segunda-feira, 28 de maio de 2012

Acreditar


Só há uma forma de se estar perto
quando se está muito longe:
se fecha os olhos, bem forte,
e pensa e deseja muito, muito, muito
estar juntinho de quem ama.

Porque no amor tem dessas coisas
a gente só não pode abrir os olhos
a gente só não pode deixar de acreditar .

Cáh Morandi

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

Carlos Drummond de Andrade





sábado, 19 de maio de 2012

O contrário do amor



O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.



O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.


Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.


Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

Martha Medeiros

Negra

A negra para tudo


a negra para todos


a negra para capinar plantar


regar


colher carregar empilhar no paiol


ensacar

lavar passar remendar costurar cozinhar

rachar lenha

limpar a bunda dos nhozinhos

trepar.






A negra para tudo

nada que não seja tudo tudo tudo

até o minuto de

(único trabalho para seu proveito exclusivo)

morrer.



Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Felicidade


Seremos todos infelizes
enquanto não descobrirmos
que a nossa felicidade depende
da dos demais.



Pe. Luiz Carlos

domingo, 13 de maio de 2012

Pedrinhas


Reter na mente coisas desagradáveis é como andar


com pedrinhas dentro do sapato:

enquanto você estiver caminhando pela estrada da vida,


elas o machucarão e o atormentarão.

Por que não jogar fora essas pedrinhas,

que estão no sapato da sua mente?

Masaharu Taniguchi

sábado, 12 de maio de 2012

Problemas


Os problemas nunca vão desaparecer,
mesmo na mais bela existência.

Problemas existem para serem resolvidos,
e não para perturbar-nos.

A maior represália contra um inimigo
é perdoá-lo.


Se o perdoamos,
ele morre como inimigo
e renasce a nossa paz.


O perdão nutre a tolerância e a sabedoria .


 Augusto Cury

quinta-feira, 10 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Deus triste

Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.

Deus não está diante de Deus.

Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus: eterna.


Deus criou triste.

Outra fonte não tem a tristeza do homem.


Carlos Drummond Andrade

















sábado, 5 de maio de 2012

Rouxinol

Guardava o rouxinol numa caixinha.
Tudo o que queria
era andar com o rouxinol
empoleirado no dedo.
Mas,
se abrisse a caixinha,
ah! certamente fugiria.
Então amorosamente cortou o dedo.
E,
através de uma mínima fresta,
o enfiou na caixinha."

Marina Colasanti

quarta-feira, 2 de maio de 2012




Não faço poemas como quem chora,


nem faço versos como quem morre.

Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira

quando muito moço; achava que tinha


os dias contados pela tísica


e até se acanhava de namorar.






Faço poemas como quem faz amor.


É a mesma luta suave e desvairada


enquanto a rosa orvalhada


se vai entreabrindo devagar.


A gente nem se dá conta, até acha bom,


o imenso trabalho que amor dá para fazer.






Perdão, amor não se faz.


Quando muito, se desfaz.


Fazer amor é um dizer


(a metáfora é falaz)


de quem pretende vestir


com roupa austera a beleza


do corpo da primavera.


O verbo exato é foder.


A palavra fica nua


para todo mundo ver


o corpo amante cantando


a glória do seu poder




Thiago de Mello

domingo, 29 de abril de 2012

Antepassado




Só te conheço de retrato,

não te conheço de verdade,

mas teu sangue bole em meu sangue

e sem saber te vivo em mim

e sem saber vou copiando

tuas imprevistas maneiras,

mais do que isso: teu fremente

modo de ser, enclausurado

entre ferros de conveniência

ou aranhóis de burguesia,

vou descobrindo o que me deste

sem saber que o davas, na líquida

transmissão de taras e dons,

vou te compreendendo, somente

de esmerilar em teu retrato

o que a pacatez de um retrato

ou o seu vago negativo,

nele implícito e reticente,

filtra de um homem; sua face

oculta de si mesmo; impulso

primitivo; paixão insone

e mais trevosas intenções

que jamais assumiram ato

nem mesmo sombra de palavra,

mas ficaram dentro de ti

cozinhadas em lenha surda.

Acabei descobrindo tudo

que teus papéis não confessaram

nem a memória de família

transmitiu como fato histórico

e agora te conheço mais

do que a mim próprio me conheço,

pois sou teu vaso e transcendência,

teu duende mal encarnado.

Refaço os gestos que o retrato

não pode ter, aqueles gestos

que ficaram em ti à espera

de tardia repetição,

e tão meus eles se tornaram,

tão aderentes ao meu ser

que suponho tu os copiaste

de mim antes que eu os fizesse,

e furtando-me a iniciativa,

meu ladrão, roubaste-me o espírito.

Carlos Drummond de Andrade



sábado, 21 de abril de 2012

Testamento

À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,


Deixo os meus brincos, lavrados


Em cristal, límpido e puro...


                       E àquela virgem esquecida


                      Rapariga sem ternura,

                     Sonhando algures uma lenda,


                     Deixo o meu vestido branco,


                    O meu vestido de noiva,


                    Todo tecido de renda...


Este meu rosário antigo


Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus


Das contas de outro sofrer,


São para os homens humildes,


Que nunca souberam ler.


                                Quanto aos meus poemas loucos,


                                Esses, que são de dor


                               Sincera e desordenada...


                               Esses, que são de esperança,


                               Desesperada mas firme,


                              Deixo-os a ti, meu amor...

                             Para que, na paz da hora,

                             Em que a minha alma venha


                            Beijar de longe os teus olhos,

                            Vás por essa noite fora...


                           Com passos feitos de lua,


                            Oferecê-los às crianças


                            Que encontrares em cada rua...




Alda Lara

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem é quem

Posso dizer: estou pronto


para me dar ao que vier.

Posso errar, mas não por medo


de me ser no que fizer.


Quem me pode responder


que sabe ser, sendo inteiro


fiel e simples, sendo a tudo


que faz e não quer fazer?




Thiago de Mello

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para os que virão


Como sei pouco, e sou pouco,


faço o pouco que me cabe


me dando inteiro.


Sabendo que não vou ver


o homem que quero ser.


                                                Já sofri o suficiente


                                                para não enganar a ninguém:


                                               principalmente aos que sofrem


                                              na própria vida, a garra


                                             da opressão, e nem sabem.



Não tenho o sol escondido


no meu bolso de palavras.

Sou simplesmente um homem


para quem já a primeira


e desolada pessoa


do singular - foi deixando,


devagar, sofridamente


de ser, para transformar-se


- muito mais sofridamente -


na primeira e profunda pessoa


do plural.


                                                 Não importa que doa: é tempo


                                                de avançar de mão dada


                                               com quem vai no mesmo rumo,


                                              mesmo que longe ainda esteja


                                             de aprender a conjugar


                                             o verbo amar.






É tempo sobretudo


de deixar de ser apenas

a solitária vanguarda

de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.

( Dura no peito, arde a límpida

verdade dos nossos erros. )

Se trata de abrir o rumo.



                                              Os que virão, serão povo,

                                             e saber serão, lutando.


Thiago de Mello

domingo, 15 de abril de 2012

Aula de Português

A linguagem

na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.


Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.


Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.


O português são dois; o outro, mistério.




Carlos Drummond Andrade




quarta-feira, 4 de abril de 2012

Medo





Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.


Medo de dormir à noite.

Medo de não dormir.

Medo de que o passado desperte.


Medo de que o presente alce voo.


Medo do telefone que toca no silêncio da noite.


Medo de tempestades elétricas.


Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!


Medo de cães que supostamente não mordem.


Medo da ansiedade!


Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.


Medo de ficar sem dinheiro.


Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.


Medo de perfis psicológicos.


Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.


Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.


Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta  culpado.


Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice,  e na minha.

Medo da confusão.

Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.

Medo de acordar e ver que você partiu.

Medo de não amar e medo de não amar o bastante.

Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.

Medo da morte.

Medo de viver demais.

Medo da morte.


Já disse isso.




Raymond Carver



Tradução: Cide Piquet





sábado, 31 de março de 2012

Ronda



O toque do sino
o latido do cão
o ruído de passos.
É tudo tempo pretérito
que conjugaremos até a morte?
Que noite é essa
que amanhã reconheceremos?
Que corpo é esse
que não é o nosso?
Em que pensamos nessa madrugada
de sombras que se arrastam até o futuro
onde logo mais estaremos e não estaremos?
Quem somos nós aqui
que já não recordamos?
Que tempo passa e não passa
ó almas que não dormem nunca?


Lenilde Freitas

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sábios




Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros,
uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros.






Augusto Cury

terça-feira, 20 de março de 2012

Canção a caminho do céu




Foram montanhas? foram mares?
foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!



As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.



Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.



Cecília Meireles