sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Juízo anatômico da Bahia



Que falta nesta cidade?-Verdade.
Que mais por sua desonra? -Honra.
Falta mais que se lhe ponha? -Vergonha.
demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.




Quem a pôs neste socrócio? -Negócio.
Quem causa tal perdição? -Ambição.
E o maior desta loucura? -Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.




Quais são seus doces objetos? -Pretos.
Tem outros bens mais maciços? -Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? -Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.




Quem faz os círios mesquinhos? -Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? -Guardas.
Quem as tem nos aposentos? -Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.




E que justiça a resguarda? -Bastarda.
É grátis distribuída?- Vendida.
Que tem, que a todos assusta? - Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.




Que vai pela cleresia? -Simonia.
E pelos membros da Igreja? -Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha? -Unha.
Sazonada caramunha
Enfim, que na Santa Sé
que mais se pratica é
Simonia, inveja, unha.




E nos Frades há manqueiras? - Freiras.
Em que ocupam os serões? -Sermões.
Não se ocupam em disputas? - Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluís, na verdade,
Que as lidas todas de um Frade
São freiras, sermões, e putas.




O acúcar já se acabou? -Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? -Subiu.
Logo já convalesceu? -Morreu.
A Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.




A Câmara não acode? -Não pode.
Pois não tem todo o poder? -Não quer.
que o governo a convence? -Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.






Gregório de Matos

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Elegiazinha






Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.




Nelson Ascher

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Crônica de arroz de pato



O domingo frio e chuvoso traz algumas peculiaridades. A chegada de Elvis alguns dias antes já movimentava a casa de forma inusitada, ainda que nenhum rei mago tenha nos presenteado com ouro, incenso ou mirra. Elvis é o mais novo membro da família, um golden retriever bebê, que traz inegavelmente na cara – ou seja lá como se chama o rosto de um cão – os genes do avô, nosso saudoso Guga, que o deus dos cachorros o tenha em boa conta no paraíso cheio de ossos suculentos onde vivem os cachorros mortos.


Ninguém está se importando de verdade com o xixi nos tapetes e com os cocozinhos espalhados pela casa como pequenas obras da mais pura arte canina. Elvis já conquistou todo mundo aqui em casa. Sua chegada no dia 16 de agosto, coincidentemente o dia da morte de Elvis Presley, que lhe inspirou o nome, já foi assimilada como uma dessas coincidências mágicas e incríveis que não querem dizer nada, mas muito significativas de não sei o quê exatamente.

Além do pequeno Elvis, mordiscando pés de mesa, chinelos desavisados e fios de telefone, havia o arroz de pato. Almoços de domingo, ainda mais nos domingos frios e chuvosos, costumam ter essa capacidade rara de reunir à mesa sogras, marido e mulher, filhos adolescentes e, claro, pequenos golden retrievers. Preparado com muito empenho por minha mãe, que vem a ser a sogra de minha mulher e avó de meus filhos e nos faz uma visita, o arroz de pato desencadeou por alguns instantes uma cumplicidade especial.

Por mais que convivam, e passem juntos anos a fio, os membros de uma família estão quase sempre vivendo cada um a sua própria vida – e filhos adolescentes são exemplares na arte de estar perto estando longe (o que fazem, e o que pensam, afinal, durante aqueles longos períodos concentrados no computador ou trancados no banheiro?) – e os momentos em que realmente compartilham alguma coisa são bastante raros. E há as distâncias, as físicas e as psicológicas, além da própria dinâmica da vida, que como num universo em expansão afasta partículas de seu próprio núcleo. Pois foi o que me proporcionou, logo após a primeira garfada, em que num silêncio reverente constatatei que o sentido de um domingo frio e chuvoso pode estar camuflado num prato, o arroz de pato.

Por Tony Bellotto




sábado, 20 de agosto de 2011

Um cavalo humano



A Rádio Gaúcha, no programa Gaúcha Hoje, divulgou na última quinta-feira a notícia mais espetacular e fantástica do jornalismo brasileiro nos últimos 50 anos.

Avaliem se estou exagerando. Em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, Mato Grosso, um cavalo percorre desde abril passado, todos os dias, sete quadras da cidade e se dirige ao túmulo de seu ex-proprietário, que está sepultado há quatro meses no cemitério local.

O cavalo atravessa a cidade e vai visitar a sepultura do ex-dono. Todos os dias.

No primeiro mês após o falecimento de seu ex-proprietário, depõem os parentes do morto, o cavalo passava relinchando: “Parecia que ele estava chorando de saudade ou porque sabia que alguma coisa ruim tinha acontecido”.

“É só deixar o cavalo solto e ele já sabe para onde ir, caminha até o cemitério. E, entre tantas sepulturas, ele escolhe exatamente a de seu dono. Fica parado ali na lápide, balança com a cabeça para cima e para baixo e rende assim sua homenagem ao homem que o domou e cavalgava com ele todos os dias”, acrescenta a mãe do filho morto.

O cavalo Raposa acompanhou o cortejo do seu ex-dono até o cemitério, em meio a uma cavalgada em homenagem ao seu enterro, em abril passado.



Impressionante relação de afetividade existe entre animais e homens.

Há inúmeros casos de pessoas que caem mortas e seus cães não se arredam de junto aos cadáveres.

Mas este caso é o mais curioso e ricamente amoroso que se conhece, porque a homenagem póstuma que o cavalo presta a seu dono acontece há meses e parece que, se não for impedido, o cavalo irá visitar o túmulo de seu domador até o dia de sua própria morte.


Paulo Sant'Ana
Zero Hora 14/08/2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Jogo




Uma vez terminado o jogo,




o rei e o peão voltam




para a mesma caixa.

Dante Alighieri

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A morte



A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada !
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.






Vinicius de Moraes

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A folha




A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 14 de agosto de 2011

Pai e pais



Quando ouço falar em Dia dos Pais,



parece uma coisa tão vazia,



tão comercial,



tão automática.






Mas quando abraço meu pai



e sinto que agora



ele precisa de mim



tanto quanto



precisei dele



na infância ,



parece uma coisa tão grande,



tão intensa,



tão especial.






Silvia

sábado, 13 de agosto de 2011

Desfile de cabides



Não entendo nada de moda, mas de mulher eu entendo. Saí de dentro de uma e, algum tempo depois, entrei dentro de outra para fazer uma terceira que, modéstia à parte, é uma obra-prima. Mais por méritos de minha parceira do que por meus dotes pessoais. De qualquer forma, escorado pela ciência, reinvidico minha participação na autoria, já que contribuí com 23 cromossomos. Alguma coisa ali fui eu que fiz, nem que tenha sido a vesícula.

Independente da capacidade de saber, ou não, fazer mulheres, sei apreciá-las. Existe um equilibrio natural entre as formas e medidas femininas para que o conjunto resulte em algo que possa se chamar de belo. E a coisa toda não fique parecendo uma... girafa, por exemplo. A girafa é um bicho simpático mas mal projetado, um equívoco do departamento de design celeste.

Pois foi exatamente a imagem de uma girafa que me veio à mente quando, sentado no sofá, zappiando com o controle de TV na mão, parei boquiaberto em um canal que mostrava um desfile de moda. A guria vinha na minha direção, tão desengonçada e trocando as pernas, que achei que fosse cair. Gritei “caraca!” e comentei com minha mulher que a garota parecia ter bebido umas 2 garrafas de vodka.

A seguir veio outra, que parecia prima da primeira, depois outra e mais outra, todas da mesma família, a família Caniço. Era um desfile de cabides. Gente, essas gurias estão passando necessidade! Pensei em fazer um show beneficiente para arrecadar latas de leite em pó. E como estava pensando em voz alta, minha mulher emendou: “pede leite desnatado, senão não tomam”. O tom de ironia do comentário só revelava uma realidade preocupante: na ânsia de ficarem cada vez mais magras, essas garotas perderam o bom senso e viraram palitos, pele e osso. Qualquer ser humano nessas condições é considerado subnutrido pela Organização Mundial de Saúde.

Giselle Bündchen, a deusa de Horizontina, é a mulher mais linda do mundo. É magra sim, mas não esquelética. Tem as medidas certas. E tem até bundinha, como ela mesmo descobriu recentemente. Não sei como não havia se dado conta, eu e o Leonardo di Caprio já havíamos notado.

Ela é hoje a modelo a ser imitada. E não estou falando de beleza física. Giselle exala um tipo de brilho que não se consegue só com dieta alimentar. Na passarela, com equilíbrio e harmonia, ensina como é bonito um corpo em movimento. Certas pessoas têm essa capacidade de transformar em arte coisas simples, como o ato de caminhar.

É assim com Giselle Bündchen. Como foi com Greta Garbo.


Kledir Ramil

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Mau despertar







Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva .



Ferreira Gullar

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ela




Não teve alternativa
E assumiu todas as dores
A dor da injustiça
A dor da incompreensão
A dor da violência
A dor do preconceito
A dor da violência
A dor da discriminação

Ao lutar pela felicidade
Conheceu o sofrimento
Ao optar pelo prazer foi apedrejada
Ao escolher a liberdade foi queimada
Ao reclamar seus direitos foi abandonada


Benditas sejam as Marias
As rainhas loucas e santas
As de todas cores
As de todos os credos
As poetas e mártires
São luzes para o remediável.


Dor é crescimento
Quem não passou por ela
Não viveu.


Fátima Campilho

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Despedida





Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, á que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida… Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’ propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.


Martha Medeiros

Educação



Educação, para mim, é botar dentro do indivíduo,



além do esqueleto de ossos que já possui,



uma estrutura de sentimentos,



um esqueleto emocional.



O entendimento na base do amor.






Cecília Meirelles

domingo, 7 de agosto de 2011

Poema



Se morro
universo se apaga



como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.

Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido .






Ferreira Gullar

sábado, 6 de agosto de 2011

Entre amigos



Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.



Martha Medeiros

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O poeta pede ao seu amos que lhe escreva



Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Frederico Garcia Lorca

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pontos de vista






Na minha infancia,quando eu me excedia
quando eu fazia alguma coisa errada
se alguém ralhava minha mãe dizia
-Ele é uma criança,não entende nada!

Por dentro eu ria satisfeito e mudo.
Eu era um homem,entendia tudo.

Hoje que escrevo poemas
e pareço ter tido algum estudo
dizem quando me veem com os meus problemas:
-Ele é um homem,ele entende tudo!

Por dentro,alma confusa e atarantada
eu sou criança,não entendo nada. ...


Giuseppe Ghiaroni

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O cavalinho branco



À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:


mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.


O cavalo sacode a crina
loura e comprida


e nas verdes ervas atira
sua branca vida.


Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos


a alegria de sentir livres
seus movimentos.


Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!


Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

Cecilia Meireles

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Frases



Ninguém



pode fazer



com que te sintas inferior



sem o teu consentimento.






Eleanor Roosevelt

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Faz de conta

Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: FAZ DE CONTA QUE EU TE ODEIO

Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: FAZ DE CONTA QUE EU TE AMO.

Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: FAZ DE CONTA QUE EU DOU CONTA DO RECADO.

Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO QUERO.

Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto:FAZ DE CONTA QUE EU ME IMPORTO.

Digo que perdoo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO SOFRO.

Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: FAZ DE CONTA QUE EU ENTENDO.

Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: FAZ DE CONTA QUE EU COZINHO.

Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: FAZ DE CONTA QUE NÃO DÓI.


Martha Medeiros

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigos



As pessoas entram em nossas vidas por acaso,



mas não é por acaso que elas permanecem.






Feliz Dia do Amigo

O ovo de galinha



O ovo revela o acabamento

a toda a mão que o acaricia,

daquelas coisas torneadas

num trabalho de toda a vida.


E que se encontra também noutras

que entretanto mão não fabrica:

nos corais, nos seixos rolados

e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra

de mil inacabáveis lixas

usadas por mãos escultoras

escondidas na água, na brisa.


No entretanto, o ovo, e apesar

da pura forma concluída,

não se situa no final:

está no ponto de partida.


João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ajuda




Quem tenta ajudar a borboleta
a sair do casulo a mata.

Quem tenta ajudar um broto
a sair da semente o destrói.

Há certas coisas que
não podem ser ajudadas.

Tem que acontecer
de dentro para fora.


Rubem Alves

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Máquina de escrever






Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.






Giuseppe Ghiaroni



sábado, 16 de julho de 2011

My God



Nada sei sobre a vidinha do
pernilongo que mato
indiferente na parede.
Mas desconfio que era
a única que ele tinha.




Ulisses Tavares

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Eu conto carneirinhos





Gosto de sonhar. Penso que os sonhos são passeios da alma. Sabe,quando queremos espairecer. Sair por aí. Distrair.

Só que os sonhos fazem viagens bem mais empolgantes. Viajam pelas lembranças, exploram o desconhecido, visitam até o que tememos e nos assustam com terríveis pesadelos. Mas são só pesadelos.

Revemos amigos, outros bem mais queridos e encontramos até gente nova. Sim!!! Acredito nisso. Sabe quando vemos alguém pela primeira vez e dizemos: "Eu não te conheço de algum lugar?" Sei lá, mas eu acho que é lá das voltinhas dos sonhos, que já o vimos antes.

Por isso é que gosto quando a noite chega. E espero ansiosa a hora de dormir, só pra saber a surpresa que terei. Que passeio farei, embalada em canções antigas de ninar. Quem sabe hajam caminhos de jujubas e rios de refrigerantes, laguinhos de chocolate com patinhos de bombom. Sei lá... As vezes a grande viajem é refugiar-se apenas no inimaginável.

Não sou mística ou qualquer outra coisa. Nem gosto de religião. Só quero compartilhar os meus humildes pensamentos. E convidar a sua alma a pôr o pé na estrada te lembrando o quanto é bom sonhar.

Adriana Kairos

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dance



Trabalhe como se não necessitasses de dinheiro,
ame como se nunca te houvessem ferido
e dance como se ninguém estivesse olhado.

Eça de Queiroz

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A fita métrica do amor



Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.




Martha Medeiros

sábado, 9 de julho de 2011

A rotina



A ideia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto

A rotina do espelho é o oposto
A rotina do jornal é o fato
A celebridade é a rotina do boato


A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta é rock
O coração é rotina da batida
A rotina do equilíbrio é a medida


O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança

Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza

Toda rotina tem sua beleza.


Arnaldo Antunes

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Viver



Há duas maneiras de viver a vida:


uma como se nada fosse um milagre


e outra como se tudo fosse um milagre.

Albert Einstein