sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O tempo




Com o tempo, você vai percebendo que

para ser feliz com uma outra pessoa,

você precisa, em primeiro lugar,

não precisar dela.

Percebe também

que aquela pessoa que você ama

(ou acha que ama) e que não quer

nada com você, definitivamente, não é o

homem ou a mulher da sua vida.

Você aprende a gostar de você,

 a cuidar de você e, principalmente,

a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas .....

É cuidar do jardim

para que elas venham até você.

No final das contas,

você vai achar não quem você estava procurando,

mas quem estava procurando por você!

Mário Quintana

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Sem medo de amadurecer



Estará chegando em breve às livrarias a nova obra do filósofo argentino Sergio Sinay, cujo título é A Sociedade que Não Quer Crescer. Tema bastante atual e que merece atenção. Não há alarmismo em afirmar que viramos uma sociedade de adolescentes vitalícios, todos preocupados em manter a juventude até os 80 anos.


Uma coisa é praticar esportes e exercícios físicos, proteger a pele, se alimentar bem, manter cuidados para garantir a saúde, investir em lazer. Outra bem diferente é se comportar de forma irresponsável, não assumir autoridade, não dar um rumo à própria vida, viver encostado nos parentes. Há quem considere mais cômodo ser criança para sempre.

De fato, é. Temos por aí uma quantidade absurda de crianções e criançonas de 40 anos, de 50 anos, até mais. O que esperar de seus descendentes?

Não é fácil lidar com desejos, fazer escolhas, sustentar decisões. Nos momentos de aperto, gostaríamos de não precisar enfrentar coisa alguma e chamar um “adulto” para resolver as questões sérias em nosso lugar. Porém, não temos mais cinco anos. Nem 15. Não há mais justificativa para desrespeitar as leis, dirigir de forma inconsequente, se embebedar, fugir aos compromissos. Essa rebeldia juvenil até possui um certo romantismo, é a porção James Dean de cada um. Só que o ator não viveu o suficiente para virar um homem, mas você, sim.

Amadurecer é respeitar os ciclos da vida e deixar a adolescência para trás a fim de assumir seu lugar no mundo. O que não significa virar um adulto chato e prepotente. É permitido divertir-se na maturidade. Muito, inclusive. Adultos curtem a vida mais do que a garotada justamente porque não estão mais testando limites, já viraram essa página. O que fragiliza a sociedade são pessoas que, uma vez crescidas em estatura, não cresceram emocionalmente.

Um adulto de verdade é aquele que não age em busca de uma recompensa – ele faz o que tem que fazer porque é o certo. Pra chegar a esse encontro saudável com o dever moral, é preciso que ele tenha consciência de quem é, de tudo o que viveu, de como suas experiências o moldaram, e adote uma atitude firme diante de seus filhos, de seus pares, da sociedade toda. Se considerar que isso significa “envelhecer”, que pena: seguirá sendo um garoto mimado, uma garota bobinha, sem brio para herdar o bastão de seus pais e sem consistência para passar o bastão adiante.

Pessoas maduras também têm incertezas, vacilam, fraquejam. Porém sabem a hora de cortar o laço com suas carências infantis e de interagir com o mundo a fim de torná-lo melhor, mais digno. São agentes de transformação, e não de estagnação. Quando se tornarem idosos, poderão olhar pra trás com a consciência de ter dado um sentido à sua vida, em vez de terem percorrido anos e anos inúteis, acreditando que poderiam ser jovens para sempre só pelo fato de andarem com a aba do boné virada pra trás.


Martha Medeiros

Zero Hora  28/10/2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Valsa para uma menininha



Menininha do meu coração

Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão
Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho-papão
Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei.

Vinicius de Moraes







terça-feira, 30 de outubro de 2012

O princípio da incerteza

O professor tinha uma tática para lidar com a Sandrinha e não explodir

O professor virou-se e viu que a Sandrinha não estava escrevendo. Todos na aula copiavam o que o professor tinha escrito no quadro-negro, menos a Sandrinha. A Sandrinha estava dobrando e alisando um pedaço de papel.

– Dona Sandra, o que a senhora está fazendo? – perguntou o professor.

– Um aviãozinho, professor.

– Dona Sandra, eu pedi para copiarem o que eu estou escrevendo no quadro-negro sobre a teoria da incerteza de Heisenberg.

– Eu sei, professor. Mas eu estou preparando uma experiência prática sobre o mesmo assunto.

– Nossa aula hoje é sobre física quântica, dona Sandra.

– A minha experiência também.

O professor tinha desenvolvido uma tática para lidar com a Sandrinha. Para não explodir, contava até três. Desta vez contou até seis. Depois perguntou:

– E que a sua experiência tem a ver com o princípio da incerteza de Heisenberg, dona Sandra?

– Quando o aviãozinho ficar pronto, vou atirar para o alto, sem saber onde ele vai cair. Se bater em alguém, ou cair próximo de alguém, é a pessoa que eu vou namorar neste trimestre.

Por um momento, o único ruído ouvido na sala foi o do riso abafado. Desta vez, pensaram todos, a Sandrinha conseguiria. O professor perderia o controle. Atiraria a Sandrinha pela janela. Ou ele se atiraria pela janela. De qualquer maneira, haveria uma explosão. Mas o professor manteve o controle, depois de contar até dez.

– E se cair perto de uma pessoa do sexo feminino, dona Sandra?

– Não tenho preconceito, professor.

– Só não entendi o que seu aviãozinho tem a ver com a teoria de Heisenberg.

– A incerteza. Ninguém sabe onde ele vai cair.

– Não, dona Sandra. É muito mais complexo do que isso. É...

– A teoria não diz que a ação humana interfere na observação das partículas subatômicas? Que por isso a medição dos seus movimentos é sempre incerta?

Pois eu posso direcionar meu aviãozinho para um lado que me interessa. Ele vai dar voltas no ar, mas sua trajetória não será inteiramente aleatória. Minha vontade vai influir no seu destino. Pronto. Uma aula prática, professor.

O professor fechou os olhos. Um, dois, três, quatro...

– Faça o que quiser, dona Sandra. Vou continuar dando a minha aula. Voltou para o quadro-negro e continuou a escrever. Dali a pouco, ouviu uma agitação às suas costas. O aviãozinho da Sandrinha tinha decolado. Virou-se a tempo de receber o aviãozinho no peito. E ouvir a voz da Sandrinha:

– O senhor é casado, professor?



Luis Fernando Verissimo

Zero Hora  28/10/2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

São Francisco

Lá vai São Francisco

Pelo caminho

De pé descalço

Tão pobrezinho

Dormindo à noite

Junto ao moinho

Bebendo a água

Do ribeirinho



Lá vai São Francisco

De pé no chão

Levando nada

No seu surrão

Dizendo ao vento

Bom dia, amigo

Dizendo ao fogo

Saúde, irmão



Lá vai São Francisco

Pelo caminho

Levando ao colo

Jesus Cristinho

Fazendo festa

No menininho

Contando histórias

Pros passarinhos.

Vinicius de Moraes



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A arte de enganar




O uso da emoção é um dos instrumentos mais comuns nas campanhas eleitorais.

Quanto menos informada é a população de eleitores, mais a emoção é eficaz para conseguir votos. Embora isso seja pouco ou nada mais divulgado, no Brasil a tentativa de envolver as emoções no turbilhão eleitoral é, provavelmente, a ferramenta mais importante de uma campanha.

Cerca de 70% dos eleitores brasileiros não têm o primeiro grau completo. Na visão dos políticos, dos publicitários e especialistas que dirigem campanhas eleitorais, é bem mais prático influenciar essas pessoas usando sua emoção do que a razão. Mostrar as dificuldades reais do país através de estudos técnicos, apresentar gráficos, discutir opções teóricas de caminhos a serem seguidos e propor planos de governo reais, tudo isso é considerado totalmente sem efeito, inútil, por aqueles que dirigem campanhas eleitorais.

Qual foi, então, a solução encontrada para essas campanhas? O uso da emoção, dos sentimentos humanos. Para isso nada mais apropriado que o uso da televisão. Um discurso flamejante, teatral, humano, fraternal, igual, salvador, uma música envolvente com letra heróica e uma seqüência estudada de imagens cinematográficas que mexem com a alma; essa é a fórmula básica da conquista de votos no Brasil. Nesta campanha o uso da televisão foi limitado. Não poderão ser usadas as caríssimas produções que buscavam mexer com a alma humana. Basicamente, os candidatos vão ter que se dirigir pessoalmente aos eleitores, sem imagens produzidas. Vai ser mais difícil, mas certamente vão ser usadas ao máximo as técnicas que buscam tirar proveito da emoção.

Mas não é só emoção. No Brasil ela funciona junto com alguma coisa que pode parecer racional ao eleitor. Na maioria das campanhas para presidente, governador e prefeito, são feitas pesquisas entre os eleitores, verificando quais são seus principais anseios e desejos. Por exemplo: um candidato a governador verifica que seus possíveis eleitores têm como prioridade a habitação. A partir dessa constatação toda a parte aparentemente racional da campanha será dirigida basicamente para esse tema. Se na pesquisa os eleitores demonstram que querem eleger um candidato que combata a corrupção, dá-lhe discurso contra a corrupção. A técnica é trabalhar com as emoções e com os anseios. A verdade pouco importa.

Como os orçamentos públicos são sempre menores do que o eleitor quer, os candidatos são aconselhados a prometer, sem tocar na questão dos recursos. Não há pudor: se promete tudo. E num pacote de emoção e promessas, evidentemente acompanhadas de críticas à atual situação, se arrancam os votos. Com a certeza de que, depois, ninguém vai cobrar as promessas. Há até quem diga que promessa eleitoral não deve ser cobrada porque não é para valer.

É claro que nisso tudo há exceções. Mas são poucas.

Se todos nós voltássemos com mais razões e menos emoção, procurando ver o que representam e quem são realmente os candidatos, o que eles fizeram e falaram no passado, certamente teríamos um Brasil melhor. Mas esta é uma outra história que fica para uma outra vez.



Boris Casoy

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sonhar


Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere... Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha. Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos. Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias. Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais... Os médicos deveriam proibir - como doem! Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio


quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde! E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda! Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna. Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca! Conversa é melhor do que piada. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. Sonhar é melhor do que nada!


Martha Medeiros

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Saudade

"Como quando se tira um vestido velho do baú,

um vestido que não é para usar, só para olhar.

Só para ver como ele era.

Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar.

Acho que saudade é isso."



Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Outubro




Cessou o aguaceiro.

Há bolhas novas nas folhas

do velho salgueiro.

Guilherme de Almeida



sábado, 15 de setembro de 2012

Posso ter defeitos


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá a falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um “não”.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Força


Minha força está na solidão.

Não tenho medo nem de chuvas tempestivas

nem de grandes ventanias soltas,

 pois eu também sou o escuro da noite.

Clarice Lispector

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ricordanza della mia gioventù



Eu sou do tempo dos refrigerantes Grapete, Marabá e Crush.
Eu sou do tempo dos chapéus Sarkil, Prada e Ramenzoni, do Anil Reckitt, dos urinóis Rosário.

Sou do tempo dos cigarros Aspásia, Liberty Ovais, Hudson com Ponteira, Belmonte, Tufuma, Phriné, Negritos, Lincoln e Astória.

E das cigarrilhas Talvis.
Sou do tempo da bala quebraqueixo e da rapadura-puxa.

Sou do tempo do Melado Patrulhense, da bolinha de inhaque e da bolinha aça, do bilboquê, do bambolê, da Bandeira do Divino e do realejo que enchia de alegria as ruas da minha infância: “ Naquele bairro afastado/ onde em criança eu vivia/ a remoer melodias/ de uma ternura sem par/ passava todas as tardes/ um realejo tristonho/ passava como num sonho/ um realejo a tocar”.

Eu sou do tempo do fumo em corda, da banha em tabletes de um quilo, sou do tempo do querosene vendido no armazém.

Sou do tempo da calça de tussor, do corte inglês, da camisa voltaao-mundo, do sapato de trissê e dos Tamancos Holandeses: “ Ho, holandesa boneca de tranças/ não tens compaixão/ o plac-plac dos teus tamanquinhos/ machuca o meu coração”.

Sou do tempo da goiabada cascão, da calça Lee, das Pílulas de Vida do Doutor Ross, do Rhum Creosotado, da Emulsão de Scott, e do jingle no rádio: “ Roma ou Lisboa/ em Londres, Nova York ou Paris/ todos bebem Martini porque/ Martini é marca mundial/ Martini branco doce, Martini tinto/ Martini seco/ Que paladar sensacional”.

Sou do tempo do mogango com leite, da canjica ao molho de vinho ou de leite, da canjiquinha, sou do tempo do Saphrol, do Phimatosan, do radinho Spica, sou do tempo do Biotônico Fontoura, das balas com figurinhas difíceis, as Balas do Rádio, a figurinha difícil era o Cândido Norberto, com jingle: “ Artistas do rádio/ de quem se fala/ agora se encontram na bala/ a Bala do Rádio saborosa e sã/ que traz os artistas de quem eu sou fã”.

Sou do tempo da cinta-liga e do tempo em que vestido se chamava costume.

Sou do tempo do sabonete Lifebuoy, do xarope São João.

E sou do tempo da Pomada Minâncora.

Sou do tempo do Emplastro Poroso Sabiá e do Creme de Beleza Rugol.

Sou do tempo do óleo de rícino, do xarope Bromil, o amigo do peito, e do Regulador Xavier, o amigo de confiança da mulher.

Sou do tempo do colírio Moura Brasil.

Sou do tempo da limonada purgativa e do sal amargo.

Sou do tempo do Brylcreem e do Glostora, do Vinho Reconstituinte Silva Araújo.

Sou do tempo em que todos os telefones eram pretos e todas as geladeiras eram brancas.

Sou do tempo das polainas e das galochas.

Sou do tempo dos programas de rádio Grande Rodeio Coringa e Rádio Seqüência.

Eu sou do tempo em que não havia violência.

Os ladrões, como os batedores de carteira, agiam com carinho e delicadeza, nunca feriram ou mataram alguém.

Eu sou do tempo das serenatas, dos sonetos, dos acrósticos, das alianças de noivado, sou do tempo do namoro na sala com chá-depêra.

Enfim, eu estou deslocado porque eu sou do tempo do amor.


*texto publicado em 20/08/2008

Paulo SantAna
Zero Hora 07/06/2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Desejos

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu".


Carlos Drummond de Andrade.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Corpo interditado


Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos. Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos. Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha. Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram. Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la. O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.

Martha medeiros

Zero Hora 26/08/2012

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O constante diálogo





Há tantos diálogos

 

Diálogo com o ser amado

o semelhante

o diferente

o indiferente

o oposto

o adversário

o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio

Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.


Carlos Drummond de Andrade




terça-feira, 28 de agosto de 2012

É doce morrer no mar

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


A noite que ele não veio foi

Foi de tristeza pra mim

Saveiro voltou sozinho

Triste noite foi pra mim


É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


Saveiro partiu

de noite foi

Madrugada não voltou

O marinheiro bonito

sereia do mar levou


É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


Nas ondas verdes do mar meu bem

Ele se foi afogar

Fez sua cama de noivo no colo de Iemanjá


Dorival Caymmi e Jorge Amado





domingo, 19 de agosto de 2012

Strip-Tease


Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.



Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.


Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".


Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."


Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".

Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.



Martha Medeiros

sábado, 18 de agosto de 2012

Combate


Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.

Essa peleja é vã, essa luta no escuro

entre mim e seu nome.

Não me persegue Deus no dia claro.

Arma, à noite, emboscadas.

Enredo-me, debato-me, invectivo

e me liberto, escalavrado.

De manhã, à hora do café, sou eu quem desafia.

Volta-me as costas, sequer me escuta,

e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.

Deus golpeia à traição.

Também uso para com ele táticas covardes.

E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer

pela vitória equívoca.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Emergência






Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela.

...Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

Mario Quintana

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jorge Amado - Frases


O escritor baiano Jorge Amado estaria completando 100 anos hoje, 10 de agosto.

"Fiz da minha vida e da minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor"



"Um escritor enquanto vive ele escreve. Você não se aposenta. Enquanto não morre, está escrevendo..."


“Um escritor não pode desejar nada de maior e de melhor do que ser lido. Assim ele pode cumprir sua missão..."

"Não acredito que chegue um tempo em que a literatura seja relíquia do passado."


"A poesia não está nos versos, por vezes ela está no coração. E é tamanha. A ponto de não caber nas palavras."


"A mulher é igual ao homem. O feminino é a outra face do machismo"