sábado, 15 de setembro de 2012

Posso ter defeitos


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá a falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um “não”.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Força


Minha força está na solidão.

Não tenho medo nem de chuvas tempestivas

nem de grandes ventanias soltas,

 pois eu também sou o escuro da noite.

Clarice Lispector

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ricordanza della mia gioventù



Eu sou do tempo dos refrigerantes Grapete, Marabá e Crush.
Eu sou do tempo dos chapéus Sarkil, Prada e Ramenzoni, do Anil Reckitt, dos urinóis Rosário.

Sou do tempo dos cigarros Aspásia, Liberty Ovais, Hudson com Ponteira, Belmonte, Tufuma, Phriné, Negritos, Lincoln e Astória.

E das cigarrilhas Talvis.
Sou do tempo da bala quebraqueixo e da rapadura-puxa.

Sou do tempo do Melado Patrulhense, da bolinha de inhaque e da bolinha aça, do bilboquê, do bambolê, da Bandeira do Divino e do realejo que enchia de alegria as ruas da minha infância: “ Naquele bairro afastado/ onde em criança eu vivia/ a remoer melodias/ de uma ternura sem par/ passava todas as tardes/ um realejo tristonho/ passava como num sonho/ um realejo a tocar”.

Eu sou do tempo do fumo em corda, da banha em tabletes de um quilo, sou do tempo do querosene vendido no armazém.

Sou do tempo da calça de tussor, do corte inglês, da camisa voltaao-mundo, do sapato de trissê e dos Tamancos Holandeses: “ Ho, holandesa boneca de tranças/ não tens compaixão/ o plac-plac dos teus tamanquinhos/ machuca o meu coração”.

Sou do tempo da goiabada cascão, da calça Lee, das Pílulas de Vida do Doutor Ross, do Rhum Creosotado, da Emulsão de Scott, e do jingle no rádio: “ Roma ou Lisboa/ em Londres, Nova York ou Paris/ todos bebem Martini porque/ Martini é marca mundial/ Martini branco doce, Martini tinto/ Martini seco/ Que paladar sensacional”.

Sou do tempo do mogango com leite, da canjica ao molho de vinho ou de leite, da canjiquinha, sou do tempo do Saphrol, do Phimatosan, do radinho Spica, sou do tempo do Biotônico Fontoura, das balas com figurinhas difíceis, as Balas do Rádio, a figurinha difícil era o Cândido Norberto, com jingle: “ Artistas do rádio/ de quem se fala/ agora se encontram na bala/ a Bala do Rádio saborosa e sã/ que traz os artistas de quem eu sou fã”.

Sou do tempo da cinta-liga e do tempo em que vestido se chamava costume.

Sou do tempo do sabonete Lifebuoy, do xarope São João.

E sou do tempo da Pomada Minâncora.

Sou do tempo do Emplastro Poroso Sabiá e do Creme de Beleza Rugol.

Sou do tempo do óleo de rícino, do xarope Bromil, o amigo do peito, e do Regulador Xavier, o amigo de confiança da mulher.

Sou do tempo do colírio Moura Brasil.

Sou do tempo da limonada purgativa e do sal amargo.

Sou do tempo do Brylcreem e do Glostora, do Vinho Reconstituinte Silva Araújo.

Sou do tempo em que todos os telefones eram pretos e todas as geladeiras eram brancas.

Sou do tempo das polainas e das galochas.

Sou do tempo dos programas de rádio Grande Rodeio Coringa e Rádio Seqüência.

Eu sou do tempo em que não havia violência.

Os ladrões, como os batedores de carteira, agiam com carinho e delicadeza, nunca feriram ou mataram alguém.

Eu sou do tempo das serenatas, dos sonetos, dos acrósticos, das alianças de noivado, sou do tempo do namoro na sala com chá-depêra.

Enfim, eu estou deslocado porque eu sou do tempo do amor.


*texto publicado em 20/08/2008

Paulo SantAna
Zero Hora 07/06/2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Desejos

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu".


Carlos Drummond de Andrade.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Corpo interditado


Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos. Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos. Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha. Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram. Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la. O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.

Martha medeiros

Zero Hora 26/08/2012

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O constante diálogo





Há tantos diálogos

 

Diálogo com o ser amado

o semelhante

o diferente

o indiferente

o oposto

o adversário

o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio

Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.


Carlos Drummond de Andrade




terça-feira, 28 de agosto de 2012

É doce morrer no mar

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


A noite que ele não veio foi

Foi de tristeza pra mim

Saveiro voltou sozinho

Triste noite foi pra mim


É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


Saveiro partiu

de noite foi

Madrugada não voltou

O marinheiro bonito

sereia do mar levou


É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


Nas ondas verdes do mar meu bem

Ele se foi afogar

Fez sua cama de noivo no colo de Iemanjá


Dorival Caymmi e Jorge Amado





domingo, 19 de agosto de 2012

Strip-Tease


Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.



Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.


Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".


Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."


Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".

Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.



Martha Medeiros

sábado, 18 de agosto de 2012

Combate


Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.

Essa peleja é vã, essa luta no escuro

entre mim e seu nome.

Não me persegue Deus no dia claro.

Arma, à noite, emboscadas.

Enredo-me, debato-me, invectivo

e me liberto, escalavrado.

De manhã, à hora do café, sou eu quem desafia.

Volta-me as costas, sequer me escuta,

e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.

Deus golpeia à traição.

Também uso para com ele táticas covardes.

E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer

pela vitória equívoca.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Emergência






Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela.

...Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

Mario Quintana

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jorge Amado - Frases


O escritor baiano Jorge Amado estaria completando 100 anos hoje, 10 de agosto.

"Fiz da minha vida e da minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor"



"Um escritor enquanto vive ele escreve. Você não se aposenta. Enquanto não morre, está escrevendo..."


“Um escritor não pode desejar nada de maior e de melhor do que ser lido. Assim ele pode cumprir sua missão..."

"Não acredito que chegue um tempo em que a literatura seja relíquia do passado."


"A poesia não está nos versos, por vezes ela está no coração. E é tamanha. A ponto de não caber nas palavras."


"A mulher é igual ao homem. O feminino é a outra face do machismo"

terça-feira, 31 de julho de 2012

Árvore da vida

Enfeite a árvore de sua vida

com guirlandas de gratidão!


Coloque no coração

laços de cetim

rosa, amarelo,

azul, carmim.


Decore seu olhar

com luzes brilhantes

estenda as cores em seu semblante.


Em sua lista de presentes

em cada caixinha

embrulhe um pedacinho de amor,

carinho, ternura,

reconciliação, perdão!


Tem presente de montão

no estoque do nosso coração

E não custa um tostão!


A hora é agora!

Enfeite seu interior!

Seja diferente!

Seja reluzente!


Cora Coralina

domingo, 29 de julho de 2012

Resíduo



De tudo ficou um pouco

Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.




Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.




Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.




Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?




Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.


De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...


De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.


De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.




Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.


Às vezes um botão. Às vezes um rato.






Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Felicidade


“Felicidade não é um fim em si, e sim uma consequência do jeito que você leva a vida .
É o dia-a-dia de uma pessoa e a maneira alegre como ela reage às situações mais banais que definem seu nível de felicidade.
Ou, para resumir tudo: um jeito garantido de ser feliz é se preocupar menos em ser feliz.”



Bárbara Axt

terça-feira, 17 de julho de 2012

Afogando-se num pires


A vida não é bolinho, quem não sabe? Mas é impressionante a quantidade de pessoas que conseguem complicá-la ainda mais. Acreditam que só erros enormes geram consequências, sem perceber que as pequenas bobeadas é que desgastam. Nem se dão conta da quantidade de facilitações que poderiam aplicar no dia a dia, tornando a vida bem mais producente.

Exemplos, exemplos.
Ligar-se minimamente num troço chamado relógio, pra começar. Se você tem hora marcada para uma consulta, hora marcada para fazer uma prova, hora marcada para pegar um avião, qual é a dificuldade de planejar o tempo que vai levar até lá? Chega de colocar a culpa no trânsito. É claro que você pode prever se vai levar meia-hora ou 50 minutos para deslocar-se – o pior que pode acontecer é chegar antes, e aí nada como ter um livrinho à mão enquanto aguarda (já dizia Gabriel García Márquez: se cada um levasse um livro dentro da mochila, o mundo seria bem melhor).


“As pessoas se afogam num pires”, costuma sentenciar uma psicanalista amiga minha, confirmando que a maior parte das pessoas poderia simplificar suas vidas, mas são especialistas em se atrapalhar, e o pior: transformam essas pequenas atrapalhações em crises existenciais. Ó, nada dá certo pra mim.


Se alguém tem que ir até um endereço que não conhece, é tão fácil consultar o Google Maps antes de sair. No caso de gamar por uma blusa na vitrine, seria prudente saber se o saldo no banco comporta essa compra extra. Se a última garrafa d´água da casa foi aberta, não custa passar num mercadinho e renovar o estoque pra não ser surpreendida por uma sede absurda no meio da noite. Se vai ter um big festão na sexta, não convém chegar ao cabeleireiro sem hora marcada. Se ofendeu um amigo, melhor pedir desculpas antes que se transforme numa mágoa séria. Se o filho tem dificuldades na escola, não esperar o último mês do ano letivo para tomar providências. Planejou uma viagem ao exterior? Confira o prazo de validade do passaporte (não no dia do embarque, gênio). Se o seu santo não cruza com o de um fulano, para que sentar à mesma mesa que ele? Se agendou uma entrevista de emprego, confira antes se a camisa está limpa e passada. Marcou um compromisso para as 16h, não marque outro para as 17h no outro lado da cidade. Se está em guerra com a balança, ok, é difícil perder peso, mas continuar comendo uma caixa de Bis por noite não vai operar milagres. É claro que sua cunhada vai se chatear se você expor na sala as fotos do seu irmão com a ex-mulher dele. Pô.

Você deve ter lembrado de mais uns 200 exemplos da série “se posso complicar, por que facilitar?”. São essas pequenas besteirinhas do cotidiano que, mal administradas, fazem com que nosso dia seja mais encrencado que o dos demais, mas quem vai se dignar a planejar um dia satisfatório se a ordem é deixar rolar?

E lá vai você rolando para dentro do pires, se afogando numa pocinha de nada.

Martha Medeiros
Zero Hora 01/07/2012

domingo, 15 de julho de 2012

Frases

“Numa coisa os livros superam nossos amigos: dão-nos conselhos que os amigos nem sempre têm coragem de dar.”


Pe. Luiz Carlos

sábado, 14 de julho de 2012

As rosas não falam



Bate outra vezCom esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verãoECom a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltarPara mim


Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim




Cartola

quarta-feira, 11 de julho de 2012

AUTO-RETRATO COMO BOI

Eu boi.

Boi de mim mesmo.

Boi sonso.

Boi de canga.

Boi de carro.

Boi de ônibus.

Boi de arado.

Boi sangrado por ferrão.

Boi de carreto

Boi em prédio de vidro.

Boi com crachá

e carteira assinada.

Boi comprovado.

Boi indistinto

na boiada da cidade.

Boi tangido.

Boi bernento.

Boi de joelhos

sem um mugido

na escuridão.

No curral da insônia,

rumino palavras pastadas

na ribanceira dos dias.

Donizete Galvão
















































sexta-feira, 6 de julho de 2012

Frases

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne,
depois no nome."

Manuel Bandeira


Moinho




A mó da morte mói

o milho teu dourado

e deixa no farelo

um ai deteriorado.


Mói a mó, mói a morte

em seu moer parado

o que era trigo eterno

e nem sequer semeado.

 
Da morte a mó que mói

não mói todo o legado.

Fica, moendo a mó,

o vento do passado.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de julho de 2012

O câncer que levou seu amor

Meu amigo Antonio ficou viúvo. Sua esposa morreu de câncer de pâncreas. Algo devastador, que derrubou em poucos meses a companhia de temperamento forte, risonho e invencível.

Ele não contou com tempo para se preparar e se despedir. O luto veio como um susto. De repente, depois de 30 anos de casamento, ele se acordava sozinho e tomava café sozinho e conversava sozinho e se desesperava sozinho. Antes, até sofrer, sofria com ela.


Sua primeira atitude, assim que depositou seu coração na pedra do São Miguel e Almas, foi limpar a casa, tirar os objetos de Elisa de perto dos olhos. A casa restou pela metade, uma residência casada com móveis de solteiro. Pôs fora as roupas, os cabides carregados de ombreiras, recolheu os vasos e bibelôs, arregimentou perfumes e produtos de beleza, esvaziou as prateleiras. Não esperou doar para caridade. A dor é puro pânico, egoísta, precisa se libertar da palavra, não consegue ser generosa.


Empilhou caixas e caixas de pertences valiosos na frente do portão, para o lixeiro levar. Em segundos, despachou o que o casal acumulou numa vida inteira. Quando morre a figura de nosso amor, mas o amor não morre, não há o que escolher, tudo é lembrança sangrando de novo, somos crianças mexendo, a cada instante, em cascas de ferida.

Antonio circulava pelos aposentos como um fantasma. Já podia, porém, observar por onde andava. Não tinha que pagar mais pedágio ao tocar em qualquer objeto. A faxina o protegeu dos próprios atos falhos. Ajudava o esquecimento a esquecer.
O espaço dobrou de tamanho e intensidade: vazio, deserto, imenso. Sem nenhuma foto ou quadro na parede. Sem nenhum risco de contato com o passado conjugal.
Mas, ao mexer no armarinho do banheiro e buscar o barbeador, encontrou a escova de cabelos de Elisa no fundo da gaveta.
A escova estava repleta de cabelos da Elisa. Cabelos vivos de Elisa morta.
Ele odiava limpar a escova antes de se pentear, não considerava justo, já que era fruto do descuido dela.
Agora não. Ele começou a suspirar devagar para não chorar. O suspiro é o choro da boca.
Não aceitava que a escova tivesse sobrevivido a sua blitz. Odiou aquele acessório com todo amor e amou com todo ódio.
Nas cerdas da escova, brilhavam cabelos castanhos e longos que ele conhecia como ninguém.
Ele sentou-se no sofá e aproximou o nariz da escova, chegou a raspar a pele, para recuperar o perfume do pescoço de Elisa.
Só que predominava o cheiro de madeira do cabo mais do que o incenso de flor de sua memória.
Como um botânico aflito diante de espécie rara, tratou de tirar um por um os fios da escova.
E fez uma trança dos cabelos de sua mulher morta.
Amarrou a mecha com um laço preto e inspirou longamente sua fragrância. Nebulizou o rosto até reaver o gosto do beijo de Elisa. Nunca o último beijo.




Fabricio Carpinejar
Zero Hora 03/07/2012


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os outros

Quando eu era criança, nunca tive desejo de ter um carro.

Porque morava num lugar em que não passavam carros.
Lá distante, onde era a Avenida Aparício Borges, onde só minha vista alcançava, eu via que passavam os carros, mas não fazia a menor idéia de quem eram seus donos.
Eu só fui ter desejo de ter um carro quando identifiquei os donos dos carros e vi que eles eram diferentes de mim por eu não ter carro.
Foi a minha primeira comparação, o abismo que me levou a achar que os outros eram mais felizes do que eu.
O que quero dizer é o seguinte: se olharmos só para o que somos, temos mais chances de sermos felizes.

O diabo é que não é isso que acontece: vivemos nos espelhando nos outros, a nossa aflição consiste em tentarmos ter o que os outros têm, quando não termos mais do que os outros, sermos melhores ou iguais aos outros.
Em Cuba, por exemplo, onde todos são pobres, todos ganham pouco, ninguém se julga infeliz.
Os cubanos infelizes são aqueles que sabem que a poucos quilômetros da ilha existe Miami, os EUA, onde as condições de vida dos norteamericanos são infinitamente melhores que as dos cubanos.
Isso passa a ser insuportável, pois se instala neles a idéia de que suas vidas são muito piores que as dos seus vizinhos norte-americanos.


Em outras palavras, só pode ser feliz quem não acha os outros mais felizes.
Toda a encrenca humana reside em nos compararmos com nossos vizinhos, isto é, com os outros.
Sempre que acharmos que alguém é mais feliz do que nós, acabaremos sendo infelizes.
É muito difícil para os humanos encarar com naturalidade a felicidade dos outros, até mesmo porque aos nossos olhos invejosos os outros são mais felizes do que realmente o são.
O próprio Sartre disse que “ o inferno são os outros”.
O que quer dizer que nós teríamos muito mais chances de sermos felizes e realizados se olhássemos só para nós.


Por isso é que os livros sagrados dizem que ser rico não é possuir todas as riquezas, no nosso caso muito dinheiro, muitas propriedades, viajar para onde nos apetecer.
Ser rico, dizem os livros sagrados, é contentar-se com o que se tem.
Se há um segredo de felicidade é este: achar que é bastante o que se possui, sem olhar para o que possuem os outros.
Sei que estou dando uma receita quase impossível de seguir, mas também sei que é a única receita capaz de levar uma pessoa a ser feliz.


Pelo amor de Deus, isso não quer dizer que o homem não deva ambicionar, até mesmo porque a razão central do progresso dos homens e das nações é a ambição.
Mas a ambição deve ser uma meta, uma trilha a seguir, e não o despeito por ver que os outros têm mais do que nós.
Ou seja, a felicidade está apenas no que somos e no que desejamos ser, mas sem nos importarmos com o parâmetro alheio.
Assim, justo é que queiramos crescer porque vemos que há espaço para crescermos – e não porque entendemos que os outros estão mais crescidos.


Fôssemos ser infelizes porque possuímos menos do que os outros, teríamos que paralisar, cruzar os braços e nunca mais avançar quando constatássemos que outros possuem muito menos do que nós.


*texto publicado em 14/09/2008

Paulo SantAna
Zero Hora 18/06/2012