quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Passarinho



Canta, canta, passarinho,
na roseira do caminho,
na roseira em que te vi...
Canta, canta no teu ninho
- passarinho, passarinho,
canta alegre: “ti-tiu-í.


Dorme, dorme, passarinho,
no teu berço bom de arminho,
passarinho que sorri...


Dorme enquanto com carinho
- passarinho, passarinho,
tua Mãe vela por ti...
Cecília Meireles.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Superstição



Eu não sou supersticioso, mas por via das dúvidas não passo debaixo de escada. A desculpa de sempre é que estou sendo prudente, para evitar que caia uma lata de tinta na minha cabeça. Outro dia, um gato preto cruzou na minha frente. Saí correndo feito um louco, dei meia volta no gato e descruzei o nó. Vai saber. Não dá pra dar sorte ao azar.

Essas bobagens são crendices populares que não atingem um sujeito racional como eu, com curso superior completo e capacidade de reflexão. Mas, como diz o ditado, “no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

Tem muito jogador de futebol que só entra em campo com o pé direito e fazendo o sinal da cruz. Mais por hábito do que qualquer outra coisa, me acostumei a começar meu dia assim, saindo da cama como se estivesse pisando no gramado. Virou um costume. Aí, aconteceu que um certo dia levantei com o pé esquerdo e o Internacional perdeu um jogo decisivo. Talvez tenha sido só uma coincidência, mas me senti culpado.

Meu irmão me deu um trevo de quatro folhas. Dizem que dá sorte. Não consigo entender porque uma aberração da natureza poderia dar sorte. Pra não ser mal educado, guardei o presente no meio do livro da Martha Medeiros que estou lendo. Minha vida não teve maiores alterações, mas notei que o livro pulou para as primeiras posições na lista dos mais vendidos. Aproveitei e coloquei a plantinha, com toda sua força sobrenatural, dentro da minha carteira de dinheiro. Tenho grandes expectativas de que a mágica funcione e, no futuro, eu possa até mesmo entrar para o mercado financeiro. Minha mão já começou a coçar.

Entusiasmado com uma possível maré de boa sorte, comprei uma ferradura e um chaveiro de pé de coelho. São amuletos que trazem saúde, paz e felicidade, além de dinheiro, que não é tão importante quanto uma vida saudável, mas é quem paga a fatura do seguro saúde. E, com certeza, vai melhorar o meu ranking de investimentos no mercado financeiro.

Mesmo que você não leve a sério essas coisas, não custa nada tomar cuidado. Aí vão algumas dicas. Não abrir guarda chuva dentro de casa, nem deixar sapato virado de boca pra baixo. Espelho quebrado, 7 anos de azar. Sexta feira 13, é melhor nem sair na rua. Tem certos dias em que os astros estão de mau humor. Não me pergunte porque.

Eu, sinceramente, não acredito em nada disso. Apenas respeito e, por via das dúvidas, bato na madeira três vezes pra garantir a proteção. Não dá pra brincar com essas coisas.

Kledir Ramil

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ricardo Macchi em seu melhor papel



A escalação de artistas em propaganda de TV é um recurso eficiente e legítimo, ainda mais quando bem utilizada, o que acontece quase sempre. Mas vez que outra eles pagam mico. Lembro que há muitos anos escrevi uma crônica chamada “Cachê vexame”. Faz tanto tempo, que nem a tenho mais em arquivo. Na época, ainda trabalhava com publicidade e citei casos de atrizes que andavam expondo sua vida íntima, como quando Gloria Pires confidenciou que o marido tinha caspa e Suzana Vieira revelou que usava dentadura. Não devia ser verdade e, se fosse, não seria demérito, mas elas poderiam ter evitado algumas piadas. E não acreditei quando vi outro dia a linda e talentosa Camila Pitanga dizendo que jamais seria escalada para grandes papéis se não tivesse trocado de desodorante.

No entanto, há uma nova tendência na utilização de artistas que pode parecer vexatória, mas não é. Mês passado entrou no ar um comercial de seguradora de veículos em que um ladrão desiste de roubar o carro ao perceber que Byafra está no banco de trás, com um microfone na mão, pronto para cantar. O ladrão põe as mãos nos ouvidos e se manda. E a propaganda do momento é o ator Ricardo Macchi, com seu 1m90cm, dizendo para a câmera o mesmo texto que o baixinho Dustin Hoffman, numa comparação cênica evidentemente desigual. O produto é um carro compacto, cujo slogan é “Não basta ser grande para ser bom” ou algo assim.

Byafra e Ricardo Macchi estariam passando vergonha? Duvido. Não conheço nenhum dos dois e pode ser que tenham aceitado a empreitada por questões financeiras e para voltar à mídia, já que andavam desaparecidos, mas há outros dois componentes a serem levados em consideração, e o bom humor é um deles. Óbvio que ambos estavam conscientes de que seriam satirizados, mas levaram fé no espírito de galhofa do brasileiro e apostaram que sairiam com a imagem inabalada. Ou abalada para melhor: em geral, aplaudimos quem não se leva tão a sério. Esse bom humor não é exigido apenas dos outsiders da fama: há pouco tempo, os galãs Reynaldo Gianecchini, Vladimir Brichta e Marcio Garcia toparam ser esnobados por uma estranha em prol de uma marca de margarina.

O outro componente é o da vaidade controlada. Não sei se Byafra e Ricardo Macchi são tão pavões, a ponto de não recusarem uma oferta de aparecer na TV, seja da forma que for, mas acredito que a vaidade deles seja do tipo normal, sem megalomania: eles não brigam contra a imagem pública que possuem, logo, não se estressam. O que importa é quem eles são por trás das câmeras, sujeitos provavelmente de bem com a vida.

Esse é o papel de Macchi no momento: mostrar que sua grandeza não está no seu 1m90cm, mas no desprendimento em saber brincar.


Martha Medeiros
Zero Hora 07/09/2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Loucura



Muita loucura é sabedoria divina
Para um olho inteligente.
Muita sabedoria, pura loucura.
Mas, como sempre,
A maioria domina:
Se você concorda, é boa gente.
Se nega, um perigoso sem cura.
Melhor prender com corrente.

Emily Dickinson

sábado, 10 de setembro de 2011

Outra face da mesma pessoa



Uma das mais preciosas lições que temos nos vem da Antiguidade: “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

O que muito noto na vida é que as pessoas não são o que parecem.

Se eu tivesse de escrever um conto a respeito, inventaria um personagem humano que onde quer que fosse carregaria como sua sombra um leão.

Todos elogiavam aquela mulher como dona de muitos atributos, qualidades e virtudes. E o marido daquela mulher replicava a todos eles: “Vão viver com ela e vocês deixarão de ter essa impressão”.

Ser é uma coisa, parecer é outra bem diferente. Por exemplo, na minha rua, quando de minha infância, havia um homem que passava pelos diversos bares do bairro sem nunca entrar em nenhum deles para tomar um trago.

Todos achavam que se tratava de um homem de hábitos puros, sensato, cumpridor de seus deveres e ótimo chefe de família.

Foi se saber com o tempo que aquele homem, no recôndito de seu lar, era um alcoolista inveterado e que em meio a seus porres espancava largamente sua mulher e seus filhos.




Um homem aparentemente inofensivo, amável, atencioso pode na sua intimidade tornar-se um ser agressivo e intolerante.

As aparências enganam. O próprio chato é uma criatura que inicialmente se apresenta como alguém simpático e logo em seguida fica difícil de aturar.

Conheci, certa vez, um torturador que mostrava unhas feitas, tinha modos gentis e se dirigia a todos na rua com muita delicadeza. E, à noite, tomava conta de seu calabouço e despedaçava sua vítimas indefesas.

Isso tudo acontece porque as pessoas cuidam muito bem de sua aparência. E muitas delas tem um outro zelo mais profundo a respeito: tratam de moldar a sua aparência com tintas exatamente antípodas às de sua verdadeira personalidade.

Um homem que parece ser bom pode ser mau. E um que aparenta bondade pode ser munido de extrema crueldade.

Por isso é que muitas vezes dizemos a alguém: “Ué, não estou te conhecendo. Tu não me parecias ser assim. O que está havendo contigo?”.

É que parece que desconhecemos que um ser humano pode ter diversas faces: Hitler era pintor, Nero foi cantor e ator.

Tenhamos, pois, sempre em mente que o que é pode não parecer e o que parece pode não ser.

Um dos exemplos mais elucidativos dessa questão foi que notei que, sempre que saía nos jornais a notícia de que um pitbull ou um rottweiler estraçalhavam uma pessoa, o dono do animal, toda as vezes, declarava: “Não posso entender, ele era tão mansinho”.


Paulo Sant'Ana
Zero Hora 08/09/2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Faróis




Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite, no convés, que conseqüências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar ...
Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
A vida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande.
Faróis distantes ...

Álvaro de Campos
(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

As uvas e o vento



...Tu perguntas o que a lagosta tece

Lá embaixo...
Com seus pés dourados.
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera,
em sua veste transparente?
Está esperando pelo
tempo, como tu.
Quem as algas apertam
Em seu abraço... perguntas...
Mais firme que uma hora e
Um mar certos? Eu sei.
Perguntas sobre a mesa
Branca do narval...
E eu respondo cantando como
Unicórnio do mar, arpoado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei
Pescador...
Que vibrou nas puras
Primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano
Sabe isto: que a vida...
Em seus estojos de jóias,
É infinita como areia,
Incontável, pura; e o tempo,
Entre as uvas cor-de-sangue...
Tornou a pedra dura e lisa,
Encheu a água-viva de luz...
Desfez o seu nó, soltou
Seus fios musicais...
De uma cornucópia feia
De infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos
Olhos humanos na escuridão...
E de dedos habituados à longitude
Do tímido globo de uma laranja.
Caminho, como tu, investigando
A estrela sem fim...
E em minha rede, durante
A noite, acordo nu.
A única coisa capturada
É um peixe...
Preso dentro do vento
Investigando a estrela sem fim...

Pablo Neruda

domingo, 4 de setembro de 2011

O amor morreu?



Alguns dizem que sim, que o amor morreu e quem o matou foi a emancipação feminina. Os sociólogos, entretanto, afirmam que o amor ficou mortalmente ferido durante a Primeira Guerra Mundial e acabou por ser morto na Segunda Grande Guerra. Acham eles que as estruturas essencialmente masculinas foram terrivelmente abaladas por essas duas grandes guerras.

A mulher deu vazão à sua ansia de liberdade e caminhou para a frente sem se deixar deter pelo jugo masculino. Os preconceitos abatidos pelo pensamento moderno impeliram-na a matar a sua sede de vida asfixiada durante seculos, pelo gineceu.

Não se trata de vingança, - dizem as mulheres - mas de desforra. Não somos inferiores, nem menos capazes, nem menos limitadas. Sempre fomos iguais aos homens e, para dizer a verdade, superiores, até. Eles é que não queriam como ainda não querem aceitar essa igualdade ou superioridade, por medo e comodismo.

A mulher de hoje é independente, não pede licença a ninguem para viver sua vida. Nem à familia, nem à sociedade, nem ao homem. Elas apenas vivem dentro dos limites da sua propria consciencia.

Mas isso não quer dizer que o amor morreu. Apenas não adianta salvar mais o romantismo. Aos poucos êle se esvai e um sentimento mais racional, mais realista e frio substitui o velho amor.

Há os que procuram salvar dos escombros uma restea dos antigos romances onde o toque indelevel dos namoros com calafrios e suspiros era necessario para a realização do verdadeiro amor.

Hoje já não são mais necessarias as faiscas da imaginação para um entendimento de alma. O temor da solidão e do futuro é uma realidade, o mesmo que persegue como sombra de morte os jovens da era atomica.

As mulheres - dizem os homens - jovens ou não, são frias nas relações sentimentais e não se interessam mais do que o necessario pelo que se chama cultura de massa.

Lenita Miranda de Figueiredo

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

No fim



No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Álvaro de Campos
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dez coisas na frente do nenê




Um nenê de 10 meses de idade é assim: você o coloca sentadinho em frente a um balcão e, nesse balcão, espalha:

1. O mordedor de plástico que fica cheio de água gelada e que ele adora morder com seus dois únicos dentinhos que lhe cresceram na parte de baixo da boca e que fazem com que ele fique babando o tempo todo.

2. Bolacha Maria, a sua bolacha preferida e que não engasga.

3. A revista Superinteressante do pai, no caso o degas aqui, revista essa que é só o nenê pôr os olhos nela para agarrá-la e rasgar suas páginas e dilacerá-las e empapá-las de baba e amassá-la toda.

4. Uma mamadeira bem cheia de leite quentinho e delicioso e apetitoso.

5. O telefone celular de brinquedo que, quando o nenê aperta suas teclas, toca uma musiquinha que parece a do lacre azul do cachorrinho dos caminhões de gás, e o nenê vive apertando aquelas teclas, e aperta, e aperta sem parar, irritando seu torturado pai.

6. Um prato de feijão com massa ou de cáqui esmagado ou banana sem semente amassadinha com mamão, iguarias pelas quais ele suspira logo que as avista.

7. A bola de borracha que ele vive atirando nas coisas, fazendo supor que, no futuro, será um jogador profissional de nilcon.

8. O cachorrinho de pelúcia movido a pilha que anda e late e do qual o nenê tinha certo medo no início, mas no qual agora ele aprecia dar porrada, como se fosse para mostrar quem manda.

9. O paninho.

10. Uma faca.

Coloque tudo isso diante do nenê. O que ele vai pegar? Hm?

A resposta é:

A faca.

Sempre a faca.

Por que os nenês são assim???





David Coimbra




segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Poema




Ditoso seja aquele que somente
se queixa de amorosas esquivanças;
pois por elas não perde as esperanças
de poder n'algum tempo ser contente.





Ditoso seja quem, estando ausente,
não sente mais que a pena das lembranças;
porqu', inda que se tema de mudanças,
menos se teme a dor quando se sente.





Ditoso seja, enfim, qualquer estado
onde enganos, desprezos e isenção
trazem o coração atormentado.





Mas triste quem se sente magoado
d'erros em que não pode haver perdão,
sem ficar n'alma a mágoa do pecado.








Luis Vaz de Camões

domingo, 28 de agosto de 2011

XXX



Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.



Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.




E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;




E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Olavo Bilac

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Juízo anatômico da Bahia



Que falta nesta cidade?-Verdade.
Que mais por sua desonra? -Honra.
Falta mais que se lhe ponha? -Vergonha.
demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.




Quem a pôs neste socrócio? -Negócio.
Quem causa tal perdição? -Ambição.
E o maior desta loucura? -Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.




Quais são seus doces objetos? -Pretos.
Tem outros bens mais maciços? -Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? -Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.




Quem faz os círios mesquinhos? -Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? -Guardas.
Quem as tem nos aposentos? -Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.




E que justiça a resguarda? -Bastarda.
É grátis distribuída?- Vendida.
Que tem, que a todos assusta? - Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.




Que vai pela cleresia? -Simonia.
E pelos membros da Igreja? -Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha? -Unha.
Sazonada caramunha
Enfim, que na Santa Sé
que mais se pratica é
Simonia, inveja, unha.




E nos Frades há manqueiras? - Freiras.
Em que ocupam os serões? -Sermões.
Não se ocupam em disputas? - Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluís, na verdade,
Que as lidas todas de um Frade
São freiras, sermões, e putas.




O acúcar já se acabou? -Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? -Subiu.
Logo já convalesceu? -Morreu.
A Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.




A Câmara não acode? -Não pode.
Pois não tem todo o poder? -Não quer.
que o governo a convence? -Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.






Gregório de Matos

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Elegiazinha






Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.




Nelson Ascher

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Crônica de arroz de pato



O domingo frio e chuvoso traz algumas peculiaridades. A chegada de Elvis alguns dias antes já movimentava a casa de forma inusitada, ainda que nenhum rei mago tenha nos presenteado com ouro, incenso ou mirra. Elvis é o mais novo membro da família, um golden retriever bebê, que traz inegavelmente na cara – ou seja lá como se chama o rosto de um cão – os genes do avô, nosso saudoso Guga, que o deus dos cachorros o tenha em boa conta no paraíso cheio de ossos suculentos onde vivem os cachorros mortos.


Ninguém está se importando de verdade com o xixi nos tapetes e com os cocozinhos espalhados pela casa como pequenas obras da mais pura arte canina. Elvis já conquistou todo mundo aqui em casa. Sua chegada no dia 16 de agosto, coincidentemente o dia da morte de Elvis Presley, que lhe inspirou o nome, já foi assimilada como uma dessas coincidências mágicas e incríveis que não querem dizer nada, mas muito significativas de não sei o quê exatamente.

Além do pequeno Elvis, mordiscando pés de mesa, chinelos desavisados e fios de telefone, havia o arroz de pato. Almoços de domingo, ainda mais nos domingos frios e chuvosos, costumam ter essa capacidade rara de reunir à mesa sogras, marido e mulher, filhos adolescentes e, claro, pequenos golden retrievers. Preparado com muito empenho por minha mãe, que vem a ser a sogra de minha mulher e avó de meus filhos e nos faz uma visita, o arroz de pato desencadeou por alguns instantes uma cumplicidade especial.

Por mais que convivam, e passem juntos anos a fio, os membros de uma família estão quase sempre vivendo cada um a sua própria vida – e filhos adolescentes são exemplares na arte de estar perto estando longe (o que fazem, e o que pensam, afinal, durante aqueles longos períodos concentrados no computador ou trancados no banheiro?) – e os momentos em que realmente compartilham alguma coisa são bastante raros. E há as distâncias, as físicas e as psicológicas, além da própria dinâmica da vida, que como num universo em expansão afasta partículas de seu próprio núcleo. Pois foi o que me proporcionou, logo após a primeira garfada, em que num silêncio reverente constatatei que o sentido de um domingo frio e chuvoso pode estar camuflado num prato, o arroz de pato.

Por Tony Bellotto




sábado, 20 de agosto de 2011

Um cavalo humano



A Rádio Gaúcha, no programa Gaúcha Hoje, divulgou na última quinta-feira a notícia mais espetacular e fantástica do jornalismo brasileiro nos últimos 50 anos.

Avaliem se estou exagerando. Em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, Mato Grosso, um cavalo percorre desde abril passado, todos os dias, sete quadras da cidade e se dirige ao túmulo de seu ex-proprietário, que está sepultado há quatro meses no cemitério local.

O cavalo atravessa a cidade e vai visitar a sepultura do ex-dono. Todos os dias.

No primeiro mês após o falecimento de seu ex-proprietário, depõem os parentes do morto, o cavalo passava relinchando: “Parecia que ele estava chorando de saudade ou porque sabia que alguma coisa ruim tinha acontecido”.

“É só deixar o cavalo solto e ele já sabe para onde ir, caminha até o cemitério. E, entre tantas sepulturas, ele escolhe exatamente a de seu dono. Fica parado ali na lápide, balança com a cabeça para cima e para baixo e rende assim sua homenagem ao homem que o domou e cavalgava com ele todos os dias”, acrescenta a mãe do filho morto.

O cavalo Raposa acompanhou o cortejo do seu ex-dono até o cemitério, em meio a uma cavalgada em homenagem ao seu enterro, em abril passado.



Impressionante relação de afetividade existe entre animais e homens.

Há inúmeros casos de pessoas que caem mortas e seus cães não se arredam de junto aos cadáveres.

Mas este caso é o mais curioso e ricamente amoroso que se conhece, porque a homenagem póstuma que o cavalo presta a seu dono acontece há meses e parece que, se não for impedido, o cavalo irá visitar o túmulo de seu domador até o dia de sua própria morte.


Paulo Sant'Ana
Zero Hora 14/08/2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Jogo




Uma vez terminado o jogo,




o rei e o peão voltam




para a mesma caixa.

Dante Alighieri

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A morte



A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada !
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.






Vinicius de Moraes

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A folha




A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 14 de agosto de 2011

Pai e pais



Quando ouço falar em Dia dos Pais,



parece uma coisa tão vazia,



tão comercial,



tão automática.






Mas quando abraço meu pai



e sinto que agora



ele precisa de mim



tanto quanto



precisei dele



na infância ,



parece uma coisa tão grande,



tão intensa,



tão especial.






Silvia

sábado, 13 de agosto de 2011

Desfile de cabides



Não entendo nada de moda, mas de mulher eu entendo. Saí de dentro de uma e, algum tempo depois, entrei dentro de outra para fazer uma terceira que, modéstia à parte, é uma obra-prima. Mais por méritos de minha parceira do que por meus dotes pessoais. De qualquer forma, escorado pela ciência, reinvidico minha participação na autoria, já que contribuí com 23 cromossomos. Alguma coisa ali fui eu que fiz, nem que tenha sido a vesícula.

Independente da capacidade de saber, ou não, fazer mulheres, sei apreciá-las. Existe um equilibrio natural entre as formas e medidas femininas para que o conjunto resulte em algo que possa se chamar de belo. E a coisa toda não fique parecendo uma... girafa, por exemplo. A girafa é um bicho simpático mas mal projetado, um equívoco do departamento de design celeste.

Pois foi exatamente a imagem de uma girafa que me veio à mente quando, sentado no sofá, zappiando com o controle de TV na mão, parei boquiaberto em um canal que mostrava um desfile de moda. A guria vinha na minha direção, tão desengonçada e trocando as pernas, que achei que fosse cair. Gritei “caraca!” e comentei com minha mulher que a garota parecia ter bebido umas 2 garrafas de vodka.

A seguir veio outra, que parecia prima da primeira, depois outra e mais outra, todas da mesma família, a família Caniço. Era um desfile de cabides. Gente, essas gurias estão passando necessidade! Pensei em fazer um show beneficiente para arrecadar latas de leite em pó. E como estava pensando em voz alta, minha mulher emendou: “pede leite desnatado, senão não tomam”. O tom de ironia do comentário só revelava uma realidade preocupante: na ânsia de ficarem cada vez mais magras, essas garotas perderam o bom senso e viraram palitos, pele e osso. Qualquer ser humano nessas condições é considerado subnutrido pela Organização Mundial de Saúde.

Giselle Bündchen, a deusa de Horizontina, é a mulher mais linda do mundo. É magra sim, mas não esquelética. Tem as medidas certas. E tem até bundinha, como ela mesmo descobriu recentemente. Não sei como não havia se dado conta, eu e o Leonardo di Caprio já havíamos notado.

Ela é hoje a modelo a ser imitada. E não estou falando de beleza física. Giselle exala um tipo de brilho que não se consegue só com dieta alimentar. Na passarela, com equilíbrio e harmonia, ensina como é bonito um corpo em movimento. Certas pessoas têm essa capacidade de transformar em arte coisas simples, como o ato de caminhar.

É assim com Giselle Bündchen. Como foi com Greta Garbo.


Kledir Ramil

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Mau despertar







Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva .



Ferreira Gullar

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ela




Não teve alternativa
E assumiu todas as dores
A dor da injustiça
A dor da incompreensão
A dor da violência
A dor do preconceito
A dor da violência
A dor da discriminação

Ao lutar pela felicidade
Conheceu o sofrimento
Ao optar pelo prazer foi apedrejada
Ao escolher a liberdade foi queimada
Ao reclamar seus direitos foi abandonada


Benditas sejam as Marias
As rainhas loucas e santas
As de todas cores
As de todos os credos
As poetas e mártires
São luzes para o remediável.


Dor é crescimento
Quem não passou por ela
Não viveu.


Fátima Campilho

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Despedida





Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, á que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida… Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’ propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.


Martha Medeiros

Educação



Educação, para mim, é botar dentro do indivíduo,



além do esqueleto de ossos que já possui,



uma estrutura de sentimentos,



um esqueleto emocional.



O entendimento na base do amor.






Cecília Meirelles

domingo, 7 de agosto de 2011

Poema



Se morro
universo se apaga



como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.

Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido .






Ferreira Gullar

sábado, 6 de agosto de 2011

Entre amigos



Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.



Martha Medeiros

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O poeta pede ao seu amos que lhe escreva



Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Frederico Garcia Lorca

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pontos de vista






Na minha infancia,quando eu me excedia
quando eu fazia alguma coisa errada
se alguém ralhava minha mãe dizia
-Ele é uma criança,não entende nada!

Por dentro eu ria satisfeito e mudo.
Eu era um homem,entendia tudo.

Hoje que escrevo poemas
e pareço ter tido algum estudo
dizem quando me veem com os meus problemas:
-Ele é um homem,ele entende tudo!

Por dentro,alma confusa e atarantada
eu sou criança,não entendo nada. ...


Giuseppe Ghiaroni

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O cavalinho branco



À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:


mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.


O cavalo sacode a crina
loura e comprida


e nas verdes ervas atira
sua branca vida.


Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos


a alegria de sentir livres
seus movimentos.


Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!


Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

Cecilia Meireles