, teatro. Não irão me deixar mais jovem nem mais bonita, mas ao menos o cérebro não ficará flácido. Como bem lembrou, recentemente, a linda atriz Aline Moraes, “a beleza pode desmoronar quando se abre a boca”.
Mudando de assunto, mas nem tanto, também me abismei com os erros de português que foram detectados nas legendas da propaganda eleitoral na TV, em que se viram preciosidades como “ensentivo”, “disperdiço”, “trofel”, “concurço” e “pulitica”, palavras que não possuem nem de longe o grau de dificuldade de um polimetilmetacrilato. Cheguei a iniciar uma crônica, mês passado, sobre esse assunto: escrever errado todos escrevem, eu erro, tu erras, ele erra. Não depõe contra o caráter de ninguém, mas não se pode relaxar. É preciso continuar estudando, ler mais, consultar dicionários. Não cheguei a publicar a crônica porque ela foi inspirada nos bilhetes deixados pelo bioquímico que assassinou a mulher e o filho na zona sul de Porto Alegre. Diante de uma tragédia daquela magnitude, não cairia bem falar dos assassinatos gramaticais que ele também praticou. Eram tragédias incomparáveis. Mas a mim doeu tudo.
(Sei lá como se escreve.) Quem de nós, durante um bilhete, um e-mail, um tuíte, não colocou essa frase entre parênteses diante da dúvida sobre como escrever uma palavra difícil ou uma expressão estrangeira? Então, para não encerrar essa crônica com tragédia, e sim com tragicomédia, dê uma espiada no site http://seilacomoseescreve.tumblr.com/page/2 e divirta-se. Rir também rejuvenesce – e não dói.
Martha Medeiros
Zero Hora 29/08/2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Tempo de travessia
"Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos quenos
levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa
sábado, 8 de dezembro de 2012
Coisas da terra
Todas as coisas de que falo estão na cidade
Entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
E eternas como o teu riso
A palavra solidária
Minha mão aberta
Ou este esquecido cheiro de cabelo
Que volta
E acende sua flama inesperada
No coração de maio.
Todas as coisas de que falo são de carne
Como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
Estão dispersas como o ar
No mercado , nas oficinas,
Nas ruas , nos hotéis de viagem .
São coisas, todas elas,
Cotidianas , como bocas
E mãos, sonhos , greves,
Denúncias,
Acidentes de trabalho e do amor.
Coisas
De que falam os jornais
Às vezes tão rudes
Às vezes tão tão escuras
Que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.
Mas é nelas que te vejo pulsando ,
Mundo novo,
Ainda em estado de soluços e esperança.
(Ferreira Gullar)
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Caçador de mim
Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu , caçador de mim
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Nunca procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mais onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim.
( Sérgio Magrão e Luís Carlos Sá)
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Pedidos dos animais
"Se servimos para aplacar sua solidão
Se servimos para que te sintas importante quando voltas para casa
Se servimos para lamber tuas lágrimas quando estás triste
Se servimos para que não caminhes sozinho nos finais de tarde
Se servimos para te proteger da violência dos teus semelhantes
Se servimos para proteger teus filhos quando não estás por perto
Se servimos para que teu coração não seja o único a bater dentro de tua casa
Se servimos para alegrar teu silêncio com nossa voz
Se servimos para que tua mão afague um pêlo macio
Se servimos para que teus olhos se encham com a beleza de nossas plumagens
Se servimos para chorar tua morte quando ninguém mais lamenta tua partida
Então não nos maltrate
Não desconte tuas tristezas e frustrações em nossos corpos frágeis
Não nos abandone à própria sorte
Não se afaste tanto a ponto de não conseguirmos te encontrar
Respeite nossos sentimentos, pois todos nós chamados "irracionais" temos sentimentos
Basta olhares bem dentro de nossos olhos para veres o quanto é verdade que temos alma
Se servimos para que te sintas importante quando voltas para casa
Se servimos para lamber tuas lágrimas quando estás triste
Se servimos para que não caminhes sozinho nos finais de tarde
Se servimos para te proteger da violência dos teus semelhantes
Se servimos para proteger teus filhos quando não estás por perto
Se servimos para que teu coração não seja o único a bater dentro de tua casa
Se servimos para que te divirtas brincando conosco
Se servimos para alegrar teu silêncio com nossa voz
Se servimos para que tua mão afague um pêlo macio
Se servimos para carregar alimentos e outras cargas em nossas costas
Se servimos para que teus olhos se encham com a beleza de nossas plumagens
Se servimos para chorar tua morte quando ninguém mais lamenta tua partida
Não desconte tuas tristezas e frustrações em nossos corpos frágeis
Não nos abandone à própria sorte
Não se afaste tanto a ponto de não conseguirmos te encontrar
Respeite nossos sentimentos, pois todos nós chamados "irracionais" temos sentimentos
Basta olhares bem dentro de nossos olhos para veres o quanto é verdade que temos alma
Cuide de mim e de meus filhos como cuido dos teus
Seja nosso amigo e te seremos eternamente gratos
E no dia em que partirmos, chore de saudades e não por arrependimento por ter nos maltratado
Somos um cão, um gato, um cavalo, uma ave...
Somos todos os animais do mundo e aqui estamos e vivemos pelas mãos de Deus"
Autor desconhecido
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Senhora minha mãe
Ouvi meu amigo Manoel Soares conversando com sua mãe.
— Sim, Senhora
— Não, Senhora
Aquilo me arrepiou. Não me emociono quando um filho chama sua mãe de mãezinha, mainha, mamãe.
Eu me comovo quando um filho chama sua mãe de Senhora.
Não importa que ele esteja apressado, paciente, psicótico, nervoso, aflito, carente: chamará de Senhora em qualquer hora.
Dirigir a palavra para mãe como Senhora pode sugerir distanciamento, formalidade, solenidade. Pode indicar uma relação de frieza e ausência de diálogo. Por que não o nome? Um apelido? Ou simplesmente mãe?
Não vejo assim. É mais do que respeito: é reverência. É mais do que intimidade: é cuidado.
Senhora é um “com licença” e “eu te amo” misturados. É segurar o braço para atravessar a rua e as palavras.
Senhora é uma demonstração de afeto, uma homenagem às lições do passado, prova que fomos bem educados.
Quem usa nunca levantará a voz para a mãe. Nunca vai desrespeitar os mais velhos. Só filhos muito chegados e próximos chamam a mãe de Senhora.
Preservam a influência maternal dentro de casa. Obedecem à sua opinião. Confiam nos seus conselhos.
Mãe que é senhora nunca termina abandonada num asilo.
Mãe que é senhora pede para falar e a família escuta com silêncio.
Senhora é dizer para a mãe que ela é muito importante. Que ela é insubstituível. Que ela nunca será dispensada.
Obrigado, senhora minha mãe.
Fabricio Carpinejar
Daqui
domingo, 25 de novembro de 2012
Em Marte
A Nasa está escondendo, mas a tal sonda-robô mandada a Marte já encontrou sinais de vida no planeta vermelho. Mais do que sinais de vida, encontrou um ser vivo. Mais do que um ser vivo, encontrou vários seres vivos, que, no momento, cercam o artefato que pousou entre eles de surpresa e tentam comunicar-se com ele. A Nasa tem censurado as fotos mandadas pelo robô em que aparecem os marcianos à sua volta e está tentando interpretar o que eles dizem, numa língua que parece o ídiche com mais consoantes.
Até agora os técnicos da Nasa conseguiram decifrar apenas alguns trechos do que os marcianos estão dizendo para o robô e comentando entre si. Já identificaram frases inteiras, como: “Alô, como é seu nome?”, “De onde você veio?” e “Quem vai pagar este estrago no meu quintal?”.
Os marcianos parecem amistosos, mas ficam cada vez mais impacientes com o laconismo do robô, que não responde nem a perguntas simples como “Você quer água?” ou “Tem fome?” ou “Precisa ir ao banheiro?”.
Os marcianos estão perto de concluir que o estranho em seu meio vem de um planeta em que ainda não desenvolveram a fala, o que dirá a boa educação. Comentam a aparência física do estranho.
– Rodas em vez de pernas. Interessante.
– Odiei a roupa.
– Como será que eles se reproduzem?
– Só você para pensar nisso...
– Curiosidade científica!
– Devem usar esta haste com uma bola na ponta.
– Não, isso é o olho.
– Vocês já notaram que até agora ele não piscou?
– Deve estar aterrorizado. Não sabe onde veio cair.
– Vamos fazer uma demonstração de paz, para ele sentir que está entre amigos. Atenção: abraço coletivo. Todo mundo. Iei!
– Cócegas não, que ele pode ficar irritado.
– Vocês viram só? Nenhuma reação.
– Ele parece uma máquina!
O consenso entre os marcianos é que o ser que caiu do céu vem daquele planeta azul que eles chamam de Schlops, que – isto é pura especulação dos tradutores da Nasa – também é a palavra deles para “titica”. Os marcianos nunca tiveram muito interesse em conhecer melhor o planeta azul e agora, depois da experiência ruim com aquele seu antipático representante, têm menos interesse ainda. Não querem nem imaginar como são seus semelhantes.
Decidem levar o visitante para um hospital, para ele se recuperar do choque, se alimentar e, se possível, começar a se comportar com um pouco mais de civilidade. Só quem protesta é o dono do terreno onde o estranho pousou.
– Quero ver quem vai pagar os estragos no meu quintal!
Luis Fernando Verissimo
Zero Hora 26/08/2012
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
A bomba atômica
A atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz! Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do hélium
E odor de rádium fatal
Loelia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.
Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum ,jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte de mais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!
( Vinícius de Moraes )
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
O tempo
Com o tempo, você vai percebendo que
você precisa, em primeiro lugar,
não precisar dela.
Percebe também
que aquela pessoa que você ama
(ou acha que ama) e que não quer
nada com você, definitivamente, não é o
homem ou a mulher da sua vida.
Você aprende a gostar de você,
a cuidar de você e, principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas .....
É cuidar do jardim
para que elas venham até você.
No final das contas,
você vai achar não quem você estava procurando,
mas quem estava procurando por você!
Mário Quintana
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Sem medo de amadurecer
Estará chegando em breve às livrarias a nova obra do filósofo argentino Sergio Sinay, cujo título é A Sociedade que Não Quer Crescer. Tema bastante atual e que merece atenção. Não há alarmismo em afirmar que viramos uma sociedade de adolescentes vitalícios, todos preocupados em manter a juventude até os 80 anos.
Uma coisa é praticar esportes e exercícios físicos, proteger a pele, se alimentar bem, manter cuidados para garantir a saúde, investir em lazer. Outra bem diferente é se comportar de forma irresponsável, não assumir autoridade, não dar um rumo à própria vida, viver encostado nos parentes. Há quem considere mais cômodo ser criança para sempre.
De fato, é. Temos por aí uma quantidade absurda de crianções e criançonas de 40 anos, de 50 anos, até mais. O que esperar de seus descendentes?
Não é fácil lidar com desejos, fazer escolhas, sustentar decisões. Nos momentos de aperto, gostaríamos de não precisar enfrentar coisa alguma e chamar um “adulto” para resolver as questões sérias em nosso lugar. Porém, não temos mais cinco anos. Nem 15. Não há mais justificativa para desrespeitar as leis, dirigir de forma inconsequente, se embebedar, fugir aos compromissos. Essa rebeldia juvenil até possui um certo romantismo, é a porção James Dean de cada um. Só que o ator não viveu o suficiente para virar um homem, mas você, sim.
Amadurecer é respeitar os ciclos da vida e deixar a adolescência para trás a fim de assumir seu lugar no mundo. O que não significa virar um adulto chato e prepotente. É permitido divertir-se na maturidade. Muito, inclusive. Adultos curtem a vida mais do que a garotada justamente porque não estão mais testando limites, já viraram essa página. O que fragiliza a sociedade são pessoas que, uma vez crescidas em estatura, não cresceram emocionalmente.
Um adulto de verdade é aquele que não age em busca de uma recompensa – ele faz o que tem que fazer porque é o certo. Pra chegar a esse encontro saudável com o dever moral, é preciso que ele tenha consciência de quem é, de tudo o que viveu, de como suas experiências o moldaram, e adote uma atitude firme diante de seus filhos, de seus pares, da sociedade toda. Se considerar que isso significa “envelhecer”, que pena: seguirá sendo um garoto mimado, uma garota bobinha, sem brio para herdar o bastão de seus pais e sem consistência para passar o bastão adiante.
Pessoas maduras também têm incertezas, vacilam, fraquejam. Porém sabem a hora de cortar o laço com suas carências infantis e de interagir com o mundo a fim de torná-lo melhor, mais digno. São agentes de transformação, e não de estagnação. Quando se tornarem idosos, poderão olhar pra trás com a consciência de ter dado um sentido à sua vida, em vez de terem percorrido anos e anos inúteis, acreditando que poderiam ser jovens para sempre só pelo fato de andarem com a aba do boné virada pra trás.
Martha Medeiros
Zero Hora 28/10/2012
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