domingo, 20 de outubro de 2013
Vida
A vida é tão maravilhosa porque também é feita de colos,
de feridas que cicatrizam,
de AMIGOS que celebram ou choram junto.
Feita de pessoas apaixonadas e apaixonantes,
possíveis e impossíveis,
pessoas que machucam,
pessoas que chegam pra curar.
Marla de Queiroz
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A estrelinha polar
Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra
De repente o mar fosforesceu, o navio ficou silente
O firmamento lactesceu todo em poluções vibrantes de astros
E a Estrelinha Polar fez um pipi de prata no atlântico penico.
O firmamento lactesceu todo em poluções vibrantes de astros
E a Estrelinha Polar fez um pipi de prata no atlântico penico.
Vinicius de Moraes
sábado, 12 de outubro de 2013
A pulga
Feliz Dia das Crianças
A pulga
Um, dois, três
Quatro, cinco, seis
Com mais um pulinho
Estou na perna do freguês
Um, dois, três
Quatro, cinco, seis
Com mais uma mordidinha
Coitadinho do freguês
Um, dois, três
Quatro, cinco, seis
Tô de barriguinha cheia
Tchau
Good bye
Auf Wiedersehen
Vinicius de Moraes
sábado, 7 de setembro de 2013
Guitarra y vos
Que viva la ciencia,
Que viva la poesia!
Que viva siento mi lengua
Cuando tu lengua está sobre la lengua mía!
El agua esta en el barro,
El barro en el ladrillo,
El ladrillo está en la pared
Y en la pared tu fotografia.
Es cierto que no hay arte sin emoción,
Y que no hay precisión sin artesania.
Como tampoco hay guitarras sin tecnología.
Tecnología del nylon para las primas,
Tecnología del metal para el clavijero.
La prensa, la gubia y el barniz:
Las herramientas de un carpintero.
El cantautor y su computadora,
El pastor y su afeitadora,
El despertador que ya está anunciando la aurora,
Y en el telescopio se demora la última estrella.
La maquina la hace el hombre...
Y es lo que el hombre hace con ella.
El arado, la rueda, el molino,
La mesa en que apoyo el vaso de vino,
Las curvas de la montaña rusa,
La semicorchea y hasta la semifusa,
El té, los ordenadores y los espejos,
Los lentes para ver de cerca y de lejos,
La cucha del perro, la mantequilla,
La yerba, el mate y la bombilla.
Estás conmigo,
Estamos cantando a la sombra de nuestra parra.
Una canción que dice que uno sólo conserva lo que no amarra.
Y sin tenerte, te tengo a vos y tengo a mi guitarra.
Hay tantas cosas
Yo sólo preciso dos:
Mi guitarra y vos
Mi guitarra y vos.
Hay cines,
Hay trenes,
Hay cacerolas,
Hay fórmulas hasta para describir la espiral de una caracola,
Hay más: hay tráfico,
Créditos,
Cláusulas,
Salas vip,
Hay cápsulas hipnóticas y tomografias computarizadas,
Hay condiciones para la constitución de una sociedad limitada,
Hay biberones y hay obúses,
Hay tabúes,
Hay besos,
Hay hambre y hay sobrepeso,
Hay curas de sueño y tisanas,
Hay drogas de diseño y perros adictos a las drogas en las aduanas.
Hay manos capaces de fabricar herramientas
Con las que se hacen máquinas para hacer ordenadores
Que a su vez diseñan máquinas que hacen herramientas
Para que las use la mano.
Hay escritas infinitas palabras:
Zen, gol, bang, rap, Dios, fin...
Hay tantas cosas
Yo sólo preciso dos:
Mi guitarra y vos
Mi guitarra y vos.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
O rio
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
sábado, 31 de agosto de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
O exemplo das rosas
Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:
- Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
- Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?
Manuel Bandeira
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
sábado, 17 de agosto de 2013
Alfabeto
terça-feira, 13 de agosto de 2013
QUERIDO CAIO FERNANDO ABREU
Me explique, bruxo? Onde estiver me explique.
Como alguém pode vir morar contigo, dizer que te ama na noite anterior, e sumir de repente sem nenhum arrependimento?
Amor muda de ideia? Amor é leviano assim? Amor é brincar de destruir?
O que digo agora também já está morrendo?
Morrer produz barulho, sei, mas e o barulho de viver? Não dá para ouvir daí?
Como do homens dos sonhos você se torna um homem sem sonho?
Como uma manhã sem falar doía nela e hoje o amanhã sem falar nem provoca ansiedade?
Como alguém não guarda em si o mínimo de autocrítica para refletir as últimas semanas?
Eu dividiria até meu egoísmo com ela. Não ficaria com ele sem partilhar. Como não se fracionar? No momento em que a gente se guarda a gente se perde, não?
Como alguém que ama decide alguma coisa? Logo no amor, Caio? Amor não é adiar? Amor não é humildade?
Vejo que o erro é arrogante, Caio. Como existe soberba na maldade, hein?
Será que foi vingança de relações passadas? Eu era o intervalo de um ódio?
Será que não devia ser sincero, fiel, não podia confessar minhas fraquezas, falar o que temia? Honestidade não combina com amor?
Eu que sou garrancho, arredondei a letra no caderno de caligrafia, escrevi entre as linhas de baixo e de cima, bem certinho, você ficaria orgulhoso conhecendo minha pressa, mas só você, Caio, só você sabe o enorme sacrifício que é escrever entre as linhas.
Será que a felicidade machuca? Será que a felicidade nunca é suficiente? Será que os casais se separam porque acreditam que podem ser felizes sem ninguém? Ou acreditam que podem ser ainda mais felizes do que estão sendo?
Será que a solidão mente o que somos?
Se o afeto sufoca, me diz, então, o que liberta?
Será que é só conhecer uma intimidade que somos empurrados para fora? Será que a pessoa não se gosta nem um pouco para admitir testemunhas? Será que sabemos demais, enxergamos demais, e nosso corpo é obrigado a desaparecer? Amar é coisa de máfia?
Será que recebemos a culpa por problemas pessoais? Que é mais fácil encerrar a relação do que assumir os medos?
O amor é um mal-entendido, é ilógico, Caio? Estou começando a crer nesta hipótese.
Como alguém pode se entregar loucamente e depois alegar que nada tem mais importância?
Que piração é esta, Caio? Isso também acontece no mundo dos mortos? Ou os mortos são mais estáveis? Ou os mortos são mais confiáveis?
Como alguém faz declaração pública de amor e depois diz que desejava invisibilidade?
Como confiar no silêncio se não há esperança?
Eu fingi que era diferente? Não expressei como era desde sempre, não avisei como funcionava?
Como alguém cultiva os meus amigos e filhos, defende o nosso destino, numa hora e na hora seguinte se mostra surda a todo conselho, surda a toda dúvida, surda a toda incerteza?
Como alguém pode jogar a história fora? Por facilidade? Não conheço nada fácil, nem a amizade. Não pode ser.
Será que ninguém mais lê mais poemas hoje, Caio? Poemas não têm final. O amor deveria ser como um livro de poesia. Para se ler fora de ordem. Para se ler um pouco por dia. Desprovido de desfecho. Poema é releitura na primeira leitura.
Caio, não suporto que digam que mulher não gosta de homem que se entrega, que temos que omitir, que temos que jogar. É uma cilada machista, não lhe parece, para justificar a grosseria e a ausência de interesse?
O que será da intensidade longe da doação?
Onde foi parar a delicadeza dela, a ternura de antes? Foi uma miragem?
Onde as pessoas escondem o amor, Caio? Onde as pessoas enterram os ossos de suas alegrias?
Como alguém pode ser frio, indiferente, insensível a ponto de usar as frases mais duras e impessoais, sem se importar com o sofrimento que causa?
Como alguém manda mensagens como se estivesse realizando um favor? Que superioridade é esta? Cadê o nervosismo que pede um abraço?
Como alguém não se esforça para retroceder o baque, zerar os meses? Por amor, a gente apaga que nasceu um dia, não é mesmo?
Como alguém não cancela sua atitude? Que obstinação é essa de machucar, de sangrar ruas e lugares prediletos?
Como alguém não sente saudade, não inventa saudade, não cria saudade? É um produto em falta por aqui, Caio, pode mandar material? Mande garoa de palavra para recriar saudade, por favor?
Como não retornar pela verdade, se eu voltaria ainda que fosse uma mentira?
Como não caminhar recuando se avançar é lembrar?
Como o outro termina sem conversar, termina por terminar, termina de modo cruel o que não havia sinalizado?
Como alguém emprega a porta para pisar as mãos, permanece agredindo quem merecia uma fresta de compreensão?
Como alguém afirma que nada muda da noite para o dia e esquece as noites que mudaram seus dias?
Como esse mesmo alguém é outro, já outro, tão outro que nem sei mais quem fui?
Como não desconfiar do passado, como não imaginar que tudo foi uma mentira?
Como não se sentir usado pelos anjos, corrompido pela dor?
Como, Caio?
Alguém mentiu, Caio, para mim. Para si. E para todos.
Eu não desisto do que falei um dia com todo o coração. Mas sou eu, Caio, sou eu. Não posso exigir isso de ninguém.
Viver é incompreensível.
Um beijo. Cuide-se.
Fabrício Carpinejar
sábado, 6 de julho de 2013
Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Espera
Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade.
Cora Coralina
sábado, 29 de junho de 2013
Não há vagas
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira
sábado, 22 de junho de 2013
Tragédia brasileira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,
Conheceu Maria Elvira na Lapa, – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura… Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos…
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de
inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
Manuel Bandeira
domingo, 16 de junho de 2013
Solidão
Trêmulas jangadas,
sempre sossegadas
sobre as ondas mansas:
por que não partis?
Que áureas esperanças
sopram no mar largo,
chegam como pássaros,
ninguém sabe de onde?
Trêmulas jangadas,
sempre sossegadas
sobre as ondas mansas:
que evocais ao luar?
Velhas esperanças,
chama que se finda,
ou vossa amargura,
mais íntima e pura,
vem da luz que ainda
bóia sobre o mar?
Trêmulas jangadas,
sempre abandonadas:
por que não largais?
Que áureas esperanças
vão para o mar largo,
voam como pássaros,
sobre as ondas mansas
para nunca mais!
Emílio Moura
segunda-feira, 10 de junho de 2013
sábado, 8 de junho de 2013
domingo, 2 de junho de 2013
Cercanias
Há um prazo certo
um tempo justo
para olhar este mundo
— de relance.
Num abrir e fechar de olhos,
vão-se as paisagens
cercanias e miragens
— última chance.
Lenilde Freitas
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Oração para Aviadores
Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.
Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.
Santa Clara, clareai.
Manuel Bandeira
Perguntas
Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.
William Shakespeare
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.
William Shakespeare
domingo, 26 de maio de 2013
Brrrrrrrrrr
Quem trocaria braços abertos sobre a Guanabara por braços cruzados e mãos embaixo da axila? Quem preferiria correr o risco de se gripar dia sim, outro também? E quem haveria de considerar agradável sair debaixo das cobertas de manhã cedo para enfrentar um dia que nem virou dia ainda?
Mas isso foi aos 16. Cresci, amadureci e me reconciliei com o inverno. Passei a valorizar os casacões, as botas, o vinho, a lareira, as paisagens serranas, enfim, o lado romântico da estação. Cheguei a admitir em um poema que o inverno era minha estação preferida. Provavelmente, uma tentativa de que me levassem mais a sério. Adultos respeitáveis não combinam com bermuda, e sim com sobretudos.
Não ficam rindo à toa, mantêm a classe da sisudez. Não tomam chope, não dançam em rodas de samba, odeiam Carnaval, nunca foram fotografados em situações vulgares. Escritores, menos ainda. Imagine uma Marguerite Duras de biquíni em Capão, um Philip Roth de sunga tomando banho de mangueira no quintal. O cachecol é que dignifica os intelectuais.
Segui vivendo, amadureci mais um pouco e finalmente cheguei a uma conclusão definitiva: às favas com minha credibilidade, que a adulta em mim procure asilo na Sibéria. Hoje afirmo, assino embaixo e reconheço firma em cartório se for preciso: tenho pavor de sentir frio. A elegância que os dias gélidos me conferem não compensa a leveza e o bom humor que me são subtraídos. E vinho tinto eu tomo em qualquer estação.
Só quem ganha com o inverno é o turismo, já que o frio é nossa principal atração turística. No mais, quem em seu juízo perfeito iria curtir passar o dia com o nariz gelado, as pernas enrijecidas e sentindo-se tentado a matar o banho? Quem não se assusta com o valor da conta de luz no fim do mês? E o que se gasta em farmácia? Mulheres, me ajudem: como se vestir adequadamente para um casamento numa noite em que faz 4°C? E vocês, rapazes, têm tido coragem de tirar as meias antes de dormir?
Cresci, amadureci, mas não adiantou nada: contrariando a evolução da espécie, voltei ao tempo em que era movida a energia solar. Menos mal que sempre teremos intelectuais de cachecol para salvar a pátria.
Martha Medeiros
Zero Hora 06 /07/ 2011.
sábado, 18 de maio de 2013
Saudade
A saudade é um parafuso
que quando a rosca cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai.
Mas quando enferruja dentro
nem distorcendo não sai.
Raul Seixas
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Outros ângulos da inveja
Recebi ontem um e-mail espetacular: o leitor se considera um invejoso nato e diz que seu esporte preferido é visitar condomínios luxuosos em Atlântida e Porto Alegre, quando se delicia ao invejar seus felizes proprietários.
Ele não pode passar um dia sequer sem invejar os outros.É da sua vocação a inveja.
Fico a imaginar que esta invejoso detesta visitar presídios, hospitais e asilos, onde não tem a quem invejar.
Foi então que flagrei uma característica da inveja que me tinha passado despercebia, eu que tanto já escrevi sobre a inveja em minhas colunas.
É que o invejoso se compraz em admirar os atributos e as propriedades dos outros.
E obrigatoriamente - é da síntese da sua vocação - ele exalta as qualidades dos outros.
E ao exaltá-la, ele está declarando que as qualidades do outro são muito maiores do que as dele.
Vejam então como dói ao invejoso a inveja: ele se sente assim totalmente inferior ao invejado, aliás, só pode invejar que vê no objeto da sua inveja uma nítida superioridade sobre si mesmo.
E, ao declara-se inferior, quanta dor e quanto infortúnio isso causa ao invejoso. Rói-o por dentro aquela condição superior do invejado, mais lhe causa inveja e rancor a sua própria feiura e pobreza, a sua fraqueza, a sua falta de talento.
Este invejoso, todas as manhãs, quando levanta da cama, sai para a rua para assistir ao desolador espetáculo dos que possuem mais do que ele, dos que atraem as mulheres mais do que ele, os que tem carros mais belos e possantes do que o seu carro.
O invejoso não olha para trás, nem enxerga os que possuem menos do que ele, só lhe interessa os que possuem mais.
Se lançasse seu olhar sobre os que têm menos dinheiro do que ele, sobre os que são mais fracos e mais doentes do que ele, sobre os que têm menos talento do que ele, seria feliz.
Nada disso, sua inveja inata atiça, apenas nele o interesse de admirar nos outros o que mostram de mais vantajoso ou brilhante com relação a ele.
E em seguida se dá nele um fenômeno estupendo: como consequência natural de sua inveja sobrevém-lhe o ódio.
E então que aparece a face violenta da sua inveja: ele passa a agredir permanentemente os seus invejados. Como se seus invejados fossem culpados de serem melhores que ele.
E se atira com devoção e aplicação à agressão destemperada e contínua dos invejados.
O invejoso é o mais sofrido e atribulado entre todos que frequentam as relações humanas.
Paulo Sant'Ana
Zero Hora 06/07/2011
terça-feira, 14 de maio de 2013
Poesia
Poesia, face secreta,
mas tão luz, se concebida.
Poesia, sentido pleno
do que há de vida na vida.
Emílio Moura
sábado, 11 de maio de 2013
Poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mario Quintana
terça-feira, 23 de abril de 2013
Morrer é ridículo
Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada,
está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem,
precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no
carro e no meio da tarde morre. Como assim?
E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?
Não sei de onde tiraram esta idéia:
MORRER!!!
A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio
estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve
lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física,
quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para
estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer
da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora
de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente...
De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway,
numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis.
Qual é?
Morrer é um chiste.
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém,
sem ter dançado com a garota mais linda,
sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida.
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e
penduradas também algumas contas.
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas,
a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.
Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce,
caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina,
começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte
costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã.
Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o
sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não
acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase
nada guardado nas gavetas.
Ok, hora de descansar em paz.
Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão,
desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero.
E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.
Por isso viva tudo que há para viver.
Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida...
Perdoe... Sempre!!!"
Pedro Bial
Perdoe... Sempre!!!"
Pedro Bial
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Tanta coisa a fazer
- Algumas coisas a gente tem que fazer sempre. A gente sempre tem que escovar os dentes depois de comer.
Ele não quer comer, e eu:
- Algumas coisas a gente tem que fazer sempre. A gente tem que se alimentar todos os dias.
Ele não quer se recolher para dormir, e lá vou eu:
- Algumas coisas a gente tem que fazer sempre. A gente tem que ir dormir em certa hora da noite.
Até que, dia desses, depois de eu repetir mais uma vez que a gente tem que ...ele suspirou:
- A gente tem que fazer muita coisa, papai ...
Três aninhos e já está soterrado pelo peso das obrigações. Três aninhos ...
No outro extremo da existência, tempos atrás, uma senhora amiga de uma amiga minha, ao completar 60 anos suspirou como suspirou meu filhinho:
- Que bom chegar aos 60 anos. Assim não preciso mais estudar inglês , nem fazer sexo.
Se é verdade que depois dos 60 anos a gente não precisa mais estudar inglês, eis aí uma boa notícia. Estudar inglês é um porre.
Quanto ao sexo, considero uma atividade divertida, não um fardo, mas reconheço que todo processo envolvido na negociação para se obter consentimento para o sexo é cansativo.E depois, quando todo já foi consumado, o trabalho de manutenção é ainda mais desgastante. Mesmo assim, não seria esse gênero de obrigação que me faria reclamar.
O que me faz reclamar é dar razão ao meu filhinho e à senhora sessentona é constatar que, quanto mais se desenvolve a ciência e a tecnologia, mais coisas tenho a fazer. Quer dizer, a vida não fica mais simples, fica mais complicada.As pessoas não apenas exigem que você estude inglês, elas também querem que você tenha uma página no Facebook, um perfil no Orkut e outro no tuíter, querem que você faça exercícios todos os dias e mastigue os alimentos 42 vezes, querem que você responda todos os emails e leia os jornais do centro do país, querem que você faça limpeza nos dentes e o exame de toque, querem que tire a pressão de 15 em 15 dias e que verifique o nível do seu colesterol. E querem que você trabalhe.
Ao meu filho, que só quer brincar, repito sempre:
- Está apenas começando ...
Porém, não é bom que termine, e é isso que tenho a dizer à senhora sessentona. Quando você para de aprender e de fazer , quando você para de lutar, você está parando de viver. Pode ser cansativo, mas, como disse um dia Mencken, a vida quer ser vivida. Espero que isso sirva de consolo à senhora sessentona, ao meu filhinho, a mim mesmo, com minhas fadigas, mas principalmente, espero que sirva de conforto a todos os que se revoltam com a possibilidade de aumentar a idade para se aposentar. A reforma nas aposentadorias é inevitável em todo o mundo. Será daqui também. Todos trabalharemos mais tempo. Mas viveremos mais tempo também.
David Coimbra
Zero Hora, 1º/ 07/ 2011
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