sábado, 19 de julho de 2014

Melhor






 Ah, bem melhor seria 

Poder viver em paz 


Sem ter que sofrer 


Sem ter que chorar 


Sem ter que querer 


Sem ter que se dar 





Vinícius de Moraes

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Saudade





Saudade! Palavra que dizem só existir no português,
mas que, com certeza,  todos sentimos.
Seja criança ,seja adulto,homem ou mulher,idoso.


Sentimos saudade da infância,dos cheiros que nos remetem a  coisas boas e ruins que já vivemos.

Sentimos saudades dos amigos que fizemos ao longo de nossas vidas e que foram ficando pelo caminho.
Sentimos saudades dos lugares onde já fomos e ate dos que queremos ir .
Sentimos saudades dos primos com quem   não brincamos mais.
Sentimos saudades das festinhas de garagem.
Sentimos saudades da comida da vovó.

Sentimos saudades de não ter nem uma preocupação a não ser estudar e brincar.
Sentimos saudades até da escola, de estudar,kkk.
Sentimos saudades dos professores .


Sentimos saudades de comidas que já comemos ou que queremos comer ainda.
Sentimos saudades de quem mora longe.
Sentimos saudades do silêncio e também do barulho.
Sentimos saudades de momentos felizes e até  dos tristes.
Sentimos saudades de pessoas que não veremos mais nesta vida.
Saudade significado : jeito gostoso de reviver momentos.


Clivia Calvet

domingo, 13 de julho de 2014

Proibido




Mαntenhα-se αtrás dα fαixα αmαrelα, 

não chegue muito perto,

não αcerque-se de meus trαumαs, 

não invαdα meus mistérios, 

não αtrite-se com o meu pαssαdo, 

não tente entender nαdα: 


é proibido tocαr no sαgrαdo de cαdα um.



Martha Madeiros

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Soneto do gato morto



Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

Vinicius de Moraes

domingo, 29 de junho de 2014

Costuras







"A gente podia poder costurar o tempo,

bordando em cima dos erros para que eles sumissem.

Costurar as pessoas que gostamos pertinho.

Costurar os domingos, um mais perto do outro.

Costurar o amor verdadeiro no peito de quem a gente ama.

Costurar a verdade na boca dos seres.


Costurar a saudade no fundo de um baú para que ela de lá não fuja.


Costurar a auto estima bem alto, pra que nunca ela caia.


Costurar o perdão na alma e a bondade na mão.


Costurar o bem no bem e o bem sobre o mal.


Costurar a saúde na enfermidade e a felicidade em todo lugar."

Janaína Cavallin)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ajudando africanos

Outro dia uma menina no fulgor dos seus vinte e poucos anos soprou um suspiro sabor tutti frutti no meu nariz e desabafou:
– Minha vida não está legal. Queria ir para a África, ajudar aquelas pessoas.
Fiquei pensando. Ela pretendia resolver seu problema existencial ajudando os necessitados. Interessante. É uma maneira caridosa de dar sentido à vida. Se vai funcionar, se a vida dela ganhará sentido com a solidariedade, isso é outra história. O que importa é a intenção. E a intenção dela não era ajudar qualquer necessitado, era ajudar africanos necessitados. Miséria é miséria em qualquer canto, verdade, mas a miséria dos africanos é ainda mais comovente, porque, afinal, eles são pretos e pobres, e no mundo inteiro é ruim ser preto e pobre.
Então, é muito nobre ajudar africanos. É mais charmoso, também. Ajudar pessoas na Vila Cruzeiro é uma coisa; ajudar pessoas na Somália, outra. Quem se interessaria pelos problemas da Vila Cruzeiro numa mesa de bar da Cidade Baixa? Agora, vá falar da Somália, aquele lugar distante e misterioso… Não há dúvida, ajudar os africanos tem suas recompensas, afora as da consciência apascentada.
Em todo caso, o que me interessou mesmo foi a forma que a garota encontrou de sublimar sua própria vida: ela queria, de alguma maneira, ser importante para os outros. Para alguém. O amor romântico exerce essa função. Não é por outro motivo que os caminhoneiros mais rudes vertem lágrimas na boleia quando ouvem Zezé di Camargo se esganiçar:“É o amor! Que faz eu lembrar de você e esquecer de mim!”. Zezé di Camargo, incrível!, definiu, senão o sentido da vida, a busca do sentido da vida: lembrar de você e esquecer de mim. Você só achará sentido na vida se se doar, seja para uma mulher de olhos tristes, seja para a tristeza da miséria africana.
Veja lá a Angelina e o Brad e tantos artistas ricos e famosos de Hollywood, veja o Bono, o velho George Harrison, que não está mais entre nós, e muitos, muitos outros célebres no mundo todo:eles, aparentemente, chegaram ao topo, mas, do topo, olhando para baixo, sentem a necessidade de ajudar os outros, não raro os pobres africanos, como a minha jovem amiga. A necessidade de dar. De se dar. Os outros. O mais importante são os outros. Quando é que vamos aprender isso?

David Coimbra

sábado, 14 de junho de 2014

Remédios

Eu tomo um remédio para controlar a pressão.

Cada dia que vou comprar o dito cujo, o preço aumenta.

Controlar a pressão é mole. Quero ver é controlar o preção.

Tô sofrendo de preção alto. 

O médico mandou cortar o sal. Comecei cortando o médico, já que a consulta era salgada demais.


Para piorar, acho que tô ficando meio esquizofrênico. Sério!
Não sei mais o que é real.


Principalmente, quando abro a carteira ou pego extrato no banco.
Não tem mais um Real.

Sem falar na minha esclerose precoce. Comecei a esquecer as coisas:
Sabe aquele carro? Esquece!


Aquela viagem? Esquece!


Tudo o que a "presidenta" prometeu? Esquece!

Podem dizer que sou hipocondríaco, mas acho que tô igual ao meu time:
- nas últimas.


Bem, e o que dizer do carioca? Já nem liga mais pra bala perdida...


Entra por um ouvido e sai pelo outro.

Faz diferença...


"A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem o governo em Praga e o Brasil tem essa praga no governo"

" Não tem nada pior do que ser hipocondríaco num país que não tem remédio" ....

Luiz Fernando Veríssimo

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Regras







Li em algum lugar que há uma regra de decoração que merece ser obedecida: para onde quer que se olhe, deve haver algo que nos faça feliz.


Martha Medeiros

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tempo






 Não há tempo consumido nem tempo a economizar.


 O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar.


 O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer 

medida.


 Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida.



Carlos Drummond de Andrade

O pé





Vi que ele olhava para os pés dela. Para um pé, na verdade.
O direito.
Olhei-o também. Bom pé. Pé magro, de aparência macia, com dedos em harmoniosa escadinha subindo do mingo frágil ao dedão encorpado mas jamais rombudo.
Isso de pé. Não sou dos fanáticos por pé. Aprecio belos pés, claro, mas os desgraciosos não são eliminatórios para mim. Dizem que a Naomi Campbell tem pés horríveis, e isso não me impede de admirar o trabalho dela. E a Xuxa, há quem garanta que ela só usa botas por vergonha dos pés. Será? Tenho pensado nisso, volta e meia.
De qualquer forma, eu e ele olhávamos agora para o pé direito dela. Estávamos à espera de mesas num restaurantezinho da orla catarinense, eu num canto, eles noutro. Eles formavam um casal de namorados, supus. Ele mais velho, ela na glória de seus vinte e poucos anos. Ela estava numa cadeira mais alta, ele ao lado, num banquinho humilde. Ela havia cruzado as pernas, a direita por cima da esquerda, e por isso seu pé direito balançava com indolência no ar.
Ele, não o namorado, o pé, ele estava calçado com uma sandália baixa, amarrada ao tornozelo. Subia e descia, subia e descia devagar, até que ele, o namorado, não pé, até que ele o colheu.
Com delicadeza, o namorado interrompeu o vôo suave do pé direito da namorada. Tomou-o com as duas mãos, pela sola da sandália e pela base da canela. A namorada, do alto, olhou sem muito interesse. O namorado, então, levou aquele pé aos lábios, como se fosse um cálice de vinho consagrado, e o beijou. Beijou-o profundamente, com os olhos fechados de devoção, aspirando-lhe o perfume, e depois o depositou de volta ao ponto de repouso. O namorado ficou ainda fitando o pé adorado, satisfeito, e ela, a namorada, encheu os pulmões de ar e sorriu, iluminada, sentindo-se uma deusa, sentindo-se uma rainha, e eu, do meu canto, pensei que, das coisas que um homem pode fazer na vida, raras são tão belas, tão poderosas, tão grandiosas do que fazer uma mulher sentir-se uma deusa, uma rainha, porque, naquele momento, ela estará se sentindo, inteira, o que de melhor ela é: uma mulher.
********
O papagaio
Dia desses, me aborrecia numa sala de espera e, na TV pendurada na parede a minha frente, passava o programa matinal da Globo. Vi a apresentadora, a Ana Maria Braga, conversando com um papagaio de plástico. Era uma conversa fluente. O papagaio fazia ponderações, a humana contra-argumentava, tudo muito tranquilo, muito racional. Admirei profundamente a Ana Maria Braga naquele instante. Eu não conseguiria ser tão natural ao interagir com um papagaio de plástico. No Pretinho Básico, quando falo com algum dos personagens, fico meio sem jeito. Mas a Ana Maria Braga, não. A Ana Maria Braga levava o papagaio a sério. Percebi que ela se importava com as opiniões do papagaio e que ele, de alguma forma, era essencial para o desenvolvimento do programa.
Minha admiração, então, elevou-se da competência profissional da Ana Maria Braga para a criatividade da raça humana em geral. Imaginei os homens e mulheres que bolaram esse programa reunidos, anos atrás, e um deles propondo:
_ Que tal nós colocarmos no ar uma mulher conversando com um papagaio de plástico de manhã cedo, todos os dias?
E os outros socariam as próprias mãos, exclamando:
_ Boa ideia!
E o programa iria ao ar e faria o grande sucesso que faz.
Não é genial? Que percepção do gosto popular! Que sensibilidade!
Um papagaio de plástico. Jamais pensaria nisso. Lembro do ratinho Topo Giggio, que contracenava com o Agildo Ribeiro e cantava meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá. Não era como o papagaio da Ana Maria. Não, aquele era um programa para crianças. E o papagaio da Ana Maria não é um personagem com aventuras próprias, como o Topo Giggio. Mesmo assim, deu certo. O Big Brother dá certo aqui como em nenhum outro lugar, os Sarneys dão certo aqui há 50 anos, por aqui os funkeiros ficam ricos, por que não um papagaio de plástico conversando com uma senhora? O Brasil, de fato, é um país generoso.
David Coimbra

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A canção mais recente



O poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eternamente matutina.

Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Alem disso o amanhã
nunca deixará de ter pássaros.


Cassiano ricardo

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A dança da sobrevivência



Do que um homem precisa, quando acorda de manhã?
Do que um homem re-al-men-te precisa?
É óbvio: precisa do beijo da mulher amada e de scrambleds, necessariamente nessa ordem.
Mas, por infortúnio cultural e geográfico, brasileiros não estão acostumados com scrambleds matinais, embora beijos de mulheres amadas sejam plausíveis. Scrambleds, você sabe: ovos mexidos.
Existem preconceitos proteicos no Brasil, e é por isso que os scrambleds foram banidos das mesas de café da manhã de Porto Alegre a Manaus, com exceção das de hotéis e pousadas, que anseiam por seduzir estrangeiros. Então, os grandes scrambleds da minha vida ocorreram em viagens e é por isso ora trato deles: porque estou indo passar uma temporada no Grande Irmão do Norte, a terra abençoada dos scrambleds, do bacon, do hot-dog e da Megan Fox.
Mas terá sido um norte-americano o iluminado inventor dos scrambleds? Ou tal iguaria foi concebida na pátria-mãe, a Velha Álbion? O omelete, sei que sim. Séculos atrás, respirava na Inglaterra um rapaz chamado Oswald Mellet. Amante da boa mesa, tanto gourmet quanto gourmand, seu sonho era abrir um restaurante, mas os pais dele queriam que fosse médico. Obediente, o jovem Oswald cursou medicina, formou-se com honras e, por fim, apresentou o diploma aos pais orgulhosos. Só que não montou o consultório, e sim o restaurante. E, numa ironia tipicamente britânica, pregou na parede uma placa com os dizeres: “Dr. O. Mellet”. Como sua casa era especializada em pratos com ovos, a receita principal passou a ser designada pelos clientes como… omellet. Donde, omelete.
Será que o doutor Mellet servia scrambleds em seu estabelecimento? Tenho de pesquisar.
Em todo caso, já provei excelsos scrambleds na terra da rainha. Uma vez, em Edimburgo, na Escócia, a dona da pensão em que me hospedava perguntou, ao café da manhã:
_ Quantos ovos você vai querer?
E eu:
_ Um, obrigado.
Ela:
_ Quantos ovos você vai querer?
Eu, desconfiado do meu inglês, escandindo as sílabas:
_ Just one, thank you.
_ Quantos ovos você vai querer?
Eu, mostrando o indicador espetado no ar:
_ Um! Um! Um!
Ela, balançando a cabeça:
_ Um homem do seu tamanho não pode comer apenas um ovo de manhã.
Eu, humilhado:
_ Dois ovos, por favor.
Devia ter pedido scrambleds.
Mas o melhor scrambled da minha vida não o comi em hotéis ou pousadas, não o comi nem em minha própria casa ou na da mãe ou na da avó, sublime cozinheira. O melhor scrambled da minha vida foi um scrambled improvável.
Estava em missão jornalística no alto dos Andes colombianos, 4 mil metros acima do nível do mar, num povoado em que restavam tão-somente 12 famílias _ os outros moradores haviam fugido da guerra das Farc. Passava da meia-noite, nosso carro havia quebrado, nós não tínhamos como continuar a viagem para cima nem para baixo, não existia transporte no lugar, nem posto de abastecimento, nem polícia, nem prefeitura, nem nada, e ninguém abria as portas para nós, em obediência ao toque de recolher da guerrilha. Estávamos, eu, o motorista colombiano e o fotógrafo José Doval, cansados, famintos e com frio. Então, batemos com insistência à porta de um pequeno armazém, e o dono atendeu. Explicamos nossa situação e ele aceitou nos ajudar. Conseguiu-nos cobertores, ligou um grande rádio de ondas curtas, serviu-nos uma cachaça branca colombiana e foi para a cozinha. Voltou de lá com latas de sardinha abertas e scrambleds numa panela. Comemos feito leões devorando gnus. Comemos feito feras. E depois, ouvindo a música alegre que se evolava do rádio, dançamos na madrugada andina, os três em volta à mesa como índios, enrolados nos cobertores, para divertimento do dono do armazém. Dançávamos, veja só. Dançávamos como se estivéssemos na festa mais louca, alegres pelo acolhimento, por aquela saborosa refeição, por estar vivos.
Foram os scrambleds da minha vida. Scrambleds de sobrevivência.
É assim. As coisas boas da vida ocorrem nos momentos e nos lugares mais imprevisíveis. Era para ser só um chopinho, e foi um encontro encantador. Minha intenção era ficar 15 minutos, e agora não saio mais daqui. Era um autor desconhecido, mas para mim virou um clássico. E até o Gauchão pode vir a ser uma grande alegria, por que não? Você não sabe onde vai encontrar os scrambleds da sua vida.
David Coimbra
21/01/2014

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

NÃO COMEREI DA ALFACE A VERDE PÉTALA




Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro; deem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

Vinicius de Moraes

sábado, 25 de janeiro de 2014

Pampianas: A algariada tagarelice dos pintos



O dia empurrava a carreta das sombras, e os primeiros raios de luz se embrenhavam nos ramos do arvoredo. E lá estávamos, à porta das casas, como acontece um dia sim e outro também, eu e a Mozinha, dileta esposa, deitando mate nos queixos.
De minha parte, um dizer de coisas curtas. Da parte dela, assunteios mais nutridos e prolongados. Lá pelas tantas, passa aquela procissão festiva da galinha com sua ninhada de pintinhos.
Altivo, tomando posse de um galho da figueira, lá estava o Lorito, meu papagaio de estimação. Volta e meia me estendia o seu atencioso “bom dia Dr. Laurindo”, quase sempre emendado com a solicitação de um mate, posto que tornara-se arregimentado às tradições gaudérias.
Lembrei aquele humilde santo que alardeava aos quatro ventos “os animais são nossos irmãos menores”.
Concordo em partes, dos bichos de penas sou irmão dos passarinhos. De escamas, dos peixes. De guampas, dos touros. Agora, não me venham conferir irmandade ou parentesco com jararacas e caranguejeiras que eu estabeleço minha recusa em atropeladas discordâncias.
Logo larguei a escaramuçar meu pensamento:“O Lorito fala pelas tripas porque tem a língua pontuda. Na ninhada, os pintinhos todos de língua redonda redondinha pelas voltas e beiradas”.
– Mozinha, traz a tua tesourinha de bordados que vou fazer um experimento!
E fui formatando a língua dos bichinhos nas linhas das circunferências com precisão e cuidado, sem esquecer do algodão e mercúrio para espantar padecimentos. Mas não é que num repente a pintalhada se reuniu e saiu alvoroçada, num corre-corre faceiro, rindo e gritando: “Obrigado Dr. Laurindo!”.
Um dia desses, a Mozinha com seu sábio pensar me lembrou que a invencionice é tudo.
– Não fosse um tal de Édson, a gente teria de assistir televisão à luz de velas.
Para mim, as duas grandes invencionices da inteligência humana são o avião e o descascador de espiga de milho. Bueno, a conversa tá boa, mas chegou a hora de ganhar campo que hay que recontar a gadaria.
Luiz  Coronel
Zero Hora 25/01/2014

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A partida


Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O IMPOSSÍVEL É O SOBRENOME DO MEDO



Perdemos mais tempo arrumando desculpas do que vivendo.

Perdemos mais tempo adiando do que aceitando a dificuldade.

Perdemos mais tempo explicando a desistência do que enfrentando o sim.

Eu garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar. Porque estaremos longe, mas com saudade. Porque estaremos protegidos, mas vazios. Porque estaremos aliviados, mas entediados.

A vida é simples, milagrosamente simples.

A esperança é firmeza. Consiste em seguir adiante mesmo com pânico, mesmo com receio.

Não há como acalmar o coração senão vivendo.

Parece que nunca conseguiremos fazer, mas vamos fazer, acredite, toda a vida foi feita de sustos bons.

Somente tememos o que é importante. Somente temos dúvidas do que é essencial. Somente entramos em crise por enxergar com clareza a dimensão de nossa escolha.

Os riscos valorizam a recompensa.

Viver não é para solitários. Sempre tem alguém nos chamando para nos acompanhar no perigo.

Eu pensei que nunca percorreria o corredor de minha infância caminhando, mas o vô me esperava do outro lado. Eu caí e ele me levantou com suas mãos de regente.

Eu pensei que nunca me manteria equilibrado numa bicicleta, mas meu pai fingiu que segurava a minha garupa e pedalei de olhos fechados com o vento me guiando.

Eu pensei que nunca aprenderia a ler e a escrever, mas a letra da minha mãe foi a escada para as histórias.

Eu pensei que nunca teria uma namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série.

Eu pensei que nunca conseguiria nadar, mas os braços foram se revezando até atravessar a piscina.

Eu pensei que nunca passaria no vestibular, mas sacrifiquei noites e pesadelos para um lugar na faculdade.

Eu pensei que nunca teria filhos, eu pensei que nunca dividiria a casa com alguém, eu pensei que nunca seria dependente do olhar de uma mulher, eu pensei que nunca teria dinheiro, eu pensei que nunca seria feliz.

Eu pensei, mas fui fazendo. Fazendo. Fazendo.

O impossível é apenas o sobrenome do medo.

Você acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta.

O impossível é inesquecível.

O impossível é o possível repartido. O impossível é o possível a dois.


Fabricio Carpinejar

 Zero Hora
 30/07/2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Lendas brasileiras - O Avestruz













No tempo em que somente os bichos povoavam a terra, as funções 
que hoje são desempenhadas pelos homens eram desempenhadas 
pelos bichos.

O Jaguar, por ser muito valente, era delegado de polícia; o Quero-quero era sentinela; o João-de-Barro era construtor de casas; e assim por diante. O Avestruz, proteger pernas compridas e ser muito rápido, era carteiro. Sim, carteiro! Lá ia ele, de ranchinho em ranchinho, levando cartas. Certa ocasião, a mulher do Avestruz estava chocando ovos, do quais, depois, nasceram uns avestruzinhos muito bonitinhos. Mas a mulher do Avestruz adoeceu. Então o marido foi à venda do Capincho buscar remédio para a mulher que não podia sair de casa, pois precisava estar chocando os ovos. Na venda, que era um ambiente de gente meio vagabunda, estavam festejando a chegada de um Tangará muito cantador, tocador de viola, que tinha vindo de Cima da Serra. A festa se animou quando o Tangará começou a trovar em desafio com o Anu, que era também muito cantador. O Avestruz – que tinha ido lá somente para buscar o remédio para a mulher – começou a se entusiasmar com a festa; bebeu cachaça, se embriagou e só acordou no dia seguinte, quando o sol já estava alto. Só, então, se lembrou da mulher. 

Comprou o remédio e voltou depressa, o quanto a perna dava. Mas, quando chegou à casa a mulher tinha morrido. Louco de remorso, o Avestruz pôs-se sobre os ovos para terminar de chocá-los. Um tempo depois nasceram os filhotes, mas piando muito tristes porque não tinham mãe, eram guaxos. E desde aí – para que se lembrem dos deveres de família – os avestruzes passaram a chocar os ovos, isto é, o macho é que choca e não a fêmea. 
É a mesma coisa que se, num galinheiro, o galo fosse para o choco e a galinha ficasse cantando: có-co-ró-co-có... 

 Barbosa Lessa 
Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Orquídea




A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.

Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.

Já supõe palavra
embora muda.
Já supõe insídia.

Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?


Cassiano Ricardo

SONETO DE ANIVERSÁRIO





Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinicius de Moraes