sexta-feira, 11 de junho de 2010

A bela adormecida



Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.


No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico, como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.

O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.

Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?


Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.


Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.


Adelia Prado

3 comentários:

  1. Adélia Prado!!! Uma bela escolha. Gostei muito dessa passagem: "se você olha o céu,//aquelas frutinhas travosas,//aquela estrelinha nova,//sabe que nada mudou." Deus é muito lindo!
    Bjsssssss

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  2. Que maravilha!!!Adélia nos diz de uma forma tão singular e perfeita!!!Só alguém tão sensível quanto ela pra nos presentear dessa forma com essa simplicidade tão elegante e profunda!

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  3. Lindo seu texto, o recebo como se fosse escrito por vc.

    Silvinha vc pode namorar o mundo, pois linda como é, esta simpatia e doçura, só podem encantar a quem vc encontrar.

    Seja muito feliz menininha, vc é muito querida, bjs do ZC

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