sexta-feira, 29 de julho de 2011

Frases



Ninguém



pode fazer



com que te sintas inferior



sem o teu consentimento.






Eleanor Roosevelt

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Faz de conta

Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: FAZ DE CONTA QUE EU TE ODEIO

Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: FAZ DE CONTA QUE EU TE AMO.

Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: FAZ DE CONTA QUE EU DOU CONTA DO RECADO.

Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO QUERO.

Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto:FAZ DE CONTA QUE EU ME IMPORTO.

Digo que perdoo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO SOFRO.

Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: FAZ DE CONTA QUE EU ENTENDO.

Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: FAZ DE CONTA QUE EU COZINHO.

Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: FAZ DE CONTA QUE NÃO DÓI.


Martha Medeiros

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigos



As pessoas entram em nossas vidas por acaso,



mas não é por acaso que elas permanecem.






Feliz Dia do Amigo

O ovo de galinha



O ovo revela o acabamento

a toda a mão que o acaricia,

daquelas coisas torneadas

num trabalho de toda a vida.


E que se encontra também noutras

que entretanto mão não fabrica:

nos corais, nos seixos rolados

e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra

de mil inacabáveis lixas

usadas por mãos escultoras

escondidas na água, na brisa.


No entretanto, o ovo, e apesar

da pura forma concluída,

não se situa no final:

está no ponto de partida.


João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ajuda




Quem tenta ajudar a borboleta
a sair do casulo a mata.

Quem tenta ajudar um broto
a sair da semente o destrói.

Há certas coisas que
não podem ser ajudadas.

Tem que acontecer
de dentro para fora.


Rubem Alves

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Máquina de escrever






Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.






Giuseppe Ghiaroni



sábado, 16 de julho de 2011

My God



Nada sei sobre a vidinha do
pernilongo que mato
indiferente na parede.
Mas desconfio que era
a única que ele tinha.




Ulisses Tavares

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Eu conto carneirinhos





Gosto de sonhar. Penso que os sonhos são passeios da alma. Sabe,quando queremos espairecer. Sair por aí. Distrair.

Só que os sonhos fazem viagens bem mais empolgantes. Viajam pelas lembranças, exploram o desconhecido, visitam até o que tememos e nos assustam com terríveis pesadelos. Mas são só pesadelos.

Revemos amigos, outros bem mais queridos e encontramos até gente nova. Sim!!! Acredito nisso. Sabe quando vemos alguém pela primeira vez e dizemos: "Eu não te conheço de algum lugar?" Sei lá, mas eu acho que é lá das voltinhas dos sonhos, que já o vimos antes.

Por isso é que gosto quando a noite chega. E espero ansiosa a hora de dormir, só pra saber a surpresa que terei. Que passeio farei, embalada em canções antigas de ninar. Quem sabe hajam caminhos de jujubas e rios de refrigerantes, laguinhos de chocolate com patinhos de bombom. Sei lá... As vezes a grande viajem é refugiar-se apenas no inimaginável.

Não sou mística ou qualquer outra coisa. Nem gosto de religião. Só quero compartilhar os meus humildes pensamentos. E convidar a sua alma a pôr o pé na estrada te lembrando o quanto é bom sonhar.

Adriana Kairos

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dance



Trabalhe como se não necessitasses de dinheiro,
ame como se nunca te houvessem ferido
e dance como se ninguém estivesse olhado.

Eça de Queiroz

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A fita métrica do amor



Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.




Martha Medeiros

sábado, 9 de julho de 2011

A rotina



A ideia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto

A rotina do espelho é o oposto
A rotina do jornal é o fato
A celebridade é a rotina do boato


A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta é rock
O coração é rotina da batida
A rotina do equilíbrio é a medida


O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança

Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza

Toda rotina tem sua beleza.


Arnaldo Antunes

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Viver



Há duas maneiras de viver a vida:


uma como se nada fosse um milagre


e outra como se tudo fosse um milagre.

Albert Einstein

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Dos nossos males



A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...






Mario Quintana

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Silêncio e palavra




A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos

Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.

Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.

Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)

Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.

E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta - humilde e pura - ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.



Thiago de Mello

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Casa arrumada

Imagem:bhg.com


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação
e uma boa entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico,



um cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…




Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso,
pelo abuso das refeições fartas,
que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.




Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.

E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.



Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…




Casa com vida é aquela em que a gente entra
e se sente bem-vinda.

A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma
pra ficar com a cara da gente.




Arrume a sua casa todos os dias…

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…




E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 18 de junho de 2011

Despedida



Quando a guerra não foi mais que um simples jogo
quando o medo fez mais cedo um outro escuro
e o futuro se fez logo ali, dobrando
eu vi, amiga: era tarde.

Quando o mundo foi além do meu quintal
quando a vida foi jornal e não história
e a memória fez a contramão do dia
eu vi, amiga: era tarde.

Quando o vento não me fez abrir os braços
ao abraço sideral de estar voando
e a pandorga me fugiu sem dizer quando
eu vi, amiga: era tarde.

Quando o guarda que dormia nos brinquedos
pôs o dedo no olhar da minha pressa
e quis ver o que a vida fez de mim
eu vi, amiga: era tarde.

Quando a noite foi algema no meu sono
e eu, de dono, fui escravo de um relógio
e no pulso pus dilema e cotidiano
eu vi, amiga: era tarde.

Quando o tempo foi julgado em outra lei
e a tristeza me beijou, tão natural
nas paredes, no vazio fundo da casa
eu vi, amiga: era tarde.
Muito tarde.

Jaime Vaz Brasil

sexta-feira, 17 de junho de 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O guarda-chuva vermelho



Eu tinha um guarda-chuva vermelho que andava comigo
noites sem fim. Eu não sabia que com o tempo o meu guarda-
-chuva vermelho começou a fazer parte de mim, do meu corpo,
da minha alma e sobretudo do meu coração que batia de vez
em quando, especialmente no início das noites. Quando eu
adormecia, comigo também adormecia meu guarda-chuva
vermelho, ali do meu lado, como minha extensão. Ontem à
noite saí com meu guarda-chuva vermelho dentro da chuva que
me lavava das sombras antigas. E aos poucos eu fui me desfazendo
de mim, escorrendo na calçada e me misturando na chuva que
que batia nos telhados das casas e nas igrejas. Assim, desapareci,
como se não tivesse existido, escorrendo de mim mesmo, sem
que meu guarda-chuva vermelho tivesse percebido.



Álvaro Alves de Faria

segunda-feira, 13 de junho de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Dia dos namorados




Se há uma atividade na qual sou um expert é o exercício da função de namorado. Não que eu namore muitas mulheres, ao contrário, minha sabedoria no assunto vem do fato de que namoro a mesma mulher há 25 anos.




E quando a gente se dedica com tanta determinação ao mesmo objetivo, acaba aprendendo muita coisa. Pode ser até que eu não entenda das outras, mas da minha namorada eu entendo. E aí é só generalizar. No fim das contas, fora o tom da voz e os hábitos de higiene, as mulheres são mais ou menos iguais. Sabendo mexer com uma, a gente sabe como as outras funcionam.




Já escrevi certa vez sobre isso e quase apanhei de algumas mais exaltadas. Só porque comentei que “elas tem 4 bilhões de neurônios a menos” e que “um negócio feito de uma costela” não poderia dar certo (“na minha terra, costela é pra fazer churrasco”). Foi aí que descobri que as mulheres quando ficam exaltadas perdem o senso de humor.




Se você está começando agora, saiu da fase de ficar com várias e, pela primeira vez, mergulha de cabeça nessa aventura fascinante que é namorar uma garota, fique atento aos mínimos detalhes. Elas precisam ser tratadas com carinho especial. E merecem.




Dizem que Deus, quando criou Adão, estava apenas ensaiando. A obra prima da natureza é a mulher. E eu concordo.




Você aos poucos vai confirmar isso. “A mulher é um organismo bastante complexo e sofisticado, de manutenção cara e difícil manuseio, mas com certeza não vai encontrar nada melhor em toda sua vida. É uma companhia agradável, simpática, bonita, divertida e ótima para a prática sexual”.




Na ocasião em que escrevi sobre as mulheres, aproveitei para dividir com meus leitores um segredo infalível. “Elas não são fáceis de controlar, mas existem alguns truques para conseguir o que se quer de uma mulher. Um deles é o popular buquê de flores. Não existe uma explicação lógica, mas já foi comprovado cientificamente que um punhado de flores quaisquer provoca uma reação hormonal em cadeia que altera o humor feminino. Para melhor”.




Todo ano, quando chega o dia dos namorados, você tem que deixar bem claro para sua amada que ela é a dona do seu coração. E tenha sempre em mente: toda mulher gosta de romance. Escreva um verso, ensaie uma declaração de amor, aprenda uma canção... Eu criei o hábito de começar cada dia 12 de junho cantando “se você quer ser minha namorada...”. Vem dando certo.




Ah sim, e não esqueça o buquê de flores.




Kledir Ramil

domingo, 5 de junho de 2011

O que a gente espera de um amor?



O que a gente espera de um amor? Tudo. Que sejamos apoiados em todas as nossas decisões, que o sexo seja nada menos que exuberante, que jamais escutemos um não, que o humor se mantenha sempre elevado, que adivinhem nossos pensamentos (e não adivinhem quando eles puderem causar mágoa), que haja disposição para aceitar todos os convites, que nunca cansemos do rosto, da voz, do jeito do outro, que os dias passem leves e que sejam sempre como foram os primeiros, que o tédio jamais bata à porta, que não haja mal-entendidos, que não se economize nos beijos, que a vida cumpra o prometido: ser uma festa constante.

O que a gente espera de um amor soa a delírio, e por isso a frustração logo se instala. Não há como realizar nem metade do que idealizamos, e muito menos o tempo inteiro. Deveríamos esperar apenas uma coisa do amor, do nosso amor: o que ele puder nos oferecer.

Ele não vai topar ir a um concerto de música clássica, pois acha chatíssimo, e você então vai sozinha, e, sem pensar em revanche, aceitará dele um convite para assistir a um show de hip-hop numa casa noturna em que você jurou jamais colocar os pés, e de repente vai adorar o programa que terminará às 4h da manhã, horário em que você normalmente já está quase se levantando da cama para iniciar o dia.

Seu amor não vai oferecer beijos a todo instante, mas um dia acordará você com pétalas de rosa pelo chão do quarto e você não achará cafona, e sim brindará, com suco de laranja e croissants quentinhos, o fato de ainda ser surpreendida na idade em que está.

Ele não vai curtir a vida ao ar livre como você queria, se negará a montar num cavalo ou caminhar por uma trilha, lhe parecerá urbano demais, mas em contrapartida oferecerá um copo de vinho, um cafuné prolongado, um silêncio apaziguador que até parecerá coisa do campo, mesmo vocês estando no sofá da sala num prédio de 15 andares em meio a uma capital caótica.

Ele não vai conseguir realizar seu sonho de cruzar os Estados Unidos de carro, mas vai oferecer a você um passeio de barco por aqui perto, você que odeia barcos — ou melhor, odiava. Ele não vai se vestir dentro dos padrões que você considera de bom gosto, mas vai impactá-la com uma originalidade à qual você não estava acostumada. Ele não vai dizer a frase certa na hora certa, e vai fazer você descobrir que não há frases erradas quando se fala com o coração. Ele não vai gostar do que você gosta, e você não vai gostar do que ele gosta, e a criatividade para descobrir prazeres em comum dará à relação um caráter insuspeitado.

De um jeito mais simples, é possível amar aceitando o que é possível receber, sem sofrer pelo que foi sonhado em vão. "O que a gente espera de um amor soa a delírio, e por isso a frustração logo se instala. Não há como realizar nem metade do que idealizamos, e muito menos o tempo inteiro."






Martha Medeiros

sábado, 4 de junho de 2011

Frases

Imagem: Gramado RS


Nós somos o que temos e o que sofremos .



Mario Quintana.

Não se devia permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais do que o ponteiro das horas.



Mario Quintana.

Os extrovertidos são julgados normais. Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. Mas para curá-los de quê? De não poderem ser chatos, como os outros?




Mario Quintana.


Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo.



Mario Quintana.


Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.



Mario Quintana.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

De volta ao parque




O adulto é um sujeito grande com outro pequeno por dentro. Nem precisa de arte para entender isto. Basta a ciência. Nela tem um conceito desenvolvido por Daniel Stern e diz assim: perto de um choro e de uma fralda, voltamos a eles; todo conceito nos puxa para trás. Complicou? Aí tem a arte para esclarecer: trago em mim todas as idades, escreveu o poeta Paulo Hecker Filho. Tudo se soma, nada se perde, somos também o que fomos.

No parque, por exemplo. Dia desses, fui com a minha filha. Primeiro a pipoca, e não se volta à toa ou para pouco. Pode pôr bastante leite condensado, moço. Se a infância tem gosto, é de leite condensado. Depois, um carrosselzinho para relaxar. Ir e vir são mesmo a cara da infância. Leite nas ventas, giramos até eu esquecer que, nos últimos tempos, andava apenas indo sob o ritmo assustador e sem volta. Sim, minha filha, também sei acariciar um cavalo. Tirá-lo do parado, fazê-lo voador, dragão, empunhar espada como São Jorge, combater inimigos como Dom Quixote. O cavalo parou, desci. Encontrei agora o meu melhor amigo. O inimigo espia no autochoque. Estou de olho nele, porque perto está a guria de quem mais gosto. Nunca escondi isto nos jogos da verdade. Deixei-a ganhar nos jogos da cadeira. Caído, fiquei de pé para ela.

Algodão-doce, minha filha. Só me deixa limpar a baba, fruto do leite e da guria. Vamos dividir? Quero espaço para um picolé. Vou lamber durante a pescaria, o prêmio há de ser bom, mas cada sorvete é um prêmio. Filha, olha como tudo é pequeno visto da roda-gigante. Se ela trancar, a gente grita. O som da infância é um grito enorme, querendo soltar-se.

Só falta o pirulito colorido. Aí está e nada deve ao arco-íris. Barca Viking? Os Vikings já existiam, mas não nesta barca. Claro que vou junto, filha, sou uma criança predisposta a tudo, olha o meu joelho, ele é tão esfolado quanto o teu. Na ponta? Sim, para comemorar que estamos no começo. Toda a vida pela frente, como escreveu Emile Ajar, que ainda não li, pois voltei a ser pequeno, e o Paulo Hecker não me alcançou o seu exemplar surrado.

Não é obra, filha, é a vida mesmo. Claro que vamos. Mas por que vai tão alto? Eu vou gritar, filha, por que desce tão rápido? Parece queda livre, eu quero sair, socorro, não tenho saúde para tanto, onde se escondeu a minha coragem? O meu cerebelo está gasto, você não sabe o que é cerebelo? Nunca ouviu falar em aparelho vestibular e ouvido interno? Para esta joça, moço, eu quero descer, eu preciso descer, não de pequeno e assustado, mas de grande e assustado, meu joelho já é inexoravelmente liso, e o gosto do leite condensado era mais memória do que agora, mentira feia, de gente grande, a verdade é pálida, sua e vomita.

Desculpa, filha, sou apenas teu pai crescido para sempre.

Celso Gutreind

quarta-feira, 1 de junho de 2011



O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.

Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.


Cora Coralina

O saber se aprende com os mestres.

A sabedoria, só com o corriqueiro da vida.


Cora Coralina

sábado, 28 de maio de 2011

Quando a gente vê



Quando a gente menos espera, desaparecem as duas últimas bolas de gude da gaveta.

Quando menos se espera, a gente não cabe mais no triciclo.

Quando a gente menos espera, ninguém mais convida para fogueira junina nenhuma.

Quando a gente menos espera, o carteiro deixa para sempre de vir.


Quando a gente menos espera, todas as calças que se usa perderam o friso.

Quando menos se espera, deixa-se de cogitar de usar sapatos de bico fino.

Quando menos se espera, os olhares dirigidos para nós não têm qualquer interesse.

Quando menos se espera, você constata que não anda mais tomando chá, almoçando ou jantando com ninguém.

Quando menos se espera, deixa-se de atender ao despertador por vários dias.

Quando a gente vê, não se tem mais força para puxar a rolha da garrafa de vinho.

Quando a gente vê, todas as outras pessoas estão se divertindo mais na vida do que nós.

Quando a gente vê, no nosso meio, todos estão sendo mais reconhecidos do que nós.

Quando a gente vê, deixa-se de não usar meias, depois deixa-se de usar meias, logo em seguida passa-se a usar meias de lãs.

Quando a gente vê, todos passam à nossa frente no trânsito e nós não passamos nunca à frente dos outros no trânsito.

Quando a gente vê, as multas de trânsito que nos chegam passaram a ser justas.

Quando a gente vê, começa a ser pervertido o primeiro sentido, a visão, em seguida a audição. Quando começa a perversão do paladar, então teme-se pelo tato e pelo olfato.

Quando a gente vê, primeiro escasseiam os amigos, depois os tempos de duração nos encontros com os que restaram.

Quando a gente vê, é quase campeão mas incrivelmente deixa escapar a vitória no final.

Quando a gente vê, tromba com o diagnóstico e fica torcendo só pelo prognóstico.
...
Paulo Sant'Ana
Zero Hora 17/05/2011

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Decisão




Deixei de falar
e pensar
não penso mais.

Deixei de escrever
também
deixei de ouvir.

Para mim
as palavras
morreram
definitivamente.

No entanto
conservo o olhar
e permaneço
diante do oceano
a me observar
partindo de mim
todos os dias
não sei exatamente
para onde.

Sempre que volto
trago pérolas
que devolvo
imediatamente ao mar.

Quando anoitece
adormeço
para a vida
e então
me deixo esquecer
sem respirar.

Álvaro Alves de Faria

terça-feira, 24 de maio de 2011

Poema alado



Soy feliz.
Quise escribir um verso
y describí un pájaro.
¿ Por qué soy feliz?
Porque voló, como todos los versos
y como todos los pájaros.

Susana Giraudo

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O sonho da borboleta



Nasceu a borboleta no lugar
Onde moldou em seda o seu casulo.
Esticou as belas asas e num pulo,
Banhada pelo Sol pôs-se a bailar.

Poisou no colorido de uma flor.
Bebeu néctar até que se fartou.
Ébria, enlouqueceu, então dançou
Espalhando p'lo jardim a sua cor.

Sonhou-se gente a linda mariposa.
Sentiu-se a dona dos prados floridos,
Dançarina dos gestos coloridos:
— Mais bela do que as flores! — pensou vaidosa.

Um pardal viu a cor a esvoaçar
E saltou, apanhando o alimento.
A dança acabou sem um lamento!
— Borboleta!... que é do teu sonhar?!...

Humberto Soares Santa

sábado, 21 de maio de 2011

Anel de lata serve de aliança



Uma moeda antiga, uma almofada de alfinetes, uma pulseirinha colorida.
A gente se prende a uma coisa pequena, insignificante para o mundo, especial para nós. Não há como esclarecer o sentido da devoção.
É algo que combina com a alma mais do que com o corpo, que gira nas mãos como uma chave do pensamento.

Na infância, guardava uma pena de ganso dentro do estojo. Ai se algum colega tirasse do lugar. Minha irmã Carla usava uma correntinha de coração. A bijuteria barata seguiu pelo seu pulso vida afora. Nunca trocou por nenhum brilhante.



Eu senti o apego durante um voo de volta a Porto Alegre. Estava com um terno cinza, retrô, escrevendo no caderninho e, de repente, a caneta estourou. Demorei a perceber sua ação. A ponta transformou-se num soro, pingava cada vez mais grosso. Uma mancha de petróleo se espalhou pelo mar de linho. Eu me desesperei, peguei os guardanapos e comprimi as áreas atingidas pela tinta. Pedi ajuda para a aeromoça, que me alcançou um pano com água quente.

Redundei a poça ao esfregar o tecido, pichei sem querer as próprias roupas. A aeromoça me aconselhou:
– Por que não põe a caneta no lixo?




Apesar da sujeirada que causou, segurava a esferográfica o tempo todo. Protegia aquela peça suicida, de veias abertas.

– Por que não põe a caneta no lixo? – a aeromoça agora levantava a cesta, quase me ordenando.

– É verdade – disse, mas não a descartei. Bateu uma impotência. Fiquei com compaixão da caneta, do que ela havia anotado comigo, de sua fidelidade à minha letra.

Abandonaria o objeto quando ele mais precisava de mim. As roupas sujas não me doíam, mas a caneta gritava, era um osso de meu dedo. Porque ninguém iria se importar com ela, a não ser eu.



Sempre foi dessa forma: a caneta explodia em meu bolso e ia socorrê-la, alheio ao estrago que produzia em mim. Poderia ser uma Mont Blanc ou uma Bic. Não é pelo preço, e sim pelo misterioso valor emocional.

Se já temos uma relação obcecada e incompreensível com um simples pertence, imagine a loucura que é o nosso gosto amoroso. Desisti de justificar a um amigo o que sinto por uma mulher. Amor é muito pessoal. Não se explica. Não requer motivo. Talvez aquilo que seja o inferno para os outros seja o éden para mim. Nem procuro mais disfarçar as manchas.

Fabricio Carpinejar
Zero Hora 17/05/2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

a rosa / Chico Buarque e Djavan




Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes troca meu nome
E some

E some nas altas madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela
Ói ela
Ói ela, vestida de verde e rosa

A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte, voltou toda sorridente

Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa
Abusa, me acusa
Revista os bolsos da calça

A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa
A gueixa
Que coisa mais amorosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes me chama Alberto
Alberto

Decerto sonhou com alguma novela
Penélope, espera por mim bordando
Suando, ficou de cama com febre
Que febre
A lebre, como é que ela é tão fogosa
A Rosa

A Rosa jurou seu amor eterno
Meu terno ficou na tinturaria
Um dia me trouxe uma roupa justa
Me gusta, me gusta
Cismou de dançar um tango

Meu rango sumiu lá da geladeira
Caseira, seu molho é uma maravilha
Que filha, visita a família em Sampa
Às pampa, às pampa
Voltou toda descascada

A fada, acaba com a minha lira
A gira, esgota a minha laringe
Esfinge, devora a minha pessoa
À toa, a boa
Que coisa mais saborosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia?
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa

Chico Buarque